quarta-feira, 13 de junho de 2012

030 - “Parva, estou eu por andar a aturar-te”


Mariana

Não consegui negar o convite que o Ruben fez para ir almoçar com a sua família, apesar de não estar certa de que seria o melhor a fazer não podia continuar a pedir-lhe que ocultasse o facto de estarmos a namorar, lá porque não sei o que é ter mãe e pai, sei o que é ter um irmão e o que custa andar a mentir-lhe, no entanto preferi não levar o Martim até porque a Letícia já lhe tinha planos para passar uma tarde divertida com o puto.
O Martim ainda perguntou onde ia mas assim que justifiquei a minha ausência por ir tratar de um assunto com o Ruben calou-se e acabou por se afastar dando assim oportunidade da Letícia de tentar tirar “nabos da púcara” mas não lhe dei saída porque caso contrário nunca mais via-me livre dela, despedimo-nos do meu irmão e saímos.
- Ruben - olhou - leva o carro - gargalhou.
- Já estás farta, é?
- Simplesmente não faço a mínima ideia onde é a casa do teu irmão - sorriu mas acabou por agarrar nas chaves e depois de destrancar as portas entrou para o lugar do condutor, conduziu calmamente até à Margem Sul e quando chegamos estacionou o carro, tentei sair mas o Ruben puxou-me.
- Onde é que a menina pensa que vai sem dar-me o meu beijo.
- Antes de pedires devias perguntar se a menina quer dar beijos - sorriu mas não respondeu ou melhor a resposta foi mesmo os seus lábios contra os meus, acabei por dar continuidade ao beijo e só separamos as nossas bocas quando precisamos de ar.
- Preparada? - perguntou ao sair do carro.
- Até parece que vou para a guerra - gargalhou.
- Não, mas mesmo sem saberem é a primeira vez que vais estar com eles como minha namorada.
- Deixa-te de exageros - sorriu para depois tocar à campainha e uns minutos depois já tínhamos o Mauro à porta.
- Olá Mariana - cumprimentou-me primeiro a mim e só depois ao irmão.
- O que é que se passa? Estás com uma cara.
- A Soraia está cá - olhei para o Ruben - chegou há pouco para ver o Rafael, desculpa.
- Mauro, não vou andar a fugir dela, nós terminamos mas não tenho nada contra a rapariga.
- O problema não és tu mas sim eu - falei serenamente e a olhá-lo - é disso que o teu irmão está a falar por isso vou embora - o Ruben interrompeu-me.
- Nem penses se vais embora também vou e regresso mais tarde.
- Ruben não há necessidade disso, ficas com a tua família e logo combinamos qualquer coisa.
- Mariana não vais andar a fugir da Soraia só porque temos um passado em comum, ela até pode não suportar-te mas se não lhe responderes ela cala-se, sei que consegues ignorá-la e é o melhor que temos a fazer, além disso aceitaste o convite do meu irmão para almoçar e conhecer o Rafael não vais voltar atrás só porque a Soraia está cá.
- Ok, mas aviso que se começar a dar uma de perua saio porta fora antes que lhe arranque as penas - o Mauro gargalhou deixando-nos a olhá-lo.
- Confesso que gostava de ver isso - sorriu de forma cúmplice para o Ruben - mas deixando as penas na Soraia no devido lugar entrem lá.
- Onde é que está o meu sobrinho? - o Ruben perguntou mal entramos na sala o que deixou a mãe deles, a Soraia e outra rapariga a olhar-nos.
- Está a dormir - respondeu-lhe a rapariga que parti do pressuposto que era a namorada ou mulher do Mauro - então e não apresentas a tua - a rapariga calou-se o que fez o Ruben falar.
- É a Mariana uma amiga - olhou-me o que foi suficiente para ter entendido o motivo pelo qual apresentou-me como amiga, o Ruben só quis evitar problemas com a Soraia - é a Madalena, namorada do meu irmão e mãe do meu sobrinho Rafael que está a dormir - disse de sorriso no rosto.
- Bom dia - falei timidamente e depois cumprimentei a Madalena e a mãe do Ruben.
- Realmente não perdeste mesmo tempo - a Soraia rosnou ao ver-nos juntos mas ignorei-a algo que o Ruben também fez e talvez por isso saiu porta fora sem se despedir de ninguém.
- Madalena - olhou-o - o Rafael está a dormir onde?
- No quarto se quiseres vai lá vê-lo mas não acordes o menino - sorri ao ouvi-la.
- Sim - olhou-me - anda - agarrou-me pela mão e tentou arrastar-me.
- Hey - separei as nossas mãos - mas endoidaste de vez foi?
- O que foi? Não queres conhecer o Rafael, logo tu que adoras crianças - sorriu-me.
- Por muito que adore crianças detesto invadir a casa das pessoas, boa?
- Deixa-te de coisas que estás na casa do meu irmão além disso pedi autorização para ir ver o meu sobrinho.
- Ora aí está, é o teu sobrinho e a casa do teu irmão.
- Anda lá não te faças de esquisita - suspirei.
- Não é uma questão de ser esquisita mas de ter educação que às vezes é coisa que parece que não tens - ripostei.
- Olha lá caso não tenhas reparado estás em desvantagem.
- Meu menino quem te atura a ti atura qualquer pessoa e não é por estar rodeada da tua família que vou deixar de ser quem sou muito menos ter medo que saem em defesa do menino - sorriu - agora vai lá ver o miúdo e desampara-me a loja.
- Então fica aí entregue aos leões que não quero saber.
- Leões? Iria jurar que seriam mais lampiões - o Ruben que já ia a sair da sala voltou atrás - disse algum disparate, foi?
- Não, só fiquei estupefacto com a evolução dos teus conhecimentos futebolísticos, é caso para dizer a minha alma está parva.
- Parva, estou eu por andar a aturar-te - ripostei de forma automática e só quando o Mauro gargalhou é que caí em mim afinal não estávamos sozinhos, já o Ruben sorriu.
- Vocês não se matem que não vale a pena - desviei o olhar para o Mauro.
- Mano, não te preocupes que a Mariana fala, fala mas no fim não faz mal a uma mosca - olhou-me - é caso para dizer “os cães ladram e a caravana passa” - eles sorriram mas acabaram mesmo por gargalhar quando abrir a boca.
- Sou obrigada a concordar com a primeira parte do que disseste porque realmente não faço mal a ninguém agora com a segunda vais engolir uma por uma as palavras que disseste.
- Hey linda estava a brincar - sorri de forma traçada.
- Ai vai ser lindo vai quando começares a pagar pela língua, vou rir tanto e agora cala-te antes que te enterres mais - o Mauro gargalhou.
- Puto estás tramado.
O Ruben teria respondido ao irmão mas a empregada veio avisar que o almoço ia ser servido e assim que o fez vi a família do Ruben se levantar dos sofás, fiquei para trás uma vez que ele não mexeu um pé que fosse e ainda agarrou-me pela mão.
- Com que então lampiões? Desde quando é que sabes que a minha família é toda benfiquista - perguntou-me num tom de desafio.
- Basta meter o teu nome do Google que aparece muita coisa.
- Ui, isso é motivo para ter medo? Andaste a investigar-me, foi?
- Foi, tenho que saber com que linha ando a coser - sorriu.
- Gosto da parte que queiras saber mais sobre mim mas prefiro que perguntes diretamente à fonte do que andares a ler coisas que nem sempre são verdadeiras.
- Estás com medo que te descubra a careca, é?
- Não até porque não tenho nada a esconder mas evita-se suposições sem fundamento.
- Sou obrigada a concordar - o Ruben reduziu o pouco espaço que nos separava beijando-me.
- Vamos? - perguntou de sorriso no rosto, não respondi entrelacei só os nossos dedos e caminhamos lado a lado mas assim que nos aproximamos do jardim onde iríamos almoçar largou-me a mão.

Mauro

Não foi preciso mais do que uns minutos para perceber que o almoço iria ser animado, é que aquela troca de galhardetes que a Mariana teve com o meu irmão foi qualquer coisa digna de um filme de comédia. Arrisco a dizer que esqueceram-se completamente que não estavam sozinhos e só quando gargalhei com o que a Mariana insinuou quando falou que devia estar parva por o andar a aturar é que “desceram à terra”, percebi que ela ficou sem jeito e por isso meti-me na conversa na tentativa que se calassem mas o meu irmão respondeu o que não agradou a Mariana que voltou a ripostar e só se calaram quando a empregada avisou que o almoço podia ser servido, levantamo-nos todos mas eles ficaram para trás e só uns minutos depois é que se juntaram a nós.
- Puto - olhou-me - será que estás preparado para assumires mais uma responsabilidade - a Mariana olhou de imediato para o Ruben o que deu vontade de sorrir.
- Estás a falar do quê?
- Então o de seres padrinho do Rafael - sorriu.
- Lógico que estou - falou todo orgulhoso e ao olhar para a Mariana percebeu que estava a sorrir ainda que ligeiramente mas mesmo assim não resistiu e teve que implicar com ela.
- Estás a sorrir porquê?
- Queres mesmo saber? - desafiou-o o que foi motivo suficiente para ficarmos todos atentos.
- Se não quisesse não tinha perguntado.
- Ok, tu é que pediste - sorriu - é que por momentos imaginei-te a mudares fraldas ou a aturares o berreiro do teu afilhado e confesso que em ambas as situações não consegui visualizar a cena com sucesso para o teu lado, já para não falar que o Rafael vai ser outro traumatizado que nem o Nuninho que quando pode foge do teu colo para o meu - gargalhamos ao ver a cara de amuado do Ruben - é que nem o teu afilhado te atura.
- Piada, vê lá se te cai o dente com tanta graça.
- Não é piada mas sim verdade.
- Isso não é bem assim - o meu irmão tentou defender-se mas só se enterrou - o Nuninho só prefere o teu colo porque é um puto inteligente que nem o padrinho e sabe o que é bom - ficámos todos a olhá-los.
- Ui bateste outra vez com a cabeça, foi? É que estás a alucinar quando afirmas que o puto é inteligente como o padrinho - o Ruben olhou-a - desculpa lá mas o Nuninho deixa-te a léguas de distância no que toca à inteligência, é que ele quando o mando calar ou o repreendo percebe já o mesmo não posso dizer do padrinho que sempre que “abre a boca ou entra mosca ou sai asneira”.
- Estás a adorar, não estás?
- Então não? Já te confessei que dá-me gozo ver a tua cara de puto amuado, és tão mas tão fraquinho que ficas sem resposta e depois amuas - gargalhei, o meu irmão não aprende mesmo.
- Também vais gozar, é? - virou-se para mim.
- Mano, desculpa mas lembrei-me do David afinal essa do fraquinho é dele.
- Nem fales nisso que bate cá uma saudade - a Mariana olhou-o chocada - que foi? - perguntou-lhe
- “Nem fales nisso que bate cá uma saudade” - imitou-o - desculpa lá mas isso aliado a ele te chamar de fraquinho deixa um bocado a desejar - o meu irmão olhou-a
- É vê lá se falas o que queres e ouves o que não queres.
- Ui já estou cheiinha de medo, ó fraquinho - confesso que vê-los aos dois naquela picardia só dava vontade de rir mas eles lá se calaram até porque o Ruben resolveu regressar ao tema inicial.
- Mano, será que podes revelar quem é que vou ter do meu lado no dia do batizado do Rafael? - perguntou-me a mim mas quem respondeu foi a Madalena.
- Pois, isso está mais complicado, ainda não escolhemos a madrinha.
- Posso saber porquê? - olhei para a Madalena - Então é assim tão difícil reponderem?
- Puto, inicialmente tínhamos pensado na Soraia mas agora - interrompeu-me.
- Não é por já não estarmos juntos que não a podem convidar - a Mariana assim que o ouviu a dizer tal coisa fez uma cara de pavor autêntica que fez com que gargalhasse - estás a rir porquê?
- Porque a Mariana não é da mesma opinião - o meu irmão olhou-a - estou certo, não estou?
- Não tenho nada que meter-me no assunto mas confesso que não estou a imaginar a Soraia capaz de cuidar do vosso filho e tendo em conta que os padrinhos devem ser alguém em quem confiamos a vida do nosso filho e que serão como uns segundos pais acho que não será de toda a pessoa indicada, pelo pouco que conheci arrisco a dizer que só não torce o pescoço a todas as crianças porque pode partir uma unha - o meu irmão sorriu ainda que disfarçadamente.
- É impressão minha ou não toleras a Soraia?
- Madalena, não tenho que tolerar ou deixar de tolerar só respondi à pergunta que o Mauro fez.
- Vá, confessa lá que tens um ódio de estimação à minha ex do meu irmão - o meu irmão fuzilou-me com o olhar - que não a podes ver nem pintada de ouro, já para não falar que acha que é má pessoa.
- Não considero que seja má pessoa simplesmente vive no seu mundo do faz de conta e que por isso julga que basta estalar os dedos para o mundo se moldar a ela, o mal é que somos nós que nos temos de moldar às circunstância da vida e não o contrário. A Soraia é egocêntrica, fútil e mimada mas no fundo é só mais uma pessoa que veio ao mundo para ser sufocada pela vida nasceu no que se chama “berço de ouro” e no que toca a bens materiais nunca lhe deve ter faltado nada mas sem dúvida faltou-lhe algo como ouvir um não, uma palmada no rabo quando merecia, o partilhar do quarto e dos brinquedos, o terem ensinado desde pequena que nem todas as crianças têm a sorte de poderem dizer o apelido e as portas se abrirem, que muitas dessas crianças veem é as portas a serem fechadas e se querem ser alguém na vida só têm é que abrir a pestana e ir à luta - a Mariana falou tão calmamente que deixou-nos a todos sem palavras mas foi visível o quanto o Ruben estava orgulhoso dela - Agora quanto a sentir ódio dela, estás completamente errado, não perco tempo com coisas insignificantes, prefiro ignorar as pessoas do que odiá-las, sempre ignorei a Soraia exceto quando se lembrava de mexer com os meus, aí desculpem qualquer coisinha mas “quem vai à guerra dá e leva” e antes de atingirem o Martim ou aqueles a quem chamo de amigos têm que passar por mim, a Soraia abusou algumas vezes mas nunca ficou sem resposta.
- A Soraia nunca te enganou - a Mariana olhou-me - só mesmo o totó do meu irmão é que levou quatro anos a perceber quem era a Soraia.
- Não concordo com isso - o Ruben continuava calado e nós atentos à Mariana - posso brincar e até implicar com o teu irmão mas daí a achar que seja totó já é abuso - o Ruben sorriu - quando se gosta verdadeiramente de alguém dificilmente conseguimos enxergar a realidade, aos nossos olhos essa pessoa não tem defeitos e por muito que nos digam para ter cuidado não muda nada, até ao dia que devido a um acumular de situações acabamos por abrir os olhos e ter que dar razão às pessoas que nos tentaram avisar.
Não abri mais a boca talvez por a Mariana ter razão, de facto foi mesmo isso que aconteceu, o Ruben acabou por abrir os olhos após um acumular de situações principalmente depois do aparecimento dela na vida do meu irmão.
- Mas vocês não têm mesmo ideia de quem vão querer para madrinha do meu neto? - desta foi a minha mãe que falou talvez para aliviar o ambiente que se instalou depois da Mariana se ter calado.
- Anabela para mim faz sentido os padrinhos de um bebé serem um casal por isso é que tínhamos pensado na Soraia, já que o Ruben é o padrinho e isso não tem discussão possível - olhou-me e sorriu afinal sempre afirmei que o padrinho do meu primeiro rebento seria o meu irmão - mas agora o ambiente entre eles não é o melhor por isso já decidimos que a madrinha será outra, só ainda não sabemos quem, no entanto terá que ser alguém que seja capaz de aturar o Ruben - a Madalena sorriu - mas daqui até ao batizado pode ser que o padrinho nos apresente a madrinha - sorri ao ouvi-la ou não fosse saber o motivo pelo qual falou, afinal já tinha comentado que o Ruben está apanhadinho pela Mariana e tê-la a almoçar connosco pode ser sinal que daqui a uns meses haja novidades.
- Tem que sobrar sempre para mim - ripostou.
- Estás a refilar porquê? Nós até estamos a permitir que sejas tu a escolher a madrinha para o Rafael - gozei.
- Não vou escolher ninguém, o filho é vosso por isso a escolha será vossa - olhou-nos - essa ideia de ter que ser um casal é mero formalismo não vou deixar de cuidar e olhar pelo meu afilhado só porque a madrinha não é a pessoa com quem namoro - sorri ao ouvi-lo a conjugar o verbo namorar no presente e por momentos pensei mesmo que houvesse novidades mas a Mariana simplesmente não reagiu daí ter perdido as esperanças - além disso se os padrinhos não forem da mesma casa o puto recebe tudo a dobrar - o meu irmão sorriu - por isso escolham consoante quem julgam ser a pessoa indicada para madrinha e não com quem namoro ou deixo de namorar.
Acabamos por concordar até porque a decisão será sempre nossa e depois de tanta conversa conseguimos terminar de almoçar. Já estávamos na sala quando ouvimos o Rafael a chorar, a Madalena foi até ao quarto e quando regressou trazia o nosso filho nos braços.
- Posso pegar-lhe? - o Ruben pediu ao aproximar-se do sobrinho e afilhado.
- Podes mas juízo - gargalhamos todos ao ouvir a Madalena enquanto o meu irmão pegava no Rafael.
O Ruben estava sentado ao lado da Mariana e foi inevitável não percebermos o olhar ternurento dela assim que viu o meu irmão com o Rafael ao colo, ele estava todo orgulhoso a olhar para o sobrinho mas isso durou muito pouco ou não fosse o meu filho só se calar ao colo da Madalena ou da minha mãe, ele ainda o tentou calar mas a tarefa revelou-se impossível e foi quando o meu amor já se preparava para ir pegar no nosso rebento que ouvimos a Mariana e logo depois o Ruben.
- Não tens vergonha de não conseguires calar o teu afilhado - olhou-o - é assim que queres ser o padrinho dele - sorriu.
- Então vá, sempre quero ver se o calas - ripostou - pega-lhe e vais perceber que isto não é fácil - sorriu.
- Anda cá pequenino - retirou-o dos braços do meu irmão - rico padrinho que te foram arranjar - falava para o Rafael enquanto se aproximava da Madalena pensei que o fosse entregar à mãe mas afinal só foi buscar o saco que contém as fraldas e todas as outras coisas que um bebé precisa - que não consegue perceber que queres que te mude a fralda - deu-lhe um beijinho na testa - posso? - perguntou ao apontar para o saco que estava na sala porque tínhamos saído com o menino para ir à consulta.
 - Podes - a Madalena respondeu-lhe.
Confesso que fiquei a observá-la, tal como os restantes elementos da família, a Mariana não se atrapalhou nada, tinha o meu filho num dos braços e com o outro conseguiu retirar do saco o resguardo bem como o que precisava para lhe mudar a fralda, deitou o Rafael em cima do sofá e uns minutos depois já tinha concluído a tarefa.
- Toma - gargalhei ao vê-la a dar a fralda suja ao meu irmão - vai pôr no lixo - pediu ao pegar novamente no Rafael, ela estava completamente distraída a olhar para o meu filho que só reparou que o meu irmão já tinha regressado quando o Ruben falou.
- Agora que já lhe mudaste a fralda e que o puto se calou deixa-me pegar nele - pedinchou levando-nos a rir.
- Isto realmente - olhou-o - para lhe mudares a fralda não pediste mas agora que o Rafael está sossegado ao meu colo já o queres para ti, é?
- Nunca tive habilidade para mudar fraldas.
- Então é bom que aprendas - o Ruben olhou-a - ou pensas contratar alguém para mudar as fraldas ao teu afilhado sempre que o puto ficar contigo?
- Não preciso contratar ninguém quando te tenho a ti - olhámos todos para o Ruben.
- Desculpa? Não devo ter ouvido bem - olhou-o - desde quando é que sou tua criada? Queres afilhados então é bom que aprendas a mudar fraldas entre outras coisas ou será que és daqueles padrinhos que só aparecem nos aniversários ou datas especiais?
- Não mas daí a mudar fraldas não fiz mal a ninguém.
- Ruben Filipe - sorri ao ouvi-la a chama-lo assim, só a nossa mãe é que o faz - ser padrinho não é só dar presentes, é muito mais do que isso.
- Sei disso mas se puder passar a parte das fraldas, passo.
- Esquece - ela foi-se sentar com o Rafael nos braços.
- Deixa-me pegar nele - a Mariana cedeu ao seu pedido, o meu irmão pegou-lhe ao colo e ficou uns minutos com o afilhado nos braços mas isso durou muito pouco pois o miúdo começou a chorar novamente - ó puto não sabes estar calado - gargalhamos ao ouvi-lo.
- Que jeitinho que tens - a Mariana gozou.
- Olha em vez de estares a gozar se explicasses como é que o posso calar ajudavas mais - ela sorriu.
- Lamento Ruben mas os bebés não vêm com manual de instruções.
- Mas deviam vir, facilitava-me a vida - a Madalena e a minha mãe estavam a sorrir.
- Dá cá o menino - o Ruben ainda tentou cala-lo mas deu-se por vencido quando o Rafael começou a chorar ainda com mais vontade, a Mariana retirou o meu filho dos braços dele e após uns minutos o miúdo já estava novamente sossegado.
- Isto não é justo ao meu colo berra ao teu cala-se.
- Devias estar contente - olhamo-la sem entender - é sinal que o Rafael é inteligente, afinal só tem uns dias e já percebeu que contigo não vai muito longe - picou-o levando-nos a gargalhar perante o amuo do meu irmão - como vês já não é só o Nuninho que prefere o meu colo ao teu.
- Andas a roubar-me os afilhados, é?
- Não mas tens reconhecer que eles preferem-me a mim do que a ti.
- Depois falamos.
A Mariana sorriu mas não respondeu por isso continuamos à conversa estávamos a partilhar com eles o que foram os primeiros dias do Rafael quando o menino começou a rabujar, o que foi motivo suficiente para o Ruben mandar a piada.
- Afinal também chora ao teu colo - olhou-o para depois se levantar e caminhar na direção da Madalena - ah agora vais dá-lo à mãe, é? - não lhe respondeu.
- Posso? - apontou para a fralda de pano que o meu amor usa para o adormecer.
- Sim - a minha mãe sorriu ao vê-la a tapar a carinha do meu filho e a embala-lo, o Rafael sossegou uns minutos depois, o que nos deixou a todos admirados, é que só mesmo a Madalena ou a minha mãe é que o conseguem acalmar e adormecer quando está a fazer birra. A Mariana acabou por se sentar novamente do lado do meu irmão, algo que ele aproveitou para levantar uma ponta da fralda mas assim que o fez ouviu a Mariana.
- Tira a mão - sorriu.
- Só estava a ver se já dormia.
- Dorme, dorme mas não é por o teres conseguido adormecer - sorrimos ao ouvi-la - e em vez de o estares a incomodar vê se aprendes qualquer coisa para um dia meteres em prática.
O Ruben não respondeu ficou simplesmente a olhar enternecidamente para a Mariana que continuava com o meu filho nos braços, foi notório o imenso jeito que tem com bebés e talvez por isso tenha conseguido adormecer o Rafael, assim que adormeceu retirou a fralda da sua carinha e ficou simplesmente a “babar” com um sorriso enorme, tanto a Mariana como o Ruben estavam tão vidrados no Rafael que nem repararam que estávamos todos comovidos a olhá-los e só despertamos quando ouvimos a voz dela.
- Mauro onde é que o posso deitar?
- Se quiseres podes ficar com ele no colo - respondi estava mesmo a gostar de vê-la tão próxima do Ruben e com o menino no colo.
- Prefiro deitá-lo para o menino não se habituar a dormir ao colo - as mães presentes na sala sorriram.
- Ok, vou buscar a alcofa - levantei-me e fui até ao quarto regressando com a alcofa, coloquei-a no sofá ao lado do meu irmão que era o único que se encontrava vago, ela deitou-o e foi-se sentar.
- Tens filhos? - a voz da Madalena fez-se notar o que fez a Mariana olhá-la.
- Não.
- Por momentos pensei que tivesses pela forma como lidaste com o Rafael - a Mariana sorriu.
- Já são alguns anos de prática - o Ruben olhou-a de forma cúmplice - além de cuidar do meu irmão desde bebé, já cuidei de outros.
- És ama? - perguntou curiosa afinal nunca tinha comentado com ela o que a Mariana faz.
- Sim, porquê?
- Por nada, pensei que fosses só mais uma das amigas do meu cunhado - o Ruben olhou para a Madalena com vontade de lhe apertar o pescoço - mas já deu para perceber que és cá das minhas e não vives com a cabeça no mundo da lua.
A Mariana não respondeu até porque quando o ia a fazer o meu pequenino mexeu-se e ela não perdeu tempo a olhar para ver se continuava a dormir, o que voltou a deixar o Ruben a babar.

Ruben

Estava sentado no sofá a olhar o meu sobrinho e a ver a Mariana a cuidar dele que acabei perdido em pensamentos, estava completamente distraído a imaginar o dia que também vou ter a minha família quando percebi que tanto a minha mãe como o meu irmão estavam a sorrir o que deixou-me com mais vontade de oficializar de uma vez o nosso namoro era nisso que estava a pensar quando ouvi o meu irmão.
- Mariana - olhou-o - sempre dedicaste o teu tempo a cuidar dos filhos dos outros?
- Antes de ter o Martim trabalhava numa loja durante o dia e à noite estudava mas desde que ele nasceu que alterei a minha vida para poder ficar com o Martim, nos primeiros meses trabalhei em part-time porque tinha com quem deixá-lo e de alguma forma tinha que continuar a ganhar dinheiro para nos sustentar mas acabei por ter que arranjar outra solução, por isso decidi tentar a sorte como ama, inicialmente cuidava durante o dia de uma criança de dois anos, ia buscá-lo e ficávamos na minha casa o que dava para cuidar também do meu irmão mas mais tarde a mãe dessa criança recomendou-me a uns amigos e consegui o emprego.
- Esses amigos foram o Nuno e a Patrícia? - a Madalena perguntou curiosa.
- Não, foram os meus ex-patrões e foi através deles que acabei em Braga, a Patrícia comentou com a D. Francisca que queria uma pessoa de confiança para ficar com o Nuninho e ela lembrou-se de mim.
- Nunca te arrependeste da decisão de quereres ficar com o teu irmão? - a pergunta da minha mãe surpreendeu-nos a todos.
- Não, é ele que dá-me forças para continuar.
- Mas acabou por privar-te de algumas coisas, afinal tiveste de deixar de estudar e até mesmo de viver as coisas próprias da idade.
- Não vejo as coisas por esse prisma, é verdade que deixei de estudar mas tenciono regressar talvez daqui a dois ou três anos quando o Martim já se conseguir desenrascar-se sozinho, quanto a viver as coisas próprias da idade não concordo, é verdade que tive que fazer escolhas como abdicar das noitadas mas se pararmos e pensarmos não são as noitadas que deixei de gozar que dão-me a alegria e vontade de viver, o Martim nunca foi impedimento para viver a minha vida simplesmente tive que adaptar-me à realidade de ter uma criança, mas não fiz nada que qualquer mãe não faça, seja essa mulher mãe aos vinte ou aos trinta.
- Sim mas por exemplo vejo pelos meus filhos eles aos vinte só queriam era sair à noite e divertirem-se com os amigos mas querendo ou não quando se tem um bebé não se consegue fazer com a mesma disponibilidade.
- É verdade abdiquei disso mas ganhei muito mais do que perdi até porque sempre diverti-me com os meus amigos simplesmente em vez de irmos para as discotecas ou bares ficávamos por casa, isso também serviu para ver quem eram os meus verdadeiros amigos que é coisa que os seus filhos ainda hoje nem devem conseguir distinguir - sorri de facto  tinha razão, existe muita pessoa a quem chamo de amigo que talvez um dia quando precisar afastam-se - tudo na vida tem coisas positivas e negativas, ter decidido lutar pela vida do meu irmão dá-me muita alegria mas também serviu para testar todos os meus limites de resistência quer física quer emocional, nem tudo é um mar de rosas quando se fala em criar um filho, você deve saber melhor do que eu, afinal criou dois mas no fim recompensa sempre, por isso nunca vou arrepender-me pelas noitadas que não tive ou pelas férias que não gozei.
- Ó Mariana desculpa a pergunta mas estou curioso - olhei para o meu irmão - e no que respeita a relacionamentos o Martim deve ter atrapalhado, falo por mim o Rafael só nasceu há uns dias mas já deu para perceber que a minha vida a dois com a Madalena vai alterar por completo.
- Mauro a vossa vida alterou desde o dia que a Madalena engravidou mas agora que o Rafael nasceu e conforme for crescendo vais perceber que as tuas prioridades passam a ser outras, é lógico que a vinda dele altera por completo a vossa vida e sim por vezes atrapalha principalmente nos primeiros meses mas quando existe amor tudo se consegue por isso não é um bebé que atrapalha no que respeita aos relacionamentos mas sim a capacidade que as pessoas adultas têm para lidar com a realidade de terem um ser dependente deles, no vosso caso acredito que não tenham problemas, afinal foram pais porque assim o desejaram.
Agora no que me diz respeito não desejei aos vinte anos ser mãe do meu irmão mas isso não foi impedimento para criá-lo como se fosse meu filho, é lógico que trouxe-me dissabores no que toca a relacionamentos até porque ninguém quer aos vinte anos aturar uma namorada que tem um bebé em casa.
- Mas agora já não tens vinte anos e o teu irmão já não é um bebé - olhei para a minha mãe - continuas a não querer um relacionamento? - ouvir tal pergunta fez com que olhasse para a Mariana.
- Onde é que você quer chegar com essa pergunta?
- Curiosidade - sorriu - só isso - a Mariana olhou-me talvez à espera de uma reação minha o que fez o meu irmão abrir a boca.
- Desde quando é que vocês estão juntos? - sorrimos os dois com a sua pergunta - Sim que não adianta continuarem a negar o óbvio, só se fossemos muito cegos é que não víamos que já não são só amigos.
- É verdade - olhei para a Mariana - nós namoramos - abracei-a ao perceber que estava a ficar sem jeito - já dura a algumas semanas mas preferimos guardar segredo, aliás não queremos que se saiba pelo menos para já.
- Filho - olhamos para a minha mãe - fico feliz por saber desta novidade - sorriu - já a esperava há uns meses - gargalhei - só vocês é que teimaram em negar o óbvio mas agora que já se entenderam só vos desejo o melhor.
Agradecemos e ainda tivemos que levar com as piadas do Mauro que ignoramos. Já estávamos novamente à conversa quando a Madalena lembrou-se de uma questão que estava pendente e nos surpreendeu aos dois.

Que questão será esta?

9 comentários:

  1. E pronto cá estou qual disco riscado...
    Onde está o resto????

    Publica lá mais rapidinho que isto de deixar as questões no ar sem resposta deixam-me stressada de mais e isso prejudica a minha concentração e escrita... looool ;)

    Bjokinhas
    Mariaa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. fabuloso...

      agora tou super curiosa para ver o proximo... quero mais... continua...

      Eliminar
  2. Ai qe a Mariana vai ser madrinha :p será?! Gostei imenso! :D E estes dois por muito qe qeiram já nao conseguem mentir em relação ao namoro ^^
    O próximo qe venha rapidinho!
    Beijinhoos

    ResponderEliminar
  3. Quando li o nome Soraia, pensei logo " vêm aí problemas", mas ainda bem que a perua bateu asas para outro lado.
    Adorei, afinal o almoço em familia até nem correu mal, muito pelo contrário.
    O Ruben coitado, é sempre o bobo da corte, e depois tem aquele dom de quanto mais abre a boca mais se enterra, então quando ele disse que o nuninho é inteligente como o padrinho porque sabe o que é bom e por isso prefere o colo da mariana... ele com a Mariana não tem hipótese, ela arruma-o a um canto.
    Mas o que adorava mesmo era que a Mariana lhe entregasse o puto para ele lhe mudar a fralda, isso é que era de valor, era gargalhada na certa.
    Eles bem que tentam, mas não conseguem disfarçar, já foram apanhados outra vez, e desta têm a benção da D.Anabela e restante familia.
    Se não mudaste nada daquilo que falámos, eu acho que sei qual é a pergunta que a Madalena vai fazer, mas como tu tens o dom de nos surpreenderes, eu vou aguardar.
    Este capitulo tá lindo, adorei, mas quero mais.

    Beijocas

    Fernanda

    ResponderEliminar
  4. Adorei! He he
    Isto está cada vez mais giro.
    Adoro a Mariana.
    Bjs

    ResponderEliminar
  5. ainda agora nao consegui parar de rir com a conversa daqueles dois, a Mariana não perde uma para picar o 'pobre' do Ruben, se bem que ele nao deve deixar aquilo barato xD
    concordo com a Fernanda, mal li que a ex iria partilhar o mesmo espaço que a marianita, pensei que o caldo iria estar entornado em breve ahah... afinal enganei-me...
    estou ansiosa p'ra saber que raio de questão será essa...

    Não é precido que adorei mais uma vez e que estou à espera de um capítulo rapidinho :b (eu sou uma chata, eu sei)

    beijinho enorme


    Raquel

    ResponderEliminar
  6. Lindo!!! O que eu me ri com estes dois, bem ainda temi quando li o nome Soraia... pensei aí vem problemas...
    Amei, mesmo.
    Quero mais!!!
    Beijinhos

    ResponderEliminar