quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

087 - "Ficar?! Para quê?! Estou farto de ser ignorado!"

Mariana

O meu regresso a casa não foi de todo pacífico, ainda assim agora está tudo mais calmo, no entanto o Martim continua a insistir na ideia de ser adoptado pelo Ruben, apesar de já por diversas vezes termos falado que não é possível.
Hoje foi mais uma manhã que passei sozinha, o Ruben levou o Martim ao colégio e seguiu para o Seixal, só regressou para almoçar.

- O que é que se passa?

- Nada…

- E estás de mala ao ombro porquê?

- Ah isso… Estou farta de estar em casa e sem paciência para cozinhar por isso vamos almoçar fora!

- E onde é que a menina quer ir?

- A qualquer lado… desde que coma está tudo bem!

- Seja feita a sua vontade!

Almoçamos tranquilamente e no fim, demos um pequeno passeio, que terminou na instituição onde cresci, a meu pedido fomos visitar os miúdos, afinal é dos poucos sítios onde me sinto verdadeiramente eu.

Lógico que assim que chegamos, o Ruben foi “engolido” pelas crianças, que o puxaram de imediato para que fosse brincar com eles.

Fiquei a observá-los e quando dei por mim estava a sorrir

- Por aqui? - olhei

- Sim… estou a precisar de voltar às minhas raízes…

- Voltar às raízes ou fugires da realidade? - não respondi - Mariana o que se passa contigo? Onde está o sorriso genuíno e o olhar meigo - voltei a não falar, simplesmente encolhi os ombros - Não insisto, mas se quiseres desabafar, sabes onde estou

- Obrigada… - agradeci e vi o Jorge se afastar

***

- Posso? - perguntei depois de bater à porta da sala do Jorge

- Entra

Assim que tive autorização para entrar, fui directa ao sofá que tem na sala e onde deitei-me tanta e tanta vez durante os anos que estive na instituição, era para ali que fugia sempre que sentia-me a perder a vontade de viver, muitas vezes ficava simplesmente deitada, envolvida no silêncio dos meus pensamentos, mas hoje não era disso que precisava, algo que o Jorge percebeu, mesmo sem que o tivesse partilhado, ou não fosse conhecer-me tão bem ou melhor que me conheço a mim própria, e por isso se sentou perto de mim, remetido ao silêncio, simplesmente estava ali para ouvir-me, desabafei… pela primeira vez em semanas falei em voz alta tudo o que andava a sentir, todas as minhas dúvidas, os meus medos, admiti a falta de amor-próprio que tenho, expôs o meu verdadeiro eu, tal como o Jorge o conhece e no fim, quando já estava estranhamente mais serena

- Sabes perfeitamente o que tens a fazer… não vieste aqui à procura de respostas, porque essas sempre as tiveste, Mariana poucas são as pessoas que te conhecem verdadeiramente porque sempre escondeste o teu lado mais fraco, nunca partilhaste os teus medos, os teus pesadelos, as noites não dormidas, sempre escondeste a falta de amor que sentes atrás de um sorriso muitas vezes vazio, usaste sempre os problemas dos outros para camuflares os teus, mas isso só foi possível porque vivias em função dos outros, nunca procuraste a tua felicidade e quando apareceu na tua vida, alguém que lutou por ti, resististe até onde conseguiste, seguiu-se uma fase boa, onde descobriste o que é ter alguém com quem partilhar tudo, mas isso implica que o queiras fazer, o Ruben quer respostas para perguntas que não estás dispostas a responder, porque não queres que conheça o teu lado mais negro e por vezes fraco, no entanto enquanto resistires a mostrar o teu verdadeiro eu, nunca serás feliz, não tenhas medo de deixar cair a capa, o Ruben pelo pouco que conheço não parece que vá desistir de ti por contares o que ambos sabemos, desabafa com o teu marido, tens de ser sincera porque só assim serás feliz, o Ruben só compreenderá o facto de teres fugido dele se revelares o verdadeiro motivo, mas isso está nas tuas mãos!

- Tenho medo da reacção dele…

- O que tens é medo de ti própria!

- Talvez… sou fraca e…

- Não és fraca, muito pelo contrário, Mariana és humana, como tal tens alturas em que as forças faltam, em que precisas de alguém que te puxe para cima e esse alguém é o Ruben, mas tens de deixar que te ajude como permitiste que te ajudasse no passado, estarei sempre aqui, podes deitar-te aí quantas vezes quiseres mas também o podes fazer na tua cama e com o teu marido ao lado, basta que queiras verdadeiramente seguir em frente.

***

- Ah estás aí! - olhei e vi o Ruben a entrar na cozinha de sorriso no rosto

- Hum… hum… - falei de boca cheia ou não fosse estar a deliciar-me com as bolachas caseiras da D. Rosa que molhadas em leite são uma delícia e não há miúdo nenhum que vive ou viveu na instituição que não as devora

- Isso é tudo fome?

- É mesmo só vontade de comer!

Sorriu e acabou por se aproximar, sentou-se numa cadeira ao meu lado a observar-me, até que

- Será que algum dia terei a hipótese de conhecer a verdadeira Mariana? - olhei - O que é que escondes? Já percebi que há pessoas aqui que sabem muito mais do que sei...

- É normal... são a minha família!

- Sim são e não quero diminuir em nada a importância que têm na tua vida mas caramba também faço parte da tua família e sinceramente sinto-me cada vez mais excluído sem sequer saber o motivo... - baixei o olhar - deixaste de me amar, é isso??? - respirei fundo - responde! Manda-me à merda mas fala!

Não respondi, fui até ao lava-loiça, lavei a caneca que usei para o leite, arrumei as bolachas e quando rodei o corpo, o Ruben continuava no mesmo sítio a olhar para mim

- Vamos?!

Foi a vez dele de não responder, meteu as mãos nos bolsos das calças, deu-me passagem e depois seguiu atrás de mim, remetido ao silêncio. Despedi-me das crianças e dos adultos, gesto que o Ruben imitou e só depois fomos para o carro. Conduziu até casa sem abrir a boca e quando chegamos

- Estás entregue!

- Não ficas?

- Ficar?! Para quê?! Estou farto de ser ignorado!

- Fica... - olhou nada convencido - por favor... estou a pedir...

- Tudo bem...

Fez-me a vontade, no entanto percebi que não foi por querer, o Ruben estava contrariado, no fundo percebo-o, no seu lugar já tinha feito um escândalo, mas ele não... tem aguentado muito e sempre calado.

Entramos no apartamento e foi directo à sala, agarrou no comando e ligou a televisão, ainda fiquei uns segundos a olhá-lo mas depois fui até ao quarto...

Ruben

Sei que a gravidez provoca muitas alterações, tanto físicas como emocionais, mas a Mariana anda a abusar, se ao início dei desconto, agora já não consigo, não a entendo, parece que a mulher por quem sou louco já não se encontra no seu corpo e por muito que tente abordar o tema, não consigo, a Mariana isolou-se de tal forma no seu mundo que por muito que tente aproximar-me não consigo.

A seu pedido fiquei por casa mas isso não significa que esqueça tudo e por isso não demonstrei grande ânimo, algo que não a incomodou, mais uma vez deixou-me sozinho.

Estava a ver televisão quando a vi entrar, já de pijama vestido, algo que agora é frequente.

- Vou buscar o Martim - informei

- A tua mãe vai buscá-lo - falou enquanto se aproximava de mim e sem que esperasse, sentou-se ao meu colo - e fica na casa dela - a surpresa foi de tal ordem que demorei a reagir, talvez por isso se tenha agarrado a mim

Não falei nada, simplesmente a acolhi nos meus braços e colo, a Mariana ficou o tempo que quis e quando se cansou saiu do meu colo, olhei sem entender, mas o meu amor unicamente esticou a mão, agarrei e segui atrás dela. Chegou ao quarto e deitou-se, não foi necessário palavras para entender que naquele momento queria-me do seu lado, acabei por tirar a roupa e deitar-me na cama, assim que o fiz, voltou a agarrar-se a mim.

***

A Mariana adormeceu sem dizer uma única palavra, algo que deixou-me, ainda mais inquieto, mas não tive coragem para mais...

Fiquei do seu lado e só abandonei o quarto para preparar o jantar, estava a terminar quando a entrou, ainda a esfregar os olhos e surpreendentemente veio na minha direcção e uniu os nossos lábios

- Vamos jantar? - olhou para a comida e torceu o nariz, o que fez com que sorrisse - não te apetece comer o que fiz?

- Estou sem fome... mas come!

- Queres que prepare outra coisa? - perguntei ao vê-la  a sentar-se

- Não... agora não consigo comer mas quando tiver fome aqueço

- Tens a certeza?

- Sim...

Não insisti e enquanto jantei, tive a sua companhia, a Mariana observava-me atentamente, fiquei com a sensação que queria falar mas parecia que não sabia como começar, não forcei, unicamente estiquei o braço na sua direcção e o meu amor agarrou a minha mão...

- Deixa estar isso! Vai descansar que arrumo a cozinha!

- Se ajudar é mais rápido!

Não contrariei e assim que terminamos, a Mariana voltou a abraçar-me e foi assim bem juntos que fomos até ao quarto.

A Mariana deitou-se, enquanto fui para o duche, estava a colocar o champô quando a porta da box abriu, confesso que levei uns segundos a reagir, afinal já perdi a conta às semanas que passou desde a última vez que a vi completamente nua. Entrou sem dizer uma única palavra, partilhamos o momento em silêncio e foi no mesmo modo que limpamos a água dos nossos corpos e nos vestimos.

Regressamos ao quarto e quando a vi agarrar no creme para colocar na barriga, não resisti e dei um passo em frente, algo que bastou para que a Mariana perceber o que queria, o meu amor deixou que espalhasse o creme, momento que aproveitei ao máximo e quando a olhei, vi que chorava, as lágrimas corriam pelo seu rosto sem parar. Concluí a minha tarefa e envolvi-a nos meus braços, a Mariana agarrou-me com alguma força para depois se afastar.

Voltou a deitar-se e assim que também o fiz, o meu amor aproximou-se, abracei-a e ficámos em posição de conchinha algum tempo, até que a Mariana se levantou, foi à casa de banho e quando regressou, sentou-se na cama, bem do meu lado

- Desculpa... - falou de olhar baixo - desculpa por tudo... desculpa por ter fugido, por andar tão fria e afastada de ti, por neste momento não conseguir ser a Mariana que conheces - suspirou profundamente - mas a Mariana das últimas semanas também faz parte de mim, sempre fez, mas quase sempre anda escondida... só se revela nos momentos que estou ainda mais fragilizada, Ruben não sou inquebrável e muito menos sou a pessoa que julgam, não tenho a força que pensam, mas a culpa não é vossa... é minha porque sempre escondi de todos este meu lado, sempre usei os problemas dos outros para não pensar nos meus, mas quando por algum motivo deixo de conseguir ocupar a mente com os outros, sou completamente engolida pelos meus medos e entro num estado de completa apatia, fico sem vontade de comer, de sair da cama, só penso em coisas que não devo... - a Mariana desde que começou a falar que olhava para as suas mãos e talvez por o rumo da conversa estar a assustar-me a interrompi

- Não precisas de dizer nada - olhou e vi dor no seu olhar

- Preciso... - respirou pesadamente - tens o direito de saber e também preciso de falar... depois decides o que é melhor para ti - interrompi

- O melhor para mim é ter-te do meu lado, é ultrapassar esta fase de mãos dadas contigo, é ajudar-te!

- Ruben... - hesitou mas - quando cheguei à instituição estava completamente deprimida e durante muitos meses, as pessoas que cuidaram de mim não viram o meu sorriso, não dava um simples abraço e muito menos tolerava que me tocassem, lembro-me que só no fim das outras meninas tomarem banho é que o fazia mas sempre sozinha, não deixava ninguém ajudar, o momento de comer era um tormento, porque tinha de partilhar o mesmo espaço com outras crianças quando só queria desaparecer, os primeiros meses não foram fáceis, lutei bastante contra quem só queria ajudar-me, foram meses de acompanhamento psicológico... mas cada vez sentia-me pior, simplesmente não sabia o que era ter alguém a cuidar de mim e só quando chegou à instituição outro menino, que tal como eu era vitima de maus tratos, é que consegui sentir algum conforto, porque nós compreendíamo-nos... os meses foram passando e como acabei por reagir e a socializar com os funcionários e com as outras crianças, deixei de ser acompanhada pelo Jorge e durante muito tempo guardei tudo o que sentia para mim, ocupava a cabeça com os problemas dos outros, vivia em função de terceiros, até ao dia que tive de sair da instituição, as semanas que se seguiram foram péssimas, deixei de ter com que ocupar a cabeça e questionei vezes demais o meu direito de viver neste mundo, foi aí que resolvi procurar a minha mãe, encontrei e quis conhecer a parte da minha vida que não tinha recordações, quis recuperar algo que nunca tive e quando voltei a ser abandonada pela minha mãe... - Mariana calou-se durante uns minutos - o que vou contar, só o Jorge sabe, nem mesmo a Letícia imagina... - as lágrimas já molhavam novamente o seu rosto - Ruben se hoje continuo viva posso agradecer ao Jorge que manteve sempre o contacto comigo e não deixou que cometesse loucura nenhuma... não sou a pessoa cheia de força que julgas,  muito pelo contrário, tanto que não consegui lidar com a presença do Paulo, voltei a questionar muita coisa e acabei por fugir da realidade, quando devia ter falado contigo

- Passaste por muito mas ainda assim não entendo porquê que saíste de casa - olhou

- Porque se ficasse, muito provavelmente o Martim insistiria para que aceitasse a Kika na nossa vida e naquele momento, aliás ainda agora, não tenho capacidade para o fazer, Ruben isso implica de certa forma aceitar o Paulo, no entanto não consigo, já para não falar que senti-me pressionada por todos, vocês só querem o meu bem, querem que reaja mas não é assim tão simples, Ruben quando descobri quem era o meu pai, também percebi que a minha vida podia ter sido bem diferente se não fosse rejeitada por ele e naquela altura isso aliado a tudo o resto que andava a sentir, mas principalmente por ter ficado sem rumo, tive a um misero passo de cometer o maior erro da minha vida, acredita que ter noção disso e ter que olhar para a cara dele não é nada fácil, sempre que o vejo ou oiço o seu nome, é impossível não recordar algo que só quero esquecer.

- Tentas-te… - não fui capaz de proferir em voz alta, ainda assim

- Sim… naquela altura pensei em acabar com a minha vida, não é algo que tenha orgulho e muito menos que fale, tanto que só o Jorge sabe…

- Ainda pensas nisso?

- Não! - respondeu de imediato - foi uma ideia infeliz que surgiu num momento em que julgava não ter ninguém do meu lado, isto coincidiu com a altura que tive de deixar a instituição, é impossível explicar a quem quer que seja o que senti quando chegou o dia de sair da instituição, foi como se fosse novamente abandonada, só porque deixei de ter idade para estar em instituições, foi como se me arrancassem da minha família, não foi fácil… não me orgulho disso e muito menos gosto de falar sobre o assunto.

- Se não pensas nisso porquê que saíste cá de casa?

- Já disse… Ruben seria incapaz de cometer tal loucura, ainda menos quando carrego o nosso bebé, matar-me nunca foi hipótese, saí de casa porque precisava de reencontrar-me mas acima de tudo de tempo para assimilar tudo, sei que provavelmente nunca serei compreendida mas sou assim e por muito que tente ser diferente não consigo, só quero distância de tudo o que pode deixar-me abatida, será que consegues entender?

- Como queres que entenda se te afastas sempre de mim quando estás nessas fases? Será que te faço mais mal do que bem?

- Não! Ruben se o saldo dos últimos dois anos é positivo, devo-o a ti, não me arrependo de ter deixado que entrasses na minha vida.

- Não é isso que sinto, já para não falar que por minha culpa a tua vida cruzou-se com a do Paulo.

- O Paulo é um detalhe que tenho de aprender a ignorar, como aprendi a ignorar tantas outras coisas ao longo da vida

- Ya mas até lá afastas-te de mim, Mariana compreende que não é nada confortável viver na incerteza, caramba adormeço com receio de acordar e não te ter mais, porque nunca sei o que te vai no pensamento

- O que vai no meu pensamento, é que te quero, é a única certeza que tenho, apesar de às vezes não parecer e prometo que de agora em diante será diferente, já percebi que se quero ser verdadeiramente feliz, tenho de deixar o passado para trás, mas acima de tudo não fugir de ti, tenho que aprender a partilhar tudo e pode levar algum tempo mas conseguirei fazê-lo, isto se tiveres disposto a aturar-me porque tenho noção que sou muitas vezes um fardo

- Mariana chega! Caramba não és fardo nenhum, tens os teus problemas como tenho os meus, simplesmente consegues fazer algo que não consigo, consegues muitas vezes esconderes o que verdadeiramente sentes, tentas ao máximo não dar parte fraca, mas ninguém é inquebrável, todos temos momentos em que precisamos de apoio e enquanto não aceitares que estou do teu lado nos bons e maus momentos, nunca conseguirás desabafar comigo

- Tem só mais um pouco de paciência comigo - baixou o olhar - sei que estou a pedir muito mas… - interrompi

- Mas amo-te e não precisas de pedir nada, estou e estarei sempre aqui por ti, pelo Martim e pelo nosso bebé - levei a mão à sua barriga, o que fez com que sorrisse - amo-te tanto…

A Mariana não respondeu, sorriu timidamente, o que fez com que sorrisse pois recordei os primeiros tempos de namoro, quando ficava sem saber o que dizer, só porque lhe dizia que estava linda.

O meu amor acabou por se deitar e procurar o conforto do calor do meu corpo, adormeceu abraçada a mim.

Como será os próximos tempos?

sábado, 21 de fevereiro de 2015

086 - "Errei e sei disso mas sinceramente voltava a fazê-lo…"

Mauro
Em conversa com a minha mãe, fiquei a saber que o plano do Martim não deu resultado, por isso resolvi passar pelo apartamento do Ruben, com a intensão de ver como estava o meu irmão.
Toquei à campainha e quem abriu a porta foi o míudo
- Olá tio!!! - foi impossível não sorrir
- Olá sobrinho - retribuí o comprimento e o menino gargalhou - estás muito contente
- Pois tou a mana voltou para casa
- Sério?
- Sim mas entra eu tou a ver bonecos - voltei a rir ou não fosse o Martim ter virado costas e seguido caminho, imitei-o e fui até à sala, sentei-me do seu lado com a intensão de puxar pelo miúdo para saber detalhes mas não o cheguei a fazer, porque vi entrar a Mariana e o Ruben
Acabei por confessar ao que vim mas a conversa não teve seguimento, isto porque o Martim intrometeu-se e acabou por dizer umas verdades à Mariana, a verdade é que no meio disto tudo, o menino foi o único que teve a coragem de dizer sempre o que pensava, talvez pela inocência que a idade lhe confere.
A Mariana ouviu calada, sinceramente duvido que tivesse à espera que o irmão lhe desse na cabeça da forma que deu. A conversa continuou e fomos todos surpreendidos pelo pedido do Martim
- Eu quero muito que o Ruben seja o meu pai
- Mas a mana já concordou que o chamasses de pai - interrompeu a irmã
- Não tás a perceber eu quero que o Ruben seja o meu pai de verdade - o pedido do Martim se por um lado deixou o meu irmão mais uma vez emocionado, por outro atingiu a Mariana, conheço-a o suficiente para perceber que as palavras do puto a magoaram, ainda assim tentou manter a calma e explicar que não podia ser, mas o miúdo não lhe deu hipótese porque
- Tás a mentir eu sei que pode ser tu só dizes que não pode porque se voltares a fugir da gente depois eu já posso ficar com o pai e tu não podes dizer nada mas eu não quero saber disso, eu sei aquilo que quero e quero ser filho de verdade do Ruben porque ele gosta de mim e não deixa eu sozinho como tu deixaste
A Mariana não reagiu e talvez por isso o Ruben interviu
- Oh piolho - o menino olhou e antes que o meu irmão tivesse tempo para dizer o que fosse
- Eu já sei que vais dizer que não pode ser porque tás com medo que a mana seja outra vez burra e se vá embora mas se ela for já não faço nada para ela voltar porque se ela for é porque não gosta da gente como a gente gosta dela - quanto mais o Martim falava, mais estarrecido ficava, talvez porque no fundo a razão estava do seu lado - por isso é que eu quero ser teu filho de verdade porque eu não quero tar sempre com medo de perder o pai só porque a mana é burra - olhei por segundos para a minha cunhada, o que permitiu ver que tinha os olhos rasos de água, ainda assim não reagiu, acho mesmo que se o meu irmão não tivesse intervido que o miúdo continuado
- Já chega! - o Ruben foi mais ríspido mas assim que o miúdo se calou, falou calmamente - Martim, já percebemos todos que estás muito chateado com a Mariana, também estou - assim que admitiu, a Mariana deixou de conseguir controlar as emoções, as lágrimas caíram sem controlo - amor nós não esperávamos que a Mariana fosse capaz de sair de casa e por isso é que dói tanto dentro dos nossos corações, mas a mana voltou e pediu desculpas, nós gostamos muito dela e os três juntos vamos superar tudo, agora não podes estar sempre a dizer o mesmo, a Mariana já sabe qual é a tua opinião - voltou a interromper
- Mas por causa dela não podes ser meu pai de verdade e eu quero ser teu filho de verdade porque é isso que eu sinto no meu coração - o menino admitiu, já com os olhos rasos de água, o que deixou-me arrepiado
- Oh pequenino - o meu irmão sentou-se e puxou-o para o seu colo - no meu coração és meu filho de verdade, é isso que interessa
- Mas eu quero mais, quero poder dizer na escola que és meu pai e não ser chamado de mentiroso e eu sei que podes ser, porque se os meninos da instituição onde a mana viveu podem ter um pai e mãe de verdade tu também podes ser o meu
- Isso não é assim tão simples - a Mariana interviu mas
- Tu cala-te que a conversa é entre eu e o meu pai, porque foi ele que não me deixou sozinho
A Mariana não disse nada, simplesmente saiu da sala
- Martim não podes falar assim com a tua irmã! - o menino olhou para o Ruben com cara de amuado, tanto que - E não adianta ficares chateado comigo porque tenho razão, por muito que a Mariana tenha agido mal, não podes ser mal educado, além disso a tua irmã precisa mais do que nunca de apoio e não de ser acusada de te abandonar.
- O pai já desculpou mesmo de verdade a mana?
A Mariana que tinha saído, regressou à sala, mas fui o único que a viu, uma vez que o Ruben e o Martim estavam de costas para a porta, como a rapariga não se manifestou, talvez por querer ouvir a resposta do meu irmão, também não a denunciei
- Já! Martim por muito que tente perceber o que a Mariana sente sempre que pensa no passado não consigo, isto porque não sei nem sequer consigo imaginar o que é crescer sem pais, sem miminhos, o que é acordar de noite e não ter ninguém para dar-me um beijinho, Martim o que quero que percebas é que apesar de não concordar com a decisão da Mariana, não consigo ficar chateado, porque amo-a muito e porque acredito que não volta a fazer o mesmo
- Tás a falar muito mas não tás a dizer aquilo que quero ouvir - foi impossível não sorrir, o miúdo não verga facilmente, nisso é parecido com a irmã
- Sabes bem que para mim és meu filho e - interrompeu
- E eu quero ser de verdade! - voltou a insistir, acabei por meter-me na conversa
- Martim - olharam os dois - o que queres dizer com ser filho de verdade?
- Eu quero ter o nome do Ruben! - a segurança com que falou surpreendeu-me, ainda mais quando - E eu sei que posso ter porque os meninos da instituição onde a mana viveu quando vão viver para a casa do papá e da mamã que os vão buscar passam a ser filhos de verdade e é isso que quero porque assim eu já posso escolher e mesmo que a minha mãe apareça eu já não preciso ir com ela e eu não quero ir com ela porque eu agora já percebo as coisas e já sei que não foi a mana que não deixou a nossa mãe viver com a gente, foi a nossa mãe que não quis, por isso agora sou eu que não quero e se o pai da Mariana apareceu agora depois de tanto tempo a minha mãe também pode aparecer e eu não quero deixar de viver com o Ruben, com a mana e com o bebé - olhei para a Mariana, estava com a mão na barriga e com um sorriso no rosto, o primeiro desde que cheguei
- Martim mesmo que a tua mãe apareça, não pode levar-te com ela - o menino olhou para o Ruben - porque a responsável por ti é a Mariana
- Tás a dar desculpas porque não queres que seja teu filho de verdade, é isso?
- Não… Martim infelizmente não é assim tão simples, não basta querer. O que estás a pedir é que te adopte, mas isso é muito complicado, porque só os meninos que não têm pais ou que vivem em instituições é que normalmente podem ser adoptados, percebes?
- Tás a dizer que é complicado mas não tás a dizer que não pode ser! - voltei a rir, ainda que disfarçadamente
- Não vais desistir, pois não?
- Não! Eu aprendi a ser teimoso contigo - controlei a vontade de gargalhar
- Comigo???
- Sim porque tu falaste que a mana ao inicio não quis saber de ti mas que foste teimoso e conseguiste convencer a mana por isso eu também sou teimoso e vou convencer-te a seres meu pai como convenci a mana a voltar para casa
Com a resposta do miúdo, foi impossível conter a gargalhada, até porque a própria Mariana gargalhou
- Ah estás aí!!! - o meu irmão falou
- Parece que sim… - aproximou-se e sentou-se ao lado do Ruben que continuava com o Martim ao colo, mas isso não impediu que abraçasse a Mariana e lhe desse um beijo
- Parem com isso! - o menino resmungou, o que fez com que olhassem
- O que é que se passa? Martim, não estás contente por a mana ter voltado?
- Não sei… - a sinceridade do irmão, magoou-a - eu fiquei contente mas agora já não sei se estou porque não sei se vais voltar a fazer o mesmo e porque o Ruben não quer ser meu pai de verdade por causa de ti
- Martim… - o Ruben ainda tentou falar mas a Mariana não deu hipótese
- Já chega! Martim, a mana sabe que errou muito e só eu sei o que dói ter essa certeza, por isso é que não voltarei a fazer o mesmo, para ser feliz preciso de vocês os dois ao meu lado. Quanto ao que pedes, o Ruben tem razão quando diz que não basta querer, não é assim tão simples
- Mas pode ser ou não?
- Sinceramente não sei
- Então quem sabe? - o meu irmão olhou para a Mariana e uns segundos depois
- Martim se queres mesmo que te adopte, a única coisa que posso prometer é que vou falar com o advogado para perceber se é ou não possível.
- E se for, tu queres?
- Oh piolho, o facto de te adotar não mudará nada, não será por isso que gostarei mais ou menos de ti, percebes?
- Sim mas não respondeste à pergunta que fiz!
- Quero! Se der para te adoptar e se permitirem, podes ter a certeza que o farei, mas não quero que fiques com muita esperança, porque provavelmente não vai dar, entendes?
- Sim…


Ruben
Provavelmente devia ter sido mais frio quando vi e percebi que a Mariana cedeu e voltou para casa, mas a verdade é que não consegui, por muito magoado que esteja, o que mais quero é tê-la comigo, amo-a.
Foi essa a razão pela qual preferi dar mimo em vez de disparatar, mesmo quando pensou que estava a exigir mais do que simples mimos, manti a calma e expliquei o que quis dizer, o certo é que acabei a rir ou não fosse o meu amor admitir que agora tem noção do que anda a perder. A conversa tinha tudo para continuar mas ao entrarmos na sala vimos o meu irmão, estava preocupado comigo e expressou isso mesmo, apesar da minha tentativa falhada para que se calasse, no entanto quem voltou a surpreender foi o Martim, o puto disse o que lhe vai na alma e não foi nada meigo para a irmã, principalmente quando pediu que o adoptasse, apesar da Mariana não o dizer, sei que ficou muito magoada.
Conseguir fazer com que o Martim perceba que o que pede não é tão linear como quer, o menino não insistiu mais no assunto, mas continuou no meu colo, até ao momento que o Mauro saiu, uma vez que o fui acompanhar à porta
- Já se acertaram? - olhei-o
- Sim…
- Que sim mais murcho foi esse?
- Não comeces… simplesmente não quero falar… pelo menos não hoje
O meu irmão não insistiu e quando regressei à sala só encontrei a Mariana
- O menino?
- Foi para o quarto… - respondeu quando já estava sentado do seu lado mas assim que o fiz, também ela se levantou
- Onde vais? - olhou-me
- Deitar-me - falou serenamente mas algo no seu tom de voz fez-me tremer
- Posso ir contigo? - voltou a olhar
- Podes…
Segui-a até ao nosso quarto, a Mariana começou a tirar a sua roupa da mala e a arrumar, ajudei-a e no fim deitou-se, sem dizer uma palavra que fosse. Imitei-a e também me deitei, fiquei uns minutos a observá-la, estava deitada de costas para mim, mas acordada, ou não fosse vê-la a mexer-se. Aguentei o silêncio uns minutos mas
- Podes virar-te para o meu lado? - olhou por cima do ombro - Mariana temos de falar, isto assim não pode continuar! - mudou de posição, o que permitiu ver os seus olhos - Fala… diz de uma vez o que te vai na alma
- Só quero descansar!
- Sinceramente não reconheço a Mariana que conheci, a Mariana por quem me apaixonei, com quem namorei e casei… mas tudo bem… quando quiseres falar diz! - saí da cama mas quando já estava na porta do quarto
- Ruben… - olhei - fica…
- Fico a fazer o quê? A incomodar-te? Já percebi que voltaste para casa mas por algum motivo que desconheço não estás segura da decisão que tomaste, isso magoa e deixa-me desconfortável, ainda mais quando tento falar contigo e te fechas no teu mundo
- Desculpa…
- Desculpa?! Achas que é isso que vai resolver os nossos problemas e fazer com que esqueça que saíste de casa da forma que saíste? Porra até compreendo que não seja fácil aceitares tudo o que se passou, mas caramba será que não confias em mim para desabafares, porque é disso que se trata, Mariana preferiste sair de casa, fugiste da realidade mas não é a fugir que os problemas desaparecem e o que mais raiva dá, é ter a consciência que sabes disso muito melhor do que eu! Nunca foste de fugir e abandonar os que amas, no entanto…
- Errei e sei disso mas sinceramente voltava a fazê-lo… porque continuo a sentir-me estranha, sinto-me presa no meu próprio corpo, não planeei nada disto, não desejei encontrar alguém que revirasse a minha vida como o fizeste, quando fui para Braga, foi com a intenção de refazer a minha vida com o meu irmão longe de Lisboa, não fui para namorar, casar e ser mãe, muito menos ponderava regressar, nunca pensei ser amada da forma que amas, de ter alguém a cuidar de mim, do Martim encontrar alguém muito melhor do que eu ao ponto de perceber que está muito melhor contigo do que comigo, não sirvo para nada, foi por isso que fui embora, não estou aqui a fazer nada e cada vez tenho mais certeza disso…
- Não digas isso - aproximei-me da cama e voltei a sentar-me, mas agora mais perto da Mariana
- É o que sinto, vocês estão muito melhor sem mim
- O que falas não tem sentido nenhum! O Martim não está melhor comigo, o miúdo está bem com os dois, o teu irmão a única coisa que quer é uma família, vê se percebes isso! Quanto ao resto, responde com sinceridade, estás assim tão infeliz com o nosso casamento?
- Não é uma questão de estar infeliz - respirou fundo - é mesmo de não reconhecer-me mais… o problema não é teu, é meu… dava tudo para voltar a ser simplesmente a Mariana, aquela que vivia em função do irmão, que trabalhava como empregada para sustentar a casa, aquela que no final do dia adormecia cansada mas feliz… sinto-me inútil
Não consegui dizer nada, simplesmente a abracei e assim que o fiz, o meu amor quebrou, segundos foi o tempo que levou até sentir a camisola molhada pelas suas lágrimas, deixei-a chorar e quando foi vencida pelo cansaço, fiquei a observá-la a dormir.
O que se passará com a Mariana?
Como será os próximos tempos?