terça-feira, 31 de março de 2015

097 - "E posso saber o que te deu para seres irresponsável a este ponto?"

Ruben

O impensável aconteceu, a mãe da Mariana e do Martim pelo que percebi é a mais recente conquista do meu pai… no fundo merecem-se os dois, pelo menos já não estraga mais casa nenhuma…

Era nisso que pensava quando

- Pai eu gosto muito de ti

Sorri ao ouvi-lo e ainda mais quando o meu menino abraçou-me

- Também gosto muito mas mesmo muito de ti

- Eu já sabia e agora ainda sei mais

- Então?

- Tu defendeste eu e a mana quando a - o menino calou-se por uns segundos - a outra começou a dizer só disparates

- Martim, não digas isso

- É verdade eu agora sei mas isso também não interessa mais porque eu agora tenho uma família e eu não quero saber de mais nada

- Filho, não sei se percebeste tudo o que foi dito mas o pai quer que saibas que farei de tudo para que sejamos pai e filho de verdade como falas

- Eu percebi e até percebi que já começaste a tratar disso - sorri - só não sei é porque que não contaste

- Oh piolho porque antes de adotar-te, é preciso tratar de alguns assuntos, foi por isso que não contamos logo

- Tá bem…

Conforme falou, saiu da cama e quando já estava próximo da porta do quarto

- Onde vais?

- Ver da mana tou preocupado com ela

- Espera… vou contigo

Segui atrás do Martim e quando entramos na sala, vimos a Kika sentada ao colo da Mariana, falavam tranquilamente e bastou uns segundos para perceber o tema

- … o meu pai não é como a tua mãe

- Kika não insistas!

- Mas porquê?

- Porque neste momento não consigo…

- E se for amanhã?

- Não vais desistir, pois não?

- Não!

- Kika, compreendo que queiras que aceite o teu pai como meu, mas isso não é algo fácil, muito menos que aconteça de um dia para o outro, entendes?

- Por isso é que quero que o conheças melhor

A Mariana olhou-me como que a pedir ajuda e por ter consciência que o dia hoje já teve emoções suficientes

- Kika, vamos! Vou levar-te a casa!

- Mas…

- Depois combinas e vens cá noutro dia, pode ser?

- Pode…

- Não fiques triste, Kika a mana precisa mesmo de descansar

- Mas podes pensar no que pedi?

- Posso… não prometo que mude de opinião mas prometo que pensarei no que pediste

A Kika despediu-se do Martim e depois foi até ao quarto dar um beijinho na Inês, quando regressou saímos com destino à sua casa.

***

Regressei a casa e esperava encontrar a Mariana na sala ou na cozinha mas não a vi, fui até ao nosso quarto e o que encontrei foi o meu amor e o meu filho a dormirem abraçados.

Deixei-os sossegados, fui até à cozinha, fiz umas torradas e aqueci um copo de leite, sim aquilo foi o meu jantar, a verdade é que com tudo o que se passou perdi o apetite.

Regressei ao quarto, troquei de roupa e depois de certificar-me que a Inês continuava a dormir, deitei-me ao lado dos meus amores.

Estava a observá-los quando a Inês acordou e uns minutos depois a Mariana despertou, levantou-se com cuidado para não acordar o Martim e aproximou-se do berço, pegando na nossa filha para dar o peito

- Queres que prepare alguma coisa para comeres?

- Sim… faz torradas e um chá

Saí do quarto e regressei com o que pediu, coloquei o tabuleiro em cima da cómoda e peguei na nossa filha, coloquei-a a arrotar e depois troquei a fralda, estava com ela nos meus braços e perdido a olhá-la quando

- O que se passou mexeu muito com o Martim

- Não foi só com o menino que mexeu…

- Sim… mas é diferente… já estou vacinada contra estas aparições, agora o Martim não

- O Martim é muito mais forte do que julgamos e sabe o que quer, não se deixa influenciar e prova disso foi tudo o que falou

- Mas não deixa de ser uma criança…

A Mariana aproximou-se e sorriu ao ver a nossa pequenina de olho aberto, deu-lhe um beijinho na testa e pediu que a deitasse no berço, algo que fiz e depois

- Queres que o vá deitar na cama dele?

- Não… deixa-o ficar aqui

Sorri e depois deitei-me de um lado e a Mariana do outro, ficamos alguns minutos a olharmo-nos no silêncio e por fim adormecemos…

Mariana

Apesar de tudo consegui dormir, talvez porque agora tenho do meu lado alguém para lutar comigo.

Acordei com beijinhos do Martim, sorri ao abrir os olhos, o meu puto é único e mesmo depois do que aconteceu, acordou como sempre acorda, de sorriso no rosto e a demonstrar o quanto nos ama.

Ainda ficamos os três na cama durante um bocado, mas os meus dois homens acabaram por levantar-se, uma vez que o mais pequeno iria para o colégio e o mais velho para o treino.

Perguntei ao piolho se queria ajuda, mas como resposta tive um

- Não mãe podes ficar aí deitada que já vi que tás preguiçosa! - gargalhei - e depois já sou crescido

Saiu de nariz empinado, o que fez com que sorrisse. Fiquei mesmo na cama e só saí quando ouvi

- Mas o que é que se passou aqui? Ai a Mariana!

Fui até ao quarto do Martim e assim que entrei, voltei a rir com a resposta do puto

- Oh pai eu tive que experimentar as camisolas todas para ver qual fica melhor com estas calças e depois não podes falar muito que és pior que eu… eu só tirei as camisolas todas das gavetas tu tiras as camisas e as calças também

- Tão engraçado… a formiga já tem catarro!

- Não… a formiga aprendeu com o pai

Voltei a gargalhar, para depois

- Estou feita convosco!

- Eu tou bem assim? Fica bem não fica?

- Fica… fica…

- Tá bom… agora vou comer!

Saiu do quarto todo dono e senhor de si, o que fez com que ríssemos novamente

- Mas afinal o que lhe deu?

- Até parece que não conheces o puto… lembrou-se disto!

- Pois… e lembrou-se porquê? Talvez porque é o que o seu paizinho faz!

- Oh mor admito que às vezes sou indeciso na escolha da roupa mas o que desarrumo também arrumo!

- Ya… muitas vezes mal dobrado e depois sobra sempre para a mesma!

Não respondeu, começou a dobrar as camisolas do Martim mas pedi que fosse antes até à cozinha dar o pequeno-almoço ao menino.

Estava a terminar de arrumar o seu quarto quando o Martim entrou chateado

- O pai não deixa eu meter gel no cabelo!

- Desculpa? Queres o quê?

- Meter gel para ficar ainda mais bonito!

- E convencido!

- Oh mãe!

- Sim filho - entrei na onda

- Tás a gozar comigo!

- Oh Martim, anda cá - puxei-o para o meu colo - não estou a gozar, só achei piada ao teu amuo

- Não é amuo! Eu só quero ficar mais bonito

- Não é por colocares gel no cabelo que ficas mais bonito!

- Mas deixas eu meter?

- Noutro dia… agora estás a ficar atrasado

- Tá bem…

O meu irmão deu-me um beijinho e depois agarrou na mochila, saindo de seguida. Fui atrás e despedi-me do Ruben, uma vez que do colégio seguia direto para o treino.

Ruben

O Martim acordou como se nada tivesse acontecido, não tocou mais no assunto e ainda nos fez rir com a história da roupa.

Deixei-o no colégio e segui para o Seixal, onde estive a manha toda. Regressei a casa e encontrei a Inês a dormir ao colo da Mariana

- Então?

- Deve ser as cólicas, está rabugenta - aproximei-me ainda mais - e só se calou ao meu colo

- Tadinha… -a Mariana sorriu

- Sabes que isto é normal nos bebés, não sabes?

- Sei mas não significa que goste de vê-la assim - voltou a sorrir

- E ainda não sabes tu que não fiz almoço - olhei-a - mor não consegui… a menina passou a manhã toda a chorar

- Não faz mal… não tens culpa da menina precisar de ti

- Também precisas de almoçar, por isso pega na nossa filha que vou preparar algo rápido!

Não hesitei a pegar na menina, no entanto assim que o fiz rabujou, o que provocou o sorriso na Mariana, o meu amor ainda ficou connosco durante um bocadinho mas acabou por sair.

Estava entretido a olhar para a minha princesa quando resolveu tramar-me, começou a chorar e não a consegui calar, fui até à cozinha e assim que a Mariana olhou sorriu

- Então filha o teu pai não te consegue calar - falou enquanto limpava as mãos

- Vais começar a gozar?

- Uiii que o senhor seu pai está sensível - falou ao pegar na Inês, para depois sorrir e - Mor não fiques assim porque hoje de manhã também não a estava a conseguir calar

- Pois mas agora já sossegou - voltou a sorrir

- Oh meu ciumento pega lá na menina e coloca-a contra o teu peito, como estou a fazer, que fica sossegadinha!

Olhei em modo de desconfiado, o que fez com que gargalhasse e depois entregou-me a menina, segui rigorosamente as dicas que o meu amor foi dando e consegui aguentar a nossa filha, até a Mariana terminar o almoço.

- Vai comendo que vou só dar o peito e já regresso

- Espero por ti!

- Tudo bem! - beijou-me e saiu

Aproveitei para lavar a loiça que usou para preparar o almoço, estava tão entretido que só quando falou é que reparei nela

- Oh filha, já viste o teu papá em versão de dona de casa

- Tão engraçada que a tua mamã está! - resmunguei e a Mariana sorriu

- Mor podes cortar-me a carne?

- Vais comer com a Inês ao colo?

- Tente deitá-la mas está com uma birra descomunal, tanto que nem mamou nada de jeito, daqui a nada está com fome

- Queres levá-la ao médico?

- Não! Oh mor isto são cólicas de certeza e já dei o medicamento por isso é esperar que passe

- Como assim medicamento? Mariana a nossa filha é muito pequena para dares medicamento assim do nada - gargalhou o que fez com que a olhasse

- Tens um papá muito stressado - falava para a Inês - mor relaxa que sei perfeitamente o que estou a fazer, além disso liguei para a pediatra antes de pedir à tua mãe para ir à farmácia comprar o medicamento!

- Ah…

- Oh mor não sou maluca nenhuma e a Inês não é o primeiro bebé que vejo com cólicas, muito menos o primeiro que cuido

- Sei disso mas… - calei-me, ainda assim

- Mas a Inês é a tua filha - voltou a sorrir

- Não é minha, é nossa! E apesar de ter noção que sabes perfeitamente o que fazes às vezes sinto que relativizas muito e isso faz-me confusão - voltou a sorrir

- Mor é normal que te faça confusão, nunca cuidastes de um bebé e por isso não estás mentalizado para o simples facto que os bebés não quebram facilmente, Ruben quando foi do Martim tive o mesmo receio que tens, tudo era motivo para colocar em causa os meus cuidados para com o menino, mas com o tempo passou, o receio desaparecerá e a confiança surgirá naturalmente, não te preocupes!

Não respondi, fiquei simplesmente a pensar no que falou enquanto comi. No fim coloquei a loiça na máquina e fui até ao quarto, uma vez que a Mariana foi tentar adormecer a nossa filha, algo que conseguiu e por isso tive direito aos seus mimos.

***

A Inês completa dois meses, dois meses de muito choro e noites mal dormidas, mas também de muito amor e de sorrisos, não há palavras para descrever o que sinto sempre que a tenho nos meus braços ou que dou banho ou ainda quando simplesmente fico a olhá-la enquanto dorme.

A primeira coisa que fiz, assim que acordei, foi ligar à Mariana, uma vez que estou de estágio, o meu amor garantiu que a menina deu uma noite de sono relativamente calma e depois tive vários minutos a falar com o meu piolho.

Acabei por desligar a chamada e fui ter com os meus colegas, as horas passaram e seguimos para o estádio.

O jogo correu bem e garantimos mais uma vitória, despachei-me relativamente rápido e quando saí em direcção à garagem

- Mariana?

- Oi amor - aproximou-se

- O que fazes aqui? E a menina? Deixaste a menina sozinha?

- Não… deixei-a com o Martim

- Mas estás doida? - gargalhou

- Só dessa cabeça é que podia vir uma ideia dessas! Oh Ruben, deixei a Inês e o Martim com a tua mãe! Achas mesmo que os ia deixar sozinhos?

- Desculpa… mas porquê que vieste? Devias ter ficado com a Inês!

- Ok… já entendi o recado! - olhei - Desculpa lá se ao fim de dois meses fechada em casa com a nossa filha resolvi ter umas horas só para mim

- A nossa filha ainda é muito pequena, precisa da mãe dela!

A Mariana não respondeu, virou costas e seguiu caminho, fui atrás e quando chegamos à garagem

- Não trouxeste carro?

- O que achas? Se tivesse carro, achas mesmo que estava à espera que abrisses o teu carro?

- E posso saber o que te deu para seres irresponsável a este ponto? Não basta já teres deixado a menina sozinha ainda vens sem carro? E se a Inês precisasse que fosses ter com ela, como fazias?

A Mariana olhou mas não respondeu, aliás foi calada o caminho todo e nem quando cheguei a casa da minha mãe se manifestou. Saí do carro e entrei, encontrei a minha mãe na sala, na companhia do Martim

- Boi noite

- Pai!!!

O Martim correu para os meus braços

- O que estás aqui a fazer? - olhei para a minha mãe

- Vim buscar a Inês e o Martim!

- Mas passou-se alguma coisa? - olhei-a

- Martim, podes ir arrumar as tuas coisas para irmos para casa? - o menino olhou

- Mas eu e a mana vamos dormir na casa da avó hoje

- Não vão nada!

- Mas eu quero dormir cá!

- Martim, nada de birras que estou cansado! Faz o que te peço se faz favor!

- Eu sei que tenho de fazer o que mandas porque és o meu pai mas deixa eu ficar com a vó Bela

- Ruben - olhei para a minha mãe - deixa-os ficarem!

- O Martim pode ficar se quiser mas a Inês vai para casa!

- Deixa a mana ficar cá também - voltei a olhar para o Martim - a vó Bela sabe cuidar bem da gente

- Martim, a Inês ainda é muito pequena.

- Por isso mesmo… pai a mana tá a dormir na caminha que foi tua e do tio Mauro e se a fores buscar ela acorda

- Depois adormece!

Ainda dei dois passos para a ir buscar a minha filha mas a voz do Martim deteve-me

- Pai tu não és burro - olhei para trás disposto a ralhar com o miúdo mas antes que o conseguisse fazer - ainda não percebeste que a mana quer tar sozinha contigo? Que foi por isso que pediu para eu e a mana ficar aqui - desviei o olhar para a minha mãe - não podes esquecer que também tens de dar miminhos à Mariana - ainda assimilava as palavras do puto quando - o pai anda a portar-se mal com a mana e isso deixa ela triste, agora só queres saber de mim e da Inês

- Foi a Mariana que te disse isso?

- Não… a mana só falou comigo para perguntar se queria ficar com a mana na casa da vó

- Então porquê que falaste isso?

- Porque eu vejo as coisas e já percebi que tás diferente com a mana e ela anda mais triste porque eu conheço ela e sei quando tá triste mas tenta disfarçar - voltei a engolir em seco - pai deixa a gente ficar cá e vai ter com a mana antes que ela fique ainda mais triste contigo

O pedido do Martim atingiu-me de uma forma brutal, ainda mais quando desviei o olhar para a minha mãe e percebi pela forma como olhava-me que aquilo não era coisas da cabeça de uma criança, que provavelmente a Mariana está mesmo chateada comigo

- Vou dar um beijinho à Inês e depois vou ter com a Mariana

- Tá bem!

Fui até ao quarto, onde está a Inês e quando a observava, vi a minha mãe a entrar, desligou o intercomunicador e

- Sinceramente foi preciso o Martim te abrir os olhos para entenderes o motivo pelo qual a Mariana pediu para que ficassem comigo - olhei

- Sermões agora não!

- Isso só significa que o menino tem razão no que falou

- Até parece que não sabe!

- Por acaso não sabia, a Mariana só pediu que ficasse com os miúdos, não se justificou e sinceramente nem perguntei porque gosto de cuidar dos meus netos e é normal que precisem de algum tempo a dois, estava longe de imaginar que não andas a dar atenção à tua mulher!

- Também não é assim…

- Deve ser ainda pior! Para o Martim perceber e chamar-te à atenção é porque não deves mesmo andar próximo da tua mulher!

Não respondi, voltei as atenções para a Inês e uns minutos depois saí. Passei pela sala, despedi-me do Martim e da minha mãe e segui caminho.

Entrei para o carro e no segundo seguinte vi a Mariana abrir a porta

- Onde vais? - olhou

- Buscar a Inês e o Martim… não foi para isso que cá viemos?

- Deixa-os ficar…

- Já percebi que tenho de solicitar a tua autorização para deixar a nossa filha e o meu irmão com a tua mãe, por isso reconheço o meu erro e agora vou busca-los!

- Desculpa… - a Mariana que já tinha aberto a porta, olhou - amor deixa-os ficar… a Inês está a dormir e o Martim quer ficar cá… além disso exagerei, mas fiquei preocupado quando te vi no estádio… acho que é normal

- Normal? Ruben, a primeira coisa que te passou pela cabeça foi que os deixei sozinhos, de certa forma acusaste-me de ser má mãe, isso magoou-me, mas como se não bastasse ainda vens cá para os levar, só não trouxeste a menina porque o Martim te deve ter impedido, porque o puto rejubilou quando falei que podia ficar a dormir cá com a mana

- Já pedi desculpas… não posso fazer muito mais do que reconhecer que errei

- Tudo bem… ainda assim vou busca-los porque tens razão, a menina ainda é muito pequena!

- Os nossos filhos ficam bem com a avó - olhou novamente - mor não sei quais eram os teus planos mas já percebi que os tinhas por isso… - interrompeu

- Os meus planos não eram nada de extraordinário, mas sinceramente perdi a vontade

- Ainda assim… vamos para casa só os dois…

- Faz o que quiseres… já estou por tudo mesmo!


Como terminará a noite? Até onde a falta de mimo do Ruben para com a Mariana pode afetar a relação dos dois?

quinta-feira, 26 de março de 2015

096 - "Quero que adotes o Martim"

Mariana

Desde que ouvi o desabafo do Martim que tenho pensado demasiado no assunto, não sei se é só as hormonas que estão descontroladas ou se é unicamente o meu coração a falar, só sei que as palavras do Martim despertaram em mim um conjunto de certezas que até ao momento não tinha, mas também fez com que pensasse muito sobre o assunto, até porque há decisões importantes a tomar e que podem mudar por completo as nossas vidas.

Quem percebeu que ando mais pensativa, foi o Ruben, que como sempre é atento, simplesmente pedi para adiarmos esta conversa, porque a última coisa que quero é que o Martim oiça.

O meu amor respeitou o meu pedido e por isso quando ficamos a sós, foi minha a iniciativa de falar

- Não sei como abordar o assunto - olhou - é estranho o que vou dizer porque vai contra tudo o que sempre falei

- Mor vai direta ao assunto… estás a assustar-me

- Quero que adotes o Martim - atirei de uma só vez e foi visível no seu rosto a surpresa - Ruben não posso fazê-lo porque sou sua irmã mas ambos sabemos que podes adotá-lo e é algo que o Martim quer muito, é o seu maior sonho…

- Tens a certeza? Amor por mim é na boa e faço-o de coração porque amo o Martim mas isso implica…

- Sei bem o que implica mas estou disposta a correr esse risco, o meu irmão merece

- Porquê agora? Porquê que queres que o adote?

- Porque o Martim quer muito… o nosso filho - sorriu - sim é isso que o Martim é… nosso filho… é esse o sentimento que vai dentro de mim, de ti e dele, sempre foi mas nunca o verbalizei com medo das consequências mas já não dá mais para continuar a ignorar o óbvio… não quero saber o que podem pensar, se nos vão julgar ao não, só sei que devo isto ao Martim e a mim, sou a mãe dele e ninguém vai mudar isso…

- O que te fez mudar de ideias?

- Foi o Martim… Ruben o menino pensava que estava a dormir e começou a falar com a Inês e fiquei a matutar nisso, o menino tem razão quando fala que somos os únicos pais que conhece

- Sabes bem que por mim já o tinha adotado mas para isso é necessário a vossa mãe dar autorização

- Sim… mas para isso é preciso que dar inicio ao processo

- Ajudava se soubesses onde encontrá-la, talvez se falássemos com ela fosse mais fácil

- Esquece… mor ela nunca vai facilitar, por isso o melhor é avançarmos já pelo meio legal…

- Ok… amanhã falo com o advogado para perceber qual será o primeiro passo

- Mas não comentes com o menino

- Sim…

***

Já se passou uma semana desde que a nossa vida ganhou ainda mais alegria, a nossa Inês completa uma semana.
Quanto ao desejo do Martim em ser adotado pelo Ruben, pouco fizemos, isto porque infelizmente é um processo demorado e complexo, teremos que esperar pacientemente…

- Amor vou levar o Martim e já regresso

- Ok

Fui despachar-me e quando o Ruben chegou já estava à sua espera, o meu amor levou a nossa filha e prendeu a sua cadeirinha no carro. Seguimos até ao consultório, uma vez que hoje é também dia de tirar os pontos.

Felizmente correu bem e não infetaram, dores também já não tenho, por isso já posso retomar lentamente a minha vida.

Saímos do consultório, diretos para casa, a Inês ainda é muito pequenina para andar no lareco.

***

Almocei com o Ruben e duas horas depois tive que o deixar ir, o Ruben foi para o treino. Liguei à Anabela para que fosse buscar o neto e a Kika, uma vez que o meu amor não podia.

Estava a preparar o lanche para os piolhos quando tocaram à campainha, fui abrir e fiquei à espera deles, assim que a porta do elevador abriu, a Kika saiu de imediato e não perdeu tempo em abraçar-me

- Manaaaa tinha tantas saudades tuas - sorri

- Oh piolha também tinha - dei-lhe um beijinho - entra - a menina fez o que pedi e foi a vez de o Martim dar-me o meu beijinho para seguir atrás da Kika - quer entrar? A Inês deve estar a acordar

A Anabela sorriu e entrou, seguimos para a sala, onde julgava encontrar os miúdos mas não estavam

- Já se foram enfiar no quarto…

- Fartei-me de rir com eles - olhei para a Anabela - passaram o caminho todo a discutir, pelo que percebi chatearam-se na escola, coisas de miúdos, mas assim que chegamos o Martim avisou a Kika que agora só podem discutir amanhã por causa da Inês

- Mas discutiram sobre o quê?

- Coisas de miúdos… sinceramente acho que estavam mais numa de embirrar do que chateados

- Hum… vou até ao quarto, quer vir?

- Se não te importas, vou!

Entrei no quarto e foi impossível não sorrir, estavam lado a lado a olhar para a Inês que dormia tranquilamente

- Vamos lanchar?

- Mana a gente não tem fome!

- Pois não… nunca tens fome mas depois comes tudo! Venham comer que quando a Inês acordar depois brincam

Deixei-os a comer sob o olhar atento da Anabela e regressei ao quarto, para dar de mamar à Inês que entretanto acordou. Estava já a terminar quando as duas pestinhas entraram acompanhadas pela minha sogra.

A Kika pediu para trocar a fralda e o Martim reclamou de imediato, mas consegui que entendesse que agora era a vez da Kika. Ajudei-a na tarefa e depois deitei a Inês no berço, a menina ainda levou uns minutos a adormecer, o que deixou o Martim e a Kika radiantes, mas assim que adormeceu

- Agora vamos fazer os trabalhos da escola

- Mas a gente quer brincar

- Brincam depois…

- Tá bem…

Pedi que fizessem os trabalhos na mesa da sala, assim podia ajudá-los se precisassem.

Estava atenta aos piolhos mas na conversa com a Anabela

- O Virgílio já veio conhecer a neta?

- Não…

- Cada vez está pior… nunca foi muito presente na vida dos rapazes mas pelo menos quando vivia com a Ana ainda aparecia…

- O Ruben não fala muito do assunto mas sei que o está a magoar

- Dos dois, foi o que nunca aceitou a nossa separação

- Mas o Ruben era tão pequeno quando vocês se separaram não deve ter grandes lembranças dessa altura

- Pois… acho que o mal é mesmo esse, o Ruben por ser pequeno não se recorda do que foi os últimos meses do pai dele em casa, já o Mauro lembra-se, por isso foi mais fácil para o meu filho mais velho aceitar a saída do Virgílio.

- Foi muito mau? - perguntei com algum receio de ser mal interpretada, mas a Anabela sorriu e

- Nunca houve violência entre nós, nem mesmo verbal quanto mais física, se é isso que querias saber - baixei o olhar

- Desculpe…

- Depois de tudo o que passaste, entendo que tenhas pensado nisso, mas quando falei dos últimos meses de casada, referia-me ao facto de já não haver carinho e amor, no entanto sempre existiu respeito mutuo, mas o Mauro percebeu que já não éramos mais um casal e em determinado momento perguntou porquê que o pai continuava a viver connosco se já nem na minha cama dormia, Mariana, nós separamo-nos em parte porque percebemos que continuar a morar na mesma casa só prejudicava os miúdos, até porque o Virgílio já tinha a Ana, só não era assumido, mas sempre soube da existência dela, simplesmente aturei isso pelos meus filhos, mas assim que o Mauro nos confrontou, pedi ao Virgílio para sair de casa

- O Ruben sabe disso?

- Sabe… contei tudo uns anos depois mas só serviu para se revoltar ainda mais, o Ruben, dos dois, sempre foi mais agarrado a mim e tomou as minhas dores sem que pudesse fazer algo para evitar isso

A conversa só não continuou, porque o meu amor chegou a casa, foi o Ruben que acabou por se sentar com os miúdos e ajudar nos trabalhos da escola, estava babadíssima a olhá-lo quando

- Queres uma fralda da Inês? - olhei e a Anabela sorriu

- Consegue negar o orgulho que tem nele?

- Não Mariana… sempre tive orgulho nos meus dois filhos, mas confesso que o Ruben continua a surpreender

Simplesmente sorri, até porque o Ruben se veio sentar ao meu lado.

***

A Anabela já nos tinha deixado e os miúdos estavam no quarto do Martim a brincar quando o Ruben atendeu o telemóvel, pela resposta que deu, percebi que falava com o pai e assim que desligou

- Ligou a perguntar se pode cá passar…

- Agora?

- Mais logo…

- Hum… ok… aproximei-me ainda mais do Ruben, que assim que desligou o telemóvel, voltou a agarrar no comando da playstation - queres falar? - colocou o jogo na pausa e olhou

- Falar do quê? Mor quer vir venha… só acho que já vem tarde mas isso é só a minha opinião

- Dá-lhe um desconto… - interrompeu

- Um desconto? Ainda mais? Mariana desconto já dei demasiado, agora simplesmente já não espero nada dele, nunca foi um pai presente por isso já não esperava que fosse avô e agora vou vê-los que estão calados à tempo demais!

O Ruben fugiu ao assunto e também não insisti, detesto quando o fazem comigo, por isso respeitei a sua vontade.

***

Estava no quarto com a Inês, quando ouvi a campainha, deduzi que fosse o pai do Ruben, mas como estava a dar o peito à nossa filha, deixei-me ficar.


Ruben

A Mariana tentou que falasse sobre o meu pai, mas sinceramente não tenho nada a dizer e por isso fui até ao quarto do Martim, a porta estava aberta, motivo pelo qual entrei sem bater e encontrei os dois deitados na cama do Martim lado a lado e de mãos dadas, o que fez com que sorrisse para gargalhar depois, ou não fosse o Martim largar a mão da Kika assim que me viu

- Ai tanta vergonha… - sentei-me na beira da cama - não precisas de largar a mão da Kika só porque vi

- Eu não larguei porque tu viste - falou envergonhado - eu larguei porque isto era um jogo e o jogo acabou - a vontade para rir foi tremenda mas controlei-me para não o deixar ainda mais envergonhado

- Por falar em jogo, não querem brincar comigo?

- Pode ser - o Martim saiu da cama - Kika queres brincar ao quê?

- Podemos ir ao parque? Andar de baloiço?

- Hum… pode ser mas não nos podemos demorar que daqui pouco o meu pai vem cá visitar-nos!

- Tá bem! É só um bocadinho.

Fiz a vontade aos putos mas antes de sair avisei a Mariana.

Tivemos meia hora no parque e depois regressamos. O Martim foi com a Kika para o seu quarto e pediu para não ser incomodado, só lhe pedi para não se fecharem no quarto, algo que o puto acedeu.

Fiquei pela sala, estava a ver televisão quando ouvi a campainha, fui abrir e esperei pelo elevador, vi sair dele o meu pai e uma mulher

- Boa tarde, filho!

- Boa tarde - cumprimentei-o

- Maria, é o meu filho Ruben, filho é uma amiga

- Amiga?! Pai deixe de ser ridículo que já não sou criança nenhuma - a senhora olhou-me e por momentos tive a sensação que a conhecia de algum lado

- Isso não são modos de falar!

- E mentir-me também não é solução! Mas entrem… veio cá para ver a sua neta e não o vou impedir

Desviei-me e o meu pai entrou, seguido da nova namorada, sim que só pode ser esse o motivo pelo qual trouxe uma mulher que não conheço de lado nenhum para a minha casa.

Fechei a porta e segui até à sala, com eles atrás.

- Aguardem aqui que vou buscar a Inês!

Fui ao quarto e ao entrar vi a Mariana a dar o peito à nossa filha, sorri e informei que o meu pai já se encontrava acompanhado, esperei que a Inês terminasse de mamar e depois troquei a fralda.

- Queres metê-la na alcofa? Pode ser que adormeça

- Deixa… vai ao colo, o teu pai vê-la e depois venho deitá-la.

Concordei e peguei na nossa filha, saímos do quarto e quando entramos na sala, fomos ambos surpreendidos…


Virgílio

Quando convidei a Maria a acompanhar-me para conhecer a minha neta estava longe de imaginar que o meu filho fosse reagir assim, era nisso que pensava quando

- O teu filho não gostou que viesse… talvez seja melhor ir embora

- Maria, o Ruben só tem de aceitar, já não é criança

- Mas pode interpretar a minha vinda como provocação e não há necessidade…

A Maria calou-se e como a olhava percebi que algo a deixou incomodada, desviei o olhar e vi o Martim, também ele estático a olhar-nos

- Filho…

Olhei novamente para a Maria sem entender mas também não tive tempo de questionar, isto porque se levantou e quando se aproximou do menino

- Sai! - falou determinado - não te quero aqui!

- Martim… - a Maria deu mais um passo mas o menino recuou - oh filho deixa a mãe dar-te um abraço e um beijinho

- Tu não és minha mãe, a minha mãe é a Mariana e o meu pai o Ruben!

Estava estarrecido perante o que ouvia, mas não fui o único, percebi isso no momento que vi o Ruben e a Mariana a entrar na sala, a rapariga foi quem reagiu primeiro, simplesmente caminhou até ao Martim e puxou-o para si

- Afaste-se! - a voz da Mariana, fez-se ouvir e

- Eu mandei ela embora mas ela não sai - o menino começou a chorar

- Anda cá - a Mariana acolheu-o nos seus braços - não chores… e agora vai com a Kika para o teu quarto, que já vamos ter contigo, pode ser?

- Não… ela é que tem de sair!

- Amor, confias em mim?

- Em ti sim mas nela não - falou determinado e quase que juro que vi um ligeiro sorriso no rosto da Mariana

- Então se confias faz o que te estou a pedir

- Não! Quem tem de sair é ela nem sei porquê que cá entrou

- Ruben, leva-os para o quarto

- Mas…

- Faz o que te peço, por favor

- Ficas bem?

- Sim… - eles olhavam-se com uma intensidade enorme, parecia que comunicavam só pelo olhar - Ruben sei o que estou a fazer, confia em mim

- Meninos vamos

- Não vou a lado nenhum eu daqui não saio e daqui ninguém me tira - apesar de ser uma criança vincou a sua vontade como gente grande

- Oh filho anda…

- Não! Pai eu só vou se ela sair

- Piolho - o menino olhou para a irmã - amor vai com o Ruben que quero falar com ela

- E eu quero ouvir eu sei que vais falar de mim por isso quero ouvir

A determinação do menino foi de tal ordem que a Mariana cedeu, acabou por pedir ao Ruben que fosse deitar a Inês no berço e sem dizer mais uma única palavra agarrou o irmão pela mão, puxando-o consigo, passou diante de nós, sentou-se com o seu irmão ao colo e só depois

- Você sabe muito bem o que penso a seu respeito, como tal não o vou voltar a dizer, portanto agradeço que não me faça perder tempo e diga de uma vez ao que veio?

- Vim cá conhecer a neta do Virgílio, Mariana desconhecia totalmente que vos encontraria, se soubesse não tinha vindo - a Maria falava de olhar baixo

- Nem esperava outra coisa de sim - a Mariana falou com um tom irónico - Mas se tem essa consciência porquê que não saiu assim que o Martim pediu?

- Porque bloqueei - a Mariana riu sarcasticamente para depois - O que te fiz não tem perdão e só eu sei o tamanho do arrependimento que carrego todos os dias…

- Primeiro não foi só a mim que prejudicou e segundo não quero desculpas… não preciso delas para ser feliz, como também dispenso saber o tamanho do seu arrependimento, perceba de uma vez por todas que não tem espaço na minha vida, perdeu esse direito quando me abandonou e não estou a referir-me quando me deixou na casa da sua irmã, estou a falar do que se passou anos mais tarde, o que não tem perdão é ter-me feito acreditar que ao fim de dezoitos anos podia finalmente saber o que era ter mãe para depois desaparecer sem deixar rasto, é isso que mais dói, porque nessa altura já não era mais criança, percebi que fui rejeitada, abandonada e só perguntava o porquê, mas ninguém conseguiu responder, não entendo… já não era uma criança, já estava criada e nem trabalho dava mas mesmo assim fugiu, não satisfeita voltou a drogar-se e ainda foi irresponsável ao ponto de engravidar, nem o facto de carregar um filho no ventre fez com que parasse e se antes de ter a minha filha já não a entendia, agora é que não entendo mesmo, ser mãe é das melhores coisas que podem acontecer na vida de uma mulher e você foi duas vezes e em nenhuma soube dar valor.

- Errei muito e infelizmente não há nada que possa fazer para vos compensar

- Nós só queremos que vás embora - o Martim meteu-se na conversa, algo que feriu a Maria, tanto que

- Enquanto não viraste o meu filho contra mim não descansaste!

Falou para a filha mas a resposta veio do mais pequeno e uma vez mais arrasou por completo com a Maria

- A Mariana não tem culpa de eu já perceber as coisas, eu posso ser uma criança mas já sei o que é certo, foi por isso é que eu quis saber o porquê que tu deixaste a gente, agora sei que não foi a Mariana que não deixou, foste tu que não quiseste por isso agora sou eu que não quero ter uma mãe como tu, a minha mamã é a Mariana e o meu papá é o Ruben, porque é isso que eu sinto por eles e porque são eles que cuidam de mim e dão miminhos mas também metem eu de castigo quando faço coisas mal feitas, são eles que explicam as coisas, é para a cama deles que eu vou quando tenho sonhos maus por causa de ti, és má nunca gostaste da gente e eu sou muito feliz nesta família e não quero que faças parte dela porque eu tenho de proteger a minha mana Inês de ti, por tua culpa eu já vi a Mariana a chorar muito e também já chorei e agora eu só quero rir e ser feliz, eu só quero esquecer que já deixei a minha mamã muito triste por causa de ti, porque queria falar contigo mas agora já não quero, eu agora tenho uma família e tu não fazes parte dela porque nunca fizeste e não digo isto porque ouvi a Mariana a falar mal de ti porque isso eu nunca ouvi, ela nunca falou mal de ti ela só não falava de ti porque isso faz muito doer no coração dela porque ela percebe muito melhor que eu como tudo se passou, tu nunca quiseste saber da gente por isso vai embora e deixa eu ser feliz com o meu pai com a minha mãe e com a minha mana porque é isso que o Ruben a Mariana e a Inês são para mim, eles são tudo tu não és nada

- Martim… filho… - a Maria estava com as lágrimas nos olhos

- Não me chames isso - voltou a vincar a sua posição sem que nenhum adulto o conseguisse fazer parar - o único que pode chamar eu de filho é o Ruben porque a Mariana não pode eles já explicaram e eu já percebi que por ser mano dela ela não pode ser minha mamã mas o Ruben pode ser meu papá e se tu gostas de mim nem que seja um bocadinho vais deixar eu ser filho de verdade do Ruben e depois vais embora e nunca mais apareces, só fazes mal a mim e à mana, nós tamos muito melhor sem ti, sabes nunca fui tão feliz como sou agora e ainda bem que tu quiseste tirar eu da mana porque isso fez a mana levar eu para Braga e lá encontrei o Ruben que nunca desistiu de ser meu amigo só porque a mana não queria e depois quando pedi para ser seu filho ele aceitou e ele ama eu como sou, mesmo quando faço birras ele fica sempre comigo ao contrário de ti

- Mas isso agora pode mudar…

O Martim não permitiu que a Maria continuasse

- Não pode não agora sou eu que não quero!

- Martim tive um problema muito sério que fez com que…

O menino não facilitou e

- Eu sei qual foi o problema, não quiseste saber da mana nem de mim por causa da droga

Assim que falou, a Maria exaltou-se

- Como é que foste capaz? Contaste-lhe

- Contei… - a Mariana respondeu serenamente - Contei isso e tudo o resto, não sou mentirosa, o Martim quis saber a verdade e - olhou para o Ruben que já se encontrava sentado ao seu lado - nós contamos, preferi que soubesse por nós do que por terceiros ou ainda que se revoltasse porque não respondia às suas perguntas, sabe que mais, não vou perder muito mais tempo consigo, não é você que vai ensinar-me a educar nenhum dos meus filhos, porque é isso que o Martim é para mim, o meu irmão é na verdade meu filho, é isso que sinto dentro do meu coração e não é você que vai mudar ou impedir que o diga, perceba de uma vez que nos perdeu aos dois por sua culpa, não tente encontrar desculpas para a sua falta de amor-próprio e de amor para com os seus filhos, a droga destrói vidas mas só destrói as vidas de quem é fraco e de quem se entrega, você entregou-se mais que uma vez, por isso olhe entregue-se novamente e desapareça de vez, mas desapareça com uma certeza, lutaremos pelo Martim até ao fim, o Ruben até já deu entrada com o pedido para o adotar, é uma questão de tempo até ser notificada e sinceramente se algum dia nos amou nem que tenha sido por segundos, se algum se sentiu verdadeiramente nossa mãe, assine os papéis e dê ao Martim a maior prova do seu amor por ele, dê-lhe a oportunidade de poder usar o apelido do Ruben, porque é o que o menino mais quer e não o quer porque passará a ser filho de jogador de futebol, o Martim deseja isso mais do que tudo, porque assim os colegas do colégio deixam de ter motivos para gozar com ele ou para o chamarem de mentiroso quando afirma que o Ruben é seu pai, demonstre que ainda tem coração… é só isso que lhe peço… faça isso pelo Martim

- Se fizer isso perderei o meu filho para sempre

- E não acha que já perdeu? - o Ruben que até agora não se tinha manifestado, falou - Maria, não sei o que leva uma pessoa a consumir, nem quero saber, mas foi por consumir que perdeu os seus filhos, algo que aconteceu no passado, aconteceu antes de ter tido a sorte de os conhecer, não tenho culpa do Martim no seu jeito de menino traquinas mas super amoroso e até protetor para com a Mariana me tenha conquistado desde o início, a relação que a Mariana tem com o Martim encantou-me de tal forma que quase impus a minha presença na vida deles, foram semanas muito complicadas porque a Mariana não acreditava nas pessoas, tive que ter muita paciência mas acima de tudo persistência para que deixasse que me aproximasse, o mesmo aconteceu com o Martim, apesar do piolho - fez uma festa no seu rosto, o que fez com que sorrisse - adorar-me quando revelamos que namorávamos, o menino sentiu-se ameaçado, teve medo que a Mariana o deixasse, voltei a ter tempos complicados mas com muita calma, mas acima de tudo com muito amor, fiz com que o Martim percebesse que o meu namoro com a Mariana só faria sentido se o tivéssemos connosco, estou a falar de meses e meses de convivência, de amor do mais puro que pode existir, amo o Martim como amo a Inês, amo-os de igual forma e lutarei sempre para os ver felizes, não é só o Martim que quer que o adote, também o quero como filho e tudo farei para o conseguir, sei que é só uma formalidade, mas é uma formalidade importante para ambos. Compreenda que não é por dificultar isso que destruirá o amor que nos une, muito pelo contrário só reforçará ainda mais, isto se for possível. Maria, não quero roubar o Martim de si, primeiro porque não é um objeto, é uma criança com sentimentos mas principalmente com uma maturidade incrível, o que por vezes é mau, porque faz com que sofra mais e segundo é impossível que roube algo que nunca teve, o Martim ama-me a mim como nunca a amou a si, para o meu filho, você é unicamente a pessoa que o trouxe ao mundo, alguém não presente na vida dele, mas isso não a impede de pelo menos uma vez fazer algo de bom, deixe-me adotá-lo, mostre que se importa com ele e quem sabe daqui a uns anos o Martim a entenda melhor.

- Podes ter muito dinheiro mas recuso-me a vender o meu filho
Fiquei sem reação ao ouvi-la, o mesmo não posso dizer da Mariana, que perdeu a paciência

- Vender? Mas quem é que você julga que é para vir à minha casa insultar o meu marido? Você que se vendeu da forma mais mesquinha que pode existir só para ter dinheiro para a droga, é que nem pode alegar que foi para alimentar a sua filha, você não vale nada, rigorosamente nada, nem o ar que respira… desapareça de uma vez, não a quero aqui e nem tente se aproximar do Martim ou não responderei por mim, já chega de infernizar-nos a vida, o tempo que tinha medo das suas ameaças já lá vai, não vou fugir mais e se tiver que ir novamente a tribunal vou, mas vou com um único objetivo, afastá-la de vez das nossas vidas, não sou mais aquela a quem você ameaçava e com medo de perder o irmão mas acima de tudo de o ter que entregar a si, fugia.
A minha vida mudou muito desde que conheci o Ruben, já não estou sozinha, tenho alguém do meu lado que ama o Martim tanto ou mais do que eu, por isso não nos desafie, como você disse felizmente o Ruben tem posses que nunca tive antes e não hesitará em despender parte delas para lutar pelo nosso filho e não, não o estará a comprar mas sim a defender de si e agora rua antes que a expulse daqui como merece!

A Maria não falou mais, agarrou na sua mala e quando se levantou

- Mor faz-me o favor de a acompanhar à porta

O meu amor levantou-se e seguiu a Maria, algo que também teria feito mas

- Quanto a si, sempre que quiser ver a sua neta será bem recebido mas venha sozinho e afasta-se dela… dali só vem coisas menos boas…

- Estás a ser injusta… a Maria errou muito mas merece uma oportunidade…

Teria continuado a defendê-la mas

- Pai já chega! Não opine sobre o que desconhece, não sei nem quero saber de onde conhece a Maria, muito menos o quão bem se conhecem! Não me desiluda mais e vá embora que por hoje já causou estragos suficientes!

Ainda tentei desculpar-me mas o Ruben virou as costas, levando o Martim consigo. A Mariana acompanhou-me à porta e voltou a afirmar que serei bem recebido quando regressar para conhecer a minha neta, afinal com isto tudo mal vi a menina…

E agora como ficará a cabeça do Martim?
Que impacto terá este episódio na vida desta família?
E a Kika, o que pensará disto tudo… afinal testemunhou o que se passou…