Ruben
A tarde estava a ser
animada com muita brincadeira à mistura mas ainda tínhamos reservada uma
pequena surpresa para o Martim, já que não fazia a mínima ideia que ainda
faltava uma convidada, afinal até a mim a Mariana surpreendeu-me no dia que
pediu para que entrasse em contato com o Paulo de forma a saber se seria
possível a presença da Kika, nem que fosse só por um bocadinho, no aniversário
do Martim.
O Paulo ao início
mostrou-se reticente, até porque a Kika ainda precisa de ter muitos cuidados,
mas depois de falar com a Filipa, ligou a avisar que trariam a menina durante
um bocadinho, para cantar os parabéns ao Martim.
Apesar da Mariana o ter
feito pelo Martim sei que estava a custar-lhe, afinal ia novamente
reencontrar-se com quem não faz questão. Estava agora a dar mimo à grávida mais
linda quando vi a entrar na sala a Kika acompanhada pelo pais, a menina assim
que nos viu veio a correr abraçar-se à Mariana.
-
Tinha saudades tuas!
– atirou imediatamente – Porquê que
nunca mais foste ver-me? - a menina queria respostas e isso foi evidente
mas a sorte esteve do lado da Mariana uma vez que o Martim apareceu e a Kika
esqueceu o assunto.
-
Boa tarde! –
levantei-me para cumprimentar os pais da Kika que retribuíram.
-
Olá… - a Mariana
falou e um momento estranho se seguiu uma vez que a Filipa a cumprimentou com
dois beijinhos, gesto que o Paulo também repetiu, aquilo mexeu com o meu amor,
tanto que se desculpou com o fato de ter que olhar pelas crianças para se
afastar.
***
O Martim exigiu que
tanto a Mariana como eu, estivéssemos do seu lado no momento em que cantamos os
parabéns, o menino soprou as velas e depois ajudou na distribuição do bolo para
logo depois se “perder” a desembrulhar os presentes recebidos. A festa estava a
terminar e para desconforto da Mariana os pais da Kika deixaram-se ficar, já
que a menina continuava na brincadeira com o Martim. Fomos “obrigados” a fazer
“sala” aos convidados o que estava cada vez a incomodar mais a Mariana.
Paulo
O convite de Ruben para
que levássemos a Kika ao aniversário do Martim surpreendeu, não por quererem a
presença da minha menina mas sim por o convite ser extensível a nós, talvez por
terem noção que não iriamos deixar a nossa pequena sozinha por ainda estar em
recuperação e ter que ser vigiada permanentemente.
Acabamos por aceitar o
convite, ainda assim avisei que iriamos mais tarde para a menina não se cansar
tanto, algo que o Ruben compreendeu. O dia da festa chegou e mais uma vez tive
a certeza que a minha presença incomoda a Mariana ou não fosse afastar-se sempre
que lhe era possível.
A festa terminou, mas
nós ficamos mais um pouco, porque a Kika brincava alegremente com o Martim, foi
quando os adultos mantinham uma conversa de circunstância que as crianças se
aproximaram.
-
Oh mana a Kika não acredita que tens um bebé na
barriga – falou aborrecido o que nos fez a Mariana sorrir – diz que os bebés não saem da barriga das
mães! – confesso que a curiosidade em saber como lidaria a Mariana com o
assunto fez-me ficar atento.
-
Kika – a Mariana
chamou-a e a menina ao aproximar-se acabou sentada ao seu colo – o Martim tem razão, tenho mesmo um bebé na
minha barriga.
-
Como é que isso aconteceu?
– perguntou confusa, talvez porque da única vez que tentou abordar o assunto
comigo e com a Filipa lhe contamos a história da cegonha.
-
Pois mana eu também não sei...
– o Martim sentou-se ao colo do Ruben à espera que a irmã o esclarecesse.
-
É simples – a forma
tão serena como a Mariana olhava para os pequenos só me deixou ainda mais
curioso para ouvir o que tinha a dizer e não fui o único, já que os adultos
presentes na sala fizeram silêncio – quando
dois adultos gostam muito um do outro, como nós – olhou para o Ruben
sorrindo e que sorriso lindo, aquele sorriso... por momento reconheci-o mas só
podia ser a minha memória a trair-me –
chega uma altura que queremos mais do que uns beijinhos, a isso chama-se fazer
amor e quando o fazemos a mulher pode engravidar, isso acontece porque há a
libertação de umas sementinhas por parte do homem que a mulher recebe e que
pode ou não resultar num bebé.
-
Mas de onde aparece as sementinhas?
– o Martim perguntou imediatamente, estava curioso. Olhei para a Filipa e
percebi que estava incomodada, talvez porque no fundo deveria ser ela a ter
esta conversa com a nossa filha e não uma quase estranha.
-
Da pilinha – a
Mariana respondeu com uma naturalidade tremenda, parecia que não o fazia pela
primeira vez.
-
Então eu também tenho essas sementinhas?
-
Ainda não... só quando fores mais crescido – esclareceu o menino.
-
E como é que as mulheres recebem?
– desta foi a Kika, o que surpreendeu-me a mim e à Filipa.
-
É pelo pipi mana? –
a pergunta do Martim surpreendeu mas o menino esclareceu imediatamente – se nós é por onde fazemos xixi as mulheres
também deve ser...
-
Sim, tens razão!
-
Mas mana como é que essas sementinhas passam do homem para a mulher?
-
Quando crescemos e encontramos a pessoa de quem gostamos muito descobrimos que
a pilinha e o pipi se completam e quando isso acontece as sementinhas passam de
um lado para o outro
– estava cada vez mais fascinado com o momento que estava a presenciar, a
Mariana estava a dar-me uma tremenda lição do que é educar uma criança com base
na verdade adaptada à capacidade de perceber dos miúdos.
-
Mana tás a dizer que a pilinha entra no pipi? – o menino estava confuso e isso notou-se na cara que
fez.
-
Sim – a Mariana
respondeu tranquilamente.
-
Ahhhhhhhhhh – o
menino levou a mão à boca como se tivesse feito uma grande descoberta – é por isso que na televisão a gente vê o
homem e a mulher na cama e sem roupa e depois aparece os bebés.
-
Sim, é isso!
-
Ah tá bem! – o
Martim ficou esclarecido tanto que se virou para a Kika – anda vamos brincar.
Assim que se afastaram e
quando ainda estava a assimilar tudo o que tinha presenciado, a forma como uma
jovem que se encontra neste momento grávida do seu primeiro filho, já aprendeu
o que é ser mãe, ouvi o Mauro a meter-se com a cunhada.
-
Oh Madalena acertamos em cheio na escolha da madrinha para o Rafael, assim
quando o puto começar com as dúvidas existenciais mandamo-lo perguntar à
madrinha! – com a
saída do Mauro acabamos por nos rimos à exceção da Mariana.
-
Quando foi para explicar calaram-se todos mas agora já riem! Mas terei todo o
gosto em esclarecer o meu afilhado, já que o pai dele não será capaz de o
fazer... menino! –
a Mariana ripostou animadamente.
-
Para quê que vou estar a passar pela vergonha de explicar isso se és pró no
assunto!
-
É... nisso tenho que concordar
– o Ruben meteu-se na conversa – a
Mariana é mesmo pró em muita coisa e a principal delas todas é em ser mãe –
levou a mão à barriga da mulher, num gesto de carinho que fez a Mariana sorrir
enternecida – e esposa, companheira,
amiga,... – a rapariga ficou envergonhada o que fez com que sorríssemos
todos, é inegável o tamanho do amor que os une, estava perdido em pensamentos
quando a voz da Filipa despertou-me.
-
Mariana – a
rapariga olhou-a – o Martim é o único
irmão que tens?
-
Sim... – a Mariana olhou o Ruben por segundos - mas porquê?
-
Ah... é a forma como abordaste o assunto, o teu à vontade, a forma como explicaste
às crianças como se fazem os bebés, deu-me a sensação que não foi a primeira
vez que o fizeste, afinal fizeste o que sinceramente não consegui fazer quando
a Kika perguntou como os bebés apareciam...
-
Tem razão... não foi mesmo a primeira vez que abordei o assunto com crianças – a Mariana por instantes pareceu
ficar incomodada algo que a Filipa não deve ter percebido porque voltou a
questioná-la.
-
E posso saber onde leste sobre o assunto, é que notou-se que estudaste o
assunto – o olhar
da Mariana alterou por completo, antes desta abordagem da Filipa o brilho era
de felicidade mas no fim era de mágoa ou não fosse o seu olhar ficar “vidrado”
não a conheço muito bem mas arrisco dizer que fez um enorme esforço para não
deixar as lágrimas cair, se já tinha essa impressão quando a Mariana começou a
falar tive certezas.
-
Não li... existe algo chamado a “escola da vida”, foi assim que aprendi, sabe
que crescer numa instituição onde os mais velhos são os pais dos mais novos não
trás só coisas más, dá-nos uma bagagem para a vida, foi lá que aprendi muito do
que sei hoje – o
Ruben olhava-a atento, parecia ter medo que a sua mulher fosse quebrar a qualquer
momento - foi a ouvir o que os mais
velhos tinham a dizer e depois a transmitir aos mais novos que aprendi a
dialogar com as crianças, a falar a mesma linguagem que eles, a compreendê-los,
afinal tínhamos todos o mesmo em comum, uma vida sem a presença dos pais –
olhou-me por segundos o que fez-me arrepiar - sem ninguém para contar a historia da cegonha, descobrimos que fomos
simplesmente o resultado de um encontro falhado entre uma pilinha e um pipi
– a Mariana falava com uma mágoa tremenda – foi por ter esta noção desde muito cedo que recuso-me a inventar historinhas
de encantar para explicar o que por incompetência os adultos por norma não
conseguem fazer, prefiro milhões de vezes passar por situações embaraçosas do
que recorrer a mentiras para responder às dúvidas do meu irmão, porque só assim
o Martim irá crescer a saber o que é certo do que é errado, que há
consequências em tudo que fazemos, até na forma como usamos o que temos entre
as pernas, porque garanto que a última coisa que gostaria de ver é o Martim a
fazer o mesmo que no passado um canalha fez àquela que me pariu, a divertir-se
com uma miúda e depois a abandoná-la com um filho na barriga, porque isso é
meio caminho andado para esse ser inocente ter uma infância infeliz, passar
fome, ser maltratado e desprezado.
A Mariana falava quase
sem parar para respirar e pela reação dos presentes, só o Ruben é que já sabia,
mas a certeza que a Mariana não falava de algo que ouviu mas sim do que viveu
fez com que voltasse a pensar no passado, seria possível que... a dúvida tomou
proporções gigantescas, tanto que um medo avassalador tomou conta de mim...
-
Desculpa – a Filipa
falou assim que a Mariana se calou – não
o falei com intenção de te magoar...
-
Fique descansada que não consegue esse feito... – o tom de voz da Mariana alterou,
agora era rude talvez por isso o Ruben tentou chama-la à razão pedindo calma
mas isso só a revoltou mais
-
Calma Ruben? Como é que queres que tenha calma quando sabes que a única coisa
que me mata por dentro é ter que olhar nos olhos do meu irmão e mentir-lhe
porque não posso dizer que nunca privou com o pai porque a mãe dele nem sequer
se lembra quem é ele –
o Ruben fechou por segundos os olhos, talvez por saber que a Mariana estava a
falar sem pensar e que por isso mais tarde poderia arrepender-se - porque tava tão drogada que provavelmente
abriu as pernas a outro drogado ou então a um estupor – olhou-me por
segundos - que a enganou quando ainda
era uma inocente e que depois a abandonou grávida – senti-me a ficar sem
pinga de sangue - levando-a a afundar-se
no mundo da droga, a deixar a filha dias sozinha porque tinha que vender o
corpo para comprar droga, que voltava para casa com droga mas comida nem vê-la.
Sabes
que lhe minto quando digo que a mãe está a trabalhar longe e como tal que ficou
com a irmã, quando sabes que não priva com a mãe porque é uma drogada e só quer
saber dele para conseguir dinheiro fácil, sabes que deixei de viver a minha
vida sem preocupações para dar a infância que nunca tive ao meu irmão – a Mariana deixou rolar as lágrimas
que há muito segurava pelo seu rosto –tive
que fugir para que o menino cresça longe do mundo em que vivi até ter a
infelicidade de ser entregue aos meus tios que em vez de me darem amor faziam
de mim saco de pancada, sabes os anos que vivi na instituição, a ver outras
crianças a encontrarem um pai e uma mãe enquanto ficava simplesmente a assistir...
- a Mariana voltou a parar numa tentativa falhada de regular a respiração
que há muito estava irregular devido ao choro, o Ruben simplesmente a abraçou - Como queres que tenha calma quando sabes
perfeitamente que estou a ser obrigada a olhar para um dos responsáveis por não
ter tido infância e fingir que não é o sangue dele que me corre nas veias –
o meu “mundo” desabou porque agora já não era uma dúvida remota, agora era uma
certeza inabalável – não deixa de ser
irónico ser o lixo que rejeitou, que nem sequer quis conhecer, a salvar a única
filha que tem, realmente não há cabrão nenhum que não tenha sorte e a –
fixou pela primeira vez o meu olhar, doeu vê-la naquele desespero - sua foi o meu caminho se ter cruzado com o do
Ruben porque se não fosse isso a esta hora podia já não ter filha, a sua sorte
é que não lhe herdei os genes de abandono, ao contrário de si não consegui
virar a cara a uma menina inocente e que naquele momento precisava de mim –
foi impossível segurar as lágrimas que prendia a todo o custo desde o momento
que tive a confirmação daquilo que menos queria – você mete-me nojo mas uma coisa tenho que admitir tem pela Kika o amor
que nunca demonstrou ter aqui pelo acidente de percurso, só espero sinceramente
que seja o pai que nunca foi para mim, a menina é um anjinho que não tem culpa
do que você fez no passado, dei-lhe a oportunidade de poder continuar a ver o
seu tesouro a crescer por isso ame-a é só o que lhe peço, não quero nada de si
a não ser distância!
A Mariana assim que
terminou de falar, respirou profundamente, limpou as lágrimas e tentou sair da
sala mas impedi ao falar, o que a fez parar e encarar-me
-
Espera... filha
-
Não lhe admito que me chame isso, sou filha sou mas não é sua, sou filha da dor
e do ódio, da dor de ter crescido sem infância, sem pais e do ódio de ter o seu
sangue a correr-me nas veias...
-
Deixa-me explicar...
– os olhos da Mariana espelhavam uma mágoa tremenda
-
Explicar o quê? Que era novo e que fugiu das responsabilidades?! Poupe-me que
como deve ter percebido não sou ingénua porque nunca soube o que era isso, até
isso você roubou-me...
-
Desculpa – baixei o
olhar – desculpa por não ter assumido,
por ter fugido às responsabilidades, tens toda a razão para odiar-me mas
deixa-me pedir-te desculpas, é só o que posso fazer...
-
Não! Nunca terá o meu perdão porque para mim você não é ninguém, é que nem os
animais abandonam os seus filhos como você fez, não quero nada de si ou melhor
quero distância! Você não merece nada, é asqueroso, o que
fez não se faz, renegou um filho...
-
Tens toda a razão de odiares-me mas acredita que não odeias mais do que eu – a Mariana sorriu de forma irónica
– odeio-me por ter abandonado a tua mãe
mas naquela altura não pensei nas consequências e quando anos mais tarde tentei
saber de ti nunca consegui, perdi o rasto à tua família – interrompeu-me
-
Qual família?! Aquela que só se lembrava que existia quando tinham o stress
para descarregar? Poupe-me porque se há algo que não tive durante anos foi
família, só quando entrei para a instituição é que descobri o que era isso e
mais tarde quando recebi o Martim nos meus braços, não lhe admito que tente
sequer meter-se no meu lugar e páre de tentar fazer-me entender o seu lado
porque nem aqui nem no raio que o parta o vou desculpar e muito menos ouvir,
você não é nada...
A Mariana odeia-me e com
toda a razão, não consegui reunir forças para contraria-la, simplesmente
percebi que falasse o que falasse a Mariana nunca iria ouvir e se duvidas
tivesse, essas teriam sido dissipadas no momento em que saiu da sala, deixando
para trás a família do Ruben incrédula com a descoberta que fizeram, olhei para
a Filipa, obriguei-me a isso mesmo pela primeira vez desde que a Mariana
afirmou que o canalha a quem tem um ódio de morte sou eu, vi a minha mulher
como nunca antes a tinha visto, não consegui decifrar sequer se estava a
odiar-me perante o que ouviu ou se estava tal como os restantes só em completo
choque perante a realidade que nos assombrou sem aviso prévio.
Ruben
Nunca pensei que o dia
fosse terminar com a Mariana a deitar cá para fora tudo o que guardou dentro
dela durante anos. Quando começou a falar, ainda tentei acalmá-la dado que
estava a perder o controlo e adivinhava-se o que aconteceu, a verdade veio ao
de cima, mas só consegui o inverso, revolta-la ainda mais, o que culminou com
um momento doloroso, tanto para o meu amor como para o Paulo, já para não falar
da Filipa que quanto mais a Mariana falava mais se desiludia, afinal não
conhece a pessoa que tem do seu lado.
Optei por deixar a
Mariana falar tudo, não voltei a interrompe-la por saber que depois de começar teria
que chegar ao fim, só assim conseguirá colocar uma pedra sobre o assunto, isto
é se algum dia for possível...
A Mariana falou e no fim
o Paulo ainda tentou defender-se mas o meu amor não lhe deu hipótese nenhuma,
acabando por sair da sala, deixando para trás o rasto da destruição de um homem
e quem sabe de uma família, arrepiou-me ver a Filipa no estado que estava,
sinceramente não sei que consequências terá este desabafo da Mariana naquela
família mas também não estou minimamente preocupado, afinal e a bem da verdade
o Paulo está a colher o que semeou no passado. Estava remetido ao silêncio,
afinal não havia muito mais a ser dito quando a voz do Paulo despertou-me.
-
Sabias?
-
Sim! – fui claro na
resposta – Do início ao fim...
-
Perguntei-te o porquê da Mariana reagir da forma que reage à minha presença e
nunca o disseste...
-
Paulo, você é só o meu empresário e um conhecido, ela é a minha mulher, acha
mesmo que lhe ia dizer? –
baixou o olhar – Até lhe digo mais...
não consigo condenar a Mariana por afirmar que o odeia, quando foi isso que
senti no dia que contou-me o seu passado, senti uma revolta tremenda porque
tinha diante de mim uma pessoa estupenda, que surpreendia-me sempre mais e mais
a cada dia que passava, que dava e dá tudo de si às pessoas a quem chama de
amigas, a sofrer porque após insistência minha acabou por desabafar, ouvir tudo
pelo que passou e saber que em grande parte a culpa era do pai, revoltou-me,
nunca lhe disse, afinal já bastava a enxurrada de sentimentos menos próprios
que tinha e tem por si, mas quantas não foram as vezes que dei comigo a pensar
que se tivesse a infelicidade de me cruzar com o responsável que não saberia
como reagir... a Mariana nunca disse o nome mas sempre disse que era alguém
ligado ao futebol, andava muito longe de imaginar que afinal conhecia bem o seu
pai, aliás descobri no dia do nosso casamento, só nesse dia é que fiquei a
saber, isto porque a Mariana não conseguiu arranjar forças para lidar com os
sentimentos contraditórios que iam dentro dela, afinal era o nosso dia, dia em
que supostamente era para ser vivido na plena felicidade e alegria, mas não...
nesse dia a Mariana levou o maior murro no estomago que podia suportar, ainda
assim impediu-me de trocar de empresário, porque apesar de tudo, você é um dos
melhores, ela voltou a pensar primeiro em mim e depois nela, acabei por
fazer-lhe a vontade mas jurei para mim mesmo que tudo isto iria comigo para a
cova, talvez por saber que a Mariana preferia ignorar do que passar pelo que
está a passar agora...
Ignoramos
durante alguns meses até que por ironia do destino o Martim se tornou amigo da
Kika, a Mariana não conseguiu impedir o irmão de construir a amizade que os
une, porque o menino não tem culpa, mais uma vez pensou nos outros e só depois
nela. Escusado será relembra-lo que quando a Kika mais precisou da irmã que a
Mariana disse o “estou presente”, fez os testes de compatibilidade de
espontânea vontade, o resultado foi positivo e no mesmo momento que teve essa
confirmação decidiu salvar a vida da menina, como a Mariana falou, felizmente
não lhe herdou os genes de abandono...
Agora
não venha com cobranças para cima de mim por nunca lhe ter dito nada...
Desculpe mas não tem sequer moral para o fazer...
Não lhe dei tempo para
dizer o que quer que fosse, saí da sala para procurar quem mais precisava de
mim naquele momento. Encontrei a Mariana no quarto que foi meu, estava tão
absorta na sua dor que nem deu pela minha entrada, só mesmo quando deitei-me do
seu lado e a abracei é que a Mariana voltou a “quebrar”, chorou até não
aguentar mais, acabou por ser vencida pelo cansaço e adormeceu exausta, sem
voltarmos a tocar no assunto, talvez por não haver necessidade, afinal conheço
de trás para a frente e da frente para trás toda a dor que o meu amor
transporta dentro de si...
Anabela
Poder proporcionar uma
festa de aniversário ao Martim deixou-me radiante e por isso quando a Mariana
falou comigo no sentido de a festa ser cá em casa não hesitei e ainda afirmei
que a ajudava a preparar tudo, por isso nestes últimos dias convivi mais do que
algumas horas com a Mariana, o que contribuiu para perceber algumas mudanças no
entanto nunca comentei por receio que pensasse que estava a meter-me na sua
vida. Resolvi esperar que a confirmação chegasse por sua iniciativa algo que
aconteceu no momento que contaram ao Martim da sua gravidez, fiquei feliz,
afinal um bebé é algo que tanto o meu filho como a minha nora desejam.
A festa de aniversário
foi animada e divertida mas confesso que quando sentei-me junto dos adultos que
se encontravam na sala, o fiz por estar exausta. Conversa vai, conversa vem e
um momento delicioso chegou, a forma como a Mariana esclareceu as dúvidas sobre
como se fazem bebés à Kika e ao Martim deixou-me deliciada mas o inesperado
aconteceu quando ouvimos a Mariana a revelar o motivo pelo qual lidou tão bem
com as dúvidas dos pequenos, percebi desde o principio que falava do seu
passado mas nunca imaginei ouvir o que ouvi, ter consciência do quanto sofreu e
como conseguiu vencer, ultrapassando todas as dificuldades e muitas vezes
sozinha só contribuiu para entender ainda melhor o que levou o meu filho a
apaixonar-se pela Mariana mas principalmente o quanto teve de batalhar para
destruir as muralhas de protecção que a Mariana foi construindo durante anos.
Confesso que fiquei
surpreendida com o seu passado mas o que fez o meu coração de mãe mingar
completamente foi ouvir que afinal o pai da Mariana é alguém que conheço bem e
que nunca pensei ser capaz de um ato tão cruel como o de rejeitar uma filha, a
Mariana sofreu horrores e em grande parte por sua culpa mas mais uma vez a
rapariga demonstrou o coração enorme que tem quando não hesitou em ajudar a
irmã, salvando-lhe a vida.
A Mariana foi cruel na
escolha das palavras quando falou única e exclusivamente para o Paulo mas no
fundo entendi, afinal foi a forma que deve ter encontrado para descarregar toda
a dor e ressentimento que carregou durante anos. Mas se a revelação da Mariana
deixou-me preocupada com ela e com o bebé que carrega pois foi impossível não
perceber o quanto nervosa estava, o que o Ruben falou a seguir deixou-me
surpresa, o meu filho não poupou em nada o Paulo.
Assim que o Ruben saiu
para procurar a Mariana também a Filipa se despediu de nós, chamou a Kika e
saiu, atrás delas foi o Paulo visivelmente abatido, tanto que a menina lhe
perguntou o que tinha, lógico que o Paulo não respondeu com a verdade, afinal a
verdade é demasiado dolorosa.
-
Onde tá a mana e o pai?
– a voz do Martim despertou-me a mim, ao Mauro e à Madalena para a realidade
dado que nos mantínhamos em completo silêncio, olhamos uns para os outros à
procura da melhor resposta a dar ao menino, resposta essa que foi dada pelo
Ruben que entrou na sala
-
Estou aqui.
-
A mana?
-
Anda cá – o Ruben
puxou o Martim para o seu colo – a
Mariana está a dormir – conheço o meu filho e por isso sei que mentiu ao
menino.
-
Mas a mana não dorme a sesta
– o Ruben sorriu perante a dedução do menino
-
Pois mas sabes que o teu mano
– tocou com o seu dedo na ponta do nariz do Martim – tem muito sono e deixa a Mariana assim muito preguiçosa…
-
Isso quer dizer que agora a mana vai andar sempre a dormir?
-
Sempre não… mas vai andar mais cansada…
-
Oh pai o mano já tem nome?
– o meu filho gargalhou com a pergunta do menino o que fez-nos rir a todos
também.
-
Não.
-
Mas ele precisa de um nome!
-
Pois precisa mas nós ainda não pensamos nisso até porque não sabemos se é
menino ou menina.
-
E como é que se descobre isso? O bebé tá na barriga da mana não dá para ver – o Ruben voltou a sorrir
-
Dá… a Mariana quando vai à médica, vemos o bebé através de um ecrã parecido com
uma televisão – o
menino olhou-o com uma expressão cómica de quem não está a acreditar no que
ouve – e daqui a algumas semanas quando
for maior e se deixar nós vamos conseguir ver se é menino ou menina.
-
Não tou a perceber… como é que o meu mano aparece no ecrã – gargalhamos todos, o menino não
estava a perceber nada – onde vais? Eu
quero que expliques porque eu quero perceber – o Martim reclamou quando o
Ruben se levantou do sofá
-
Já volto! – o meu
filho respondeu e saiu da sala, regressando pouco tempo depois com o meu
portátil
-
O que tás a fazer?
-
Já percebes! – o
Ruben ligou o portátil e após uns minutos – vês isto aqui – apontou para o ecrã e o menino abanou a cabeça em
sinal afirmativo – então é assim que nós
vemos o teu mano.
-
Tu já viste o bebé?
– o Ruben sorriu
-
Já.
-
E porquê que eu ainda não vi?
– perguntou aborrecido o que levou o Ruben a sorrir
-
Amor porque a Mariana ainda só foi a uma consulta e já foi há umas semanas – o menino interrompeu-o
-
E porquê que eu não fui?
– o Ruben sorriu – Eu também quero ver o
bebé.
-
Lindo mesmo que tivesses ido connosco não conseguias ver o bebé porque ainda
era muito pequenino, além disso a primeira consulta serviu para termos a
certeza que a Mariana já tinha o bebé na barriga por isso é que não te contamos
logo.
-
E depois quando souberam porquê que não contaram logo?
-
Lindo porque quisemos contar hoje
– nós, os adultos, percebemos que o verdadeiro motivo foi a barreira das 12
semanas algo que o Ruben não iria dizer, afinal o Martim é só um menino e não
precisa de saber de certos detalhes – foi
assim como uma prenda especial – o menino riu e depois do Ruben colocar o
portátil na mesa de apoio que tenho no centro da sala o Martim sentou-se ao seu
colo num pedido nítido de mimos, algo que o Ruben deu sem qualquer esforço.
Como terá a Mariana
depois de um fim de tarde emocionante??
Olá :)
O capítulo foi publicado em consideração a quem sempre leu e acompanhou a história mas confesso que estou desanimada com o número reduzido de comentários ao capítulo anterior, muitas vezes é nos vossos comentários que encontro força para continuar a escrever e ultimamente tenho a sensação que não acompanham a história, algo que entristece-me no entanto darei um fim à história, não prometo é frequência a publicar porque irá depender da motivação que como já disse anda bem reduzida.
Desculpem o desabafo mas considero que quem sempre leu e que fica curiosa pelo rumo da história merece todo o meu respeito, bem como uma justificação para a demora em publicar... além da falta de tempo, há ainda uma enorme desmotivação que dificulta a escrita...
Fiquem bem!
Beijinhos