Ruben
Sei que devia ter feito as cenas de outra forma, a minha
família tinha o direito de saber desde o início que afinal hoje seria o nosso
casamento e não só o aniversário da Mariana mas daí a terem reagido daquela
forma foi abuso, no entanto acabaram por aceitar a nossa decisão e como já
esperamos ficaram para presenciarem a nossa felicidade.
Confesso que os minutos que fiquei no altar à espera da Mariana
foram um tormento, não por ter medo que desistisse mas sim porque estava
desejoso de vê-la, algo no meu intimo dizia que a Mariana estava para aprontar
alguma, algo que confirmei no momento que a vi diante de mim, afinal o vestido
não era nada do que falou, resumindo tinha diante de mim uma autêntica princesa
acompanhada por um aspirante a príncipe, o Martim vinha igualmente lindo e todo
senhor de si, o que deixou-me orgulhoso daquela “amostra de gente”.
Estava vidrado neles e só despertei quando ouvi o aviso do meu
cunhado para tratar bem da mana, aquilo foi motivo para ouvir algumas
gargalhadas por parte dos nossos convidados para logo de seguida a cerimónia
ter início, passei-a toda atento ao padre mas principalmente ao meu amor e o
que senti no momento dos votos foi único e indescritível, tê-la diante de mim
tão serena mas acima de tudo com certeza de que seremos eternamente felizes
deixou-me a levitar completamente.
Os minutos passaram e o fim da cerimónia chegou, seguiu-se o
momento de assinar os papéis e de mais algumas fotos dos dois ainda na capela,
para depois caminharmos direitos à “chuva de arroz”.
O momento que se seguiu foi o das felicitações, primeiro da
família e depois dos amigos, já estava de novo agarrado à Mariana quando senti
uma mão no meu ombro e ao virar-me deparei-me com o meu empresário, também ele
se aproximou para nos felicitar mas assim que falou senti todo o corpo da
Mariana a tremer.
- Amor estás bem? -
perguntei de imediato despertando ainda mais a curiosidade do Paulo.
- Sim... - murmurou.
- Tem a certeza? -
olhei para o Paulo e depois para o meu amor - É que está um pouco pálida...
- Tenho! - a Mariana
respondeu num tom de voz que não era de todo seu, chegou mesmo a ser bruta.
- Amor o Paulo tem
razão... - falei visivelmente preocupado afinal a Mariana estava bem e de
um momento para o outro ficou pálida e sem reação.
- Ruben - olhei para
o Paulo - ela que se sente um pouco...
deve ser da emoção - sorriu ligeiramente
- Anda... vamo-nos
sentar ali... - começamos a andar e o Paulo seguiu-nos no entanto acabei
por pedir que se afastasse ao perceber que a Mariana não estava confortável do
seu lado, o que sinceramente achei estranho ainda assim não perguntei,
deixei-me ficar do seu lado para uns minutos depois
- Vamos! - olhei-a
sem entender - Amor desculpa a minha
reação mas... - suspirou profundamente - já passou e nada nem ninguém nos vai estragar o dia - falou segura
de si.
- Mas porquê que ficaste
assim?
- Esquece... -
baixou o olhar
- Esqueço nada -
fi-la olhar para mim - amor ficaste
assim quando viste o Paulo... - quando mencionei o nome do meu empresário
os olhos dela reluziram e percebi que estava a fazer um enorme esforço para
segurar as lágrimas que se estavam a formar nos seus olhos.
- Anda... -
levantou-se e puxou-me pela mão - que
estou com fome! - a Mariana estava nitidamente a evitar o assunto algo que
percebi mas ainda assim deixei passar, caminhamos para junto dos nossos amigos
e assim que a Letícia se aproximou a Mariana abraçou-a.
- O que é que ela tem?
- o Nuno foi o primeiro a falar
- Não sei... não quis
falar e também não insisti... - respondi depois dela se ter afastado com a
Letícia
- Mas ela estava tão bem
e de repente fica assim? - teria respondido ao Mauro mas o Paulo
aproximou-se
- Desculpe a pergunta
mas por acaso já conhecia a Mariana? - ficaram todos a olharem para mim sem
entenderem a pergunta mas naquele momento passou-me algo pela cabeça que
poderia muito bem explicar a reação do meu amor…
- Não... mas porquê?
- Nada esqueça...
A conversa ficou por isso mesmo até porque fui chamado por um
dos fotógrafos, juntei-ma à Mariana para o momento de seca, tiramos fotografias
com todos os convidados enquanto uns petiscavam outros sorriam para mais tarde
recordarem o nosso dia.
- Mana posso ficar na
vossa mesa? - o Martim perguntou assim que percebeu que não ficaria do
nosso lado durante o almoço.
- Não - a Mariana
respondeu-lhe
- Porquê?
- Ficas na mesa do
Nuninho e da tua madrinha - tentei explicar que aquela mesa seria só nossa
mas o puto não deixou
- Mas eu quero ficar
aqui... oh mana deixa lá - pedinchou - eu
porto-me bem - sorrimos ao ouvi-lo ainda assim a Mariana não deixou que
ficasse na nossa mesa o que fez com que fosse ter com a madrinha aborrecido no
entanto sabíamos que aquilo passava depressa e não nos preocupamos.
Estávamos a começar a comer quando a malta começou numa de
“pedir” que nos beijássemos algo que acabamos por fazer mas no momento que nos
voltamos a sentar e depois de olhar para o Martim...
- Estamos lixados -
falei o que levou a Mariana a olhar-me sem entender - olha para a cara do Martim - sorri ao vê-lo com aquele ar de
“anjinho” - ou muito me engano ou acabou
de descobrir a forma de se vingar de nós por não o deixarmos ficar aqui na mesa
- a Mariana sorriu assim que percebeu o que quis dizer.
- Pelo menos já lhe
passou o burro - sorriu.
- Pois... mas vamos nós
sofrer - parece que estava a adivinhar pois assim que falei o Martim
começou a bater palmas para que nos beijássemos novamente algo que foi
recorrente em todo o almoço, o que ajudou a Mariana a abstrair-se da presença
do Paulo que a tinha incomodado, continuava intrigado e sem saber o motivo da
reação dela ainda assim não a questionei.
Mariana
No momento que vi quem menos esperava foi como se o chão
fugisse debaixo dos meus pés, acho mesmo que se não fosse o Ruben a agarrar-me
que tinha-me estatelado no chão uma vez que por momentos perdi mesmo a força
nas pernas.
O Ruben ainda tentou perceber o que se estava a passar mas não
consegui dizer nada, por muito que tentasse nada sairia, senti-me pequenina e
completamente desprotegida algo que deve ter percebido porque se limitou a
dar-me mimos ainda que discretos.
Depois de uns minutos consegui finalmente acalmar-me o que
permitiu fingir que nada se tinha passado e acabamos por nos juntar aos
convidados, depois das fotos seguiu-se o almoço para no fim iniciar o “passeio”
pelas mesas, conversamos e fomos brindados com algumas brincadeiras mas quando
percebi que a próxima mesa seria a do dito-cujo subtilmente dei meia volta e
afastei-me do Ruben, acabei mesmo por ir até ao jardim numa tentativa de afastar
os pensamentos tristes mas foi pior a emenda que o soneto ou não fosse ter
encontrado o Martim a brincar com a filha do traste.
Não aguentei e deixei cair as lágrimas que há muito segurava,
só o fiz por pensar que estava sozinha mas depressa senti os braços do Ruben a
envolverem-me a cintura e a puxar-me para ele, aquilo foi o suficiente para
desatar num pranto e ser “arrastada” por ele para longe dali.
Não sei o tempo que fiquei completamente aninhada nos seus
braços, só sei que despertei quando o ouvi.
- Mariana juro que não
sabia... desculpa...
- Como é que sabes?
- Porque te conheço
- suspirou - mas confesso que estava
longe de imaginar que era ele o teu pai...
- Ele não é meu pai!
Aliás ele não é nada além de uma pessoa sem carácter...
- Não digas isso -
olhei-o atónica - Mariana é verdade que
errou mas também não sabes o que o levou a tomar tal atitude...
- Só podes estar a
gozar! Ruben, fui abandonada mesmo antes de nascer...
- Então e depois? -
olhei-o com vontade de o esganar - Não
chegaste até aqui? Não venceste? Quem perdeu foi ele... não foste tu Mariana,
não duvido que tenhas sofrido mas também não consigo condená-lo sem saber as
razões que teve...
- Só podes estar a
gozar... abandonou-me não quis saber de mim e tu ainda o defendes?
- Não é uma questão de
defendê-lo mas a verdade é que te amo tal como és e querendo ou não a atitude
do Paulo moldou-te, tornou-te na pessoa que és, se para ti a família é tudo
talvez seja porque foste abandonada, porque sofreste em criança e continuas a
sofrer, se hoje estamos aqui foi porque demonstraste ter o coração que ele não
teve, apoiaste-me sem julgar, deste-me a mão quando precisei, sabes ver para
além da imagem e isso aprendeste sozinha, se ele não te tivesse abandonado hoje
em dia terias outro nível de vida mas talvez fosses outra Soraia por isso por
muito que queira não o consigo odiar porque isso seria o mesmo que odiar uma
parte de ti... Mariana aprendi a amar-te pela pessoa que és e não por seres
filha dele ou por frequentares o mesmo meio que frequento ou ainda por seres
filha de alguém com uma posição marcada no futebol... e depois já pensaste que
se ele não te tivesse abandonado muito provavelmente hoje não teríamos o
Martim?
Amor acredito que tudo
na vida tem uma razão de ser e se tiveste de passar por tudo isto talvez tenha
sido para que hoje tenhamos do nosso lado um menino de ouro, alguém por quem
daríamos a vida se fosse necessário, é verdade que carregas uma mágoa muito
grande mas o amor que o Martim te dá todos os dias de forma gratuita compensa
todo o sofrimento que uma decisão do Paulo possa ter causado, Mariana o passado
ninguém pode mudar mas o presente e o futuro podemos...
- Estás a sugerir que
esqueça tudo?
- Não... estou a sugerir
que ignores a presença do Paulo tal como ele fez no passado, que aproveites o
dia hoje porque este nunca mais se irá repetir e que amanhã pares, reflitas e
logo decides se queres perceber as razões que o levaram a abandonar-te ou se
simplesmente vais agir como fizeste até à data...
- Como queres que finja
que não aconteceu nada... tu conhece-lo e pelos vistos muito bem para o teres
convidado!
- Mariana - respirou
profundamente - ele é o meu empresário
- olhei-o atónica - mas empresários há
muitos... - não o deixei continuar
- Mas com o renome deste
não - olhou-me - Ruben nem penses...
amor não é por não o poder ver à frente que vais deixar de ser agenciado por
ele - sorriu - que foi?
- És única sabias? -
não me deixou responder pois uniu as nossas bocas - Por muito que estejas a sofrer não consegues mesmo por o teu bem à
frente do dos outros.
- Ruben...
- Shiu - beijou-me -
vamos deixar esta discussão para depois
que agora quero aproveitar o nosso dia - voltou a unir as nossas bocas
agora num beijo demorado e carregado de amor.
Ficamos a namorar durante um bocado mas acabamos por regressar
para junto dos convidados.
- Puto - o Mauro
aproximou-se - chegou o momento -
olhei para o meu cunhado algo desconfiada - sim Marianinha está na hora de levares os pés massacrados -
gargalhou - vá... vão lá dançar!
- Deves! - atirei de
rajada - Só se for em sonhos!
- Mau... noiva que é
noiva dança!
- Mas ainda não
percebeste que não sou que nem as outras?? Opa não te doa a ti os pés que a mim
também não - o Ruben gargalhou
- Juro que não vos
entendo... primeiro organizam o casamento em segredo e agora também não dançam?
- Quem não te entende
sou eu... casei com o teu irmão não foi contigo logo não te tenho de aturar...
vai atazanar o juízo da Paula e deixa-me a mim e ao teu irmão fora dessa!
- Tão espirituosa que a
minha cunhadinha está...
- Mano a sério
desampara-nos a loja!
- Juro que não vos
entendo... qual foi mesmo o motivo disto tudo?
- Ai ainda não
percebeste? - o Ruben olhou-me e talvez por ter percebido que já estava-me
a passar abraçou-me - Então eu explico-te...
nós fizemos as cenas desta forma por causa disto que nos estás a fazer agora...
mete-te na tua vida e deixa-nos aos dois sossegados, boa? Será que ainda não
percebeste que o casamento para mim é muito mais do que este carnaval que as
pessoas montam com a desculpa de comemorarem? Se fosse pela festa tinha optado
por festejar só os meus anos e como vês nem bolo tenho... Sim sei que não
compreendem e sinceramente não estou à espera que o façam mas enquanto a
maioria dos presentes sempre teve motivos para festejar aniversário após
aniversário eu não... talvez por ter um pai que preferiu fingir que a minha mãe
não estava grávida e desapareceu muito antes de ter nascido ou de ter uma mãe
que me abandonou quando era ainda uma criança... - não sei o que me deu
para falar sobre isso mas quando reparei já tinha saído, o Mauro tal como os
restantes que estavam por perto ficou sem reação mas quem despertou a minha
atenção foi aquele a quem deveria chamar de pai, ele estava a olhar-me talvez
por saber o que fez no passado no entanto ignorei-o - e agora se não te importas deixa-nos viver este dia da nossa forma que
pode não ser a tradicional mas é a aquela que revela quem nós somos, aquela que
foi desde início a forma como vivemos o nosso amor, amo o teu irmão pelo que
ele é e não para ter os olhos de não sei quantas pessoas em cima de mim, mesmo
que essas pessoas sejam a família dele e os nossos amigos mais próximos, a
verdade é que não fui feita para grandes festividades e se hoje estou aqui
assim vestida diante de vocês é por ele, por o amar e por saber o quanto queria
casar, sim que por mim tinha ficado unicamente pela cerimónia religiosa já que
o Ruben fazia muita questão mas se cedi em comemorar convosco foi porque
percebi que para ele isto tinha significado no entanto o Ruben também percebeu
que iria estar a torturar-me se insistisse numa mega festa, ele conhece-me e
sabe que acabaria por ceder se insistisse porque é isso que faço pelos que amo,
se tiver que me magoar para os ver bem não hesito, estou habituada a ser
deixada para trás... com isto tudo quero que entendas que se nos casamos desta
forma foi porque o Ruben quis fazer deste dia algo inesquecível para os dois,
preferiu abdicar da exuberância e ter-me verdadeiramente feliz do que ter do
seu lado alguém que de cada vez que sorrisse estaria a ser falsa - calei-me
e assim que o fiz o Ruben envolveu-me nos seus braços dando-me assim uma
sensação de segurança total.
- Desculpa - olhei
para o Mauro - nunca pensei que te
custasse tanto festejares o vosso casamento...
Ruben
Depois de ter a confirmação que as minhas suspeitas estavam
certas e que o meu empresário é mesmo o pai da Mariana ainda a ouvi dizer que
não quer que troque para outro, ela é simplesmente única e apesar de tentar a
todo o custo que a presença dele não interferisse na comemoração deste dia sei
que não estava a conseguir esquecer-se e prova disso foi a forma como reagiu
quando o meu irmão veio implicar connosco por ainda não termos dançado a
suposta valsa, o Mauro ouviu o que não esperava mas não satisfeito voltou a
atiçar a dor da Mariana e desta quem não se calou fui eu.
- Chega Mauro! Mano respeita a nossa decisão até porque
tenho tudo o que sempre desejei, amo e sou amado sem falsidade, hipocrisia e
mesmo cinismo, a Mariana é como é e não faço intenções de mudá-la porque se
fizesse tudo deixaria de fazer sentido, foi esta Mariana que abriu-me os olhos,
que me ensinou o que é amar verdadeiramente, o que é ficar feliz só por ver o
sorriso no rosto dos que amamos, o que é lutar pelo que queremos
verdadeiramente, o que é abdicar de nós para que o outro se sinta confortável,
foi ela que me tornou homem, que me ensinou o que é educar uma criança mas
principalmente foi ela que demonstrou-me que sou capaz de vencer todos os
obstáculos, que posso cair porque vou ter alguém que irá esticar a mão e
ajudar-me a levantar por isso peço-te que pares de julgar a forma como
decidimos festejar este dia, porque acredita isto é o espelho do que é a minha
vida desde que a conheci, simplicidade mas uma simplicidade que trás alegria e
felicidade! - o meu irmão provavelmente teria respondido mas o Martim
impediu isso quando
- Pai, pai - ele
vinha a correr na minha direção e a chamar-me.
- O que foi? -
perguntei ao vê-lo tão aflito.
- Preciso de ti!
- Diz.
- Não pode ser aqui
- sorri algo na forma como falou alertou-me que viria animação - anda comigo - puxou-me pela mão até um
canto mais reservado.
- Então já podes dizer o
que se passou.
- Pois... ah... - o
puto estava envergonhado, arrisco mesmo a dizer que nunca o tinha visto assim
- Amor podes falar...
- Pois mas...
- Mas??
- Tenho vergonha -
sorri ao ouvi-lo
- Diz lá o que se
passou!
- Oh pai é que... -
olhei-o de forma a encoraja-lo - foi
a...
- Sim... foi a...
- Olha foi a Carolina...
ela… olha ela deu-me um beijinho - foi impossível não gargalhar perante a
cara de enjoo do meu pequeno - não tem
piada! Pai eu fugi e agora o que ela vai pensar de mim - por muito que não
quisesse rir fui obrigado a fazê-lo de novo no momento que o vi a esconder-se
atrás de mim assim que a viu a entrar - eu…
eu nunca dei beijinhos a ninguém e não sei o que fazer agora.
- Então agora a primeira
coisa que vais fazer e deixar de te esconder e depois olha depois finge que não
se passou nada - sei que não é um conselho nada adulto mas sinceramente não
esperava que o problema do Martim fosse desta natureza e muito menos sei o que
devo responder nestas situações.
- Ó pai não tás a
ajudar...
- Ó filho o que é que
queres que te diga?
- Que vás dizer a ela
que não quero beijinhos - fez uma cara de enjoado - pai não gostei nada disso... ela é maluca - voltei a gargalhar - tu tás a gozar comigo - ainda tentei
explicar que não estava no gozo mas o menino não me deu tempo e correu até à
irmã, acabei por segui-lo e assim que cheguei junto deles - preciso de ti que o pai não percebe nada
disto - sei que não devia mas foi impossível não rir afinal o puto foi
pedir conselhos logo à irmã que até há uns meses pouco percebia do assunto.
- Posso saber o que se
passa? - perguntou ao alternar o olhar sobre nós os dois
- Podes mas não é para
gozares comigo como o Ruben fez! - o meu amor olhou-me simplesmente encolhi
os ombros e murmurei um “prepara-te” - oh
mana tás a ver aquela menina ali - falou ao olhar na direção da pequena - ela deu-me um beijinho mas eu fugi, oh mana
não gostei nada - a Mariana não riu mas vontade não lhe faltava - e agora não sei o que fazer - o meu
amor respirou profundamente antes de falar ou caso contrário teria gargalhado.
- Amor é normal que não
tenhas gostado... estas coisas não são para a tua idade mas também não precisas
fugir da menina - gargalhei ao ouvi-la - o que é que foi? - perguntou-me ao olhar-me de lado.
- Gostei do conselho...
para quem andou a fugir de mim tanto tempo... - não consegui continuar a
falar que a Mariana deu-me um ligeiro beliscão - mas ainda agora casamos e já estou a sofrer de maus tratos, é? -
impliquei com ela mas a Mariana ignorou-me e concentrou-se no irmão.
- Oh mana ela vem aí
- sorrimos os dois - o que é que eu
faço?
- Então dizes que não
gostaste e que não queres que ela repita!
- Mas ela assim vai
pensar que sou um menino - com esta a Mariana não se aguentou e gargalhou -
também tu?
- Desculpa mas a verdade
é que ainda são os dois pequeninos para andarem aos beijinhos mas também não
podes fugir da menina só porque te deu um beijinho, tens de lhe dizer que não
queres que volte a acontecer e olha se ela não gostar paciência...
- Mas ela depois goza
comigo
- Amor se ela fizer isso
falas connosco pode ser? - o Martim olhou-me algo desconfiado - Lindo se for preciso falo com ela e explico
que não pode andar aos beijinhos aos meninos - a Mariana sorriu - mas agora vai lá brincar, sim?
- Tá bem! - o Martim
assim que respondeu foi a correr ter com os outros meninos.
- Posso saber porquê que
estás a rir?
- Amor pagava para te
ver a falar com a miúda - gargalhou de forma prazerosa - oh se pagava - voltou a gargalhar - tu nem com o Martim consegues falar quanto
mais com uma miúda...
- É fala aquela que diz
ao irmão que não pode fugir quando na verdade fez o mesmo - deitei-lhe a língua
de fora que nem puto
- É... vê lá se não
começo a fugir novamente!
- Nem penses!!
- Então não me tentes! E
agora vou comer qualquer coisa que estou com fome!
A Mariana afastou-se e quem se aproveitou disso foi a minha
mãe.
- Filho dá para
falarmos?
- Sim, diga!
- A mãe está feliz desde
que estejas bem mas não consigo entender o motivo que te levou a esconderes-nos
o dia do vosso casamento, gostava tanto de ter participado na preparação nem
que fosse só nos pequenos detalhes.
- Oh mãe…
- Oh mãe nada! Ruben
desde que vieste para Braga que te tens afastado cada vez mais de nós -
olhei-a com admiração talvez por não esperar ouvir tal coisa vinda da minha mãe
- e agora fazes uma destas? Sinceramente
não te passou pela cabeça que nós como teus pais gostávamos de partilhar
contigo todos os momentos que antecederam ao que se passou hoje?
- Mãe ao contrário do
que julga percebo-a perfeitamente mas se não partilhei convosco esses momentos
foi porque amo a Mariana e por ter consciência que por mais que lhe pedisse
para se conter nos comentários e opiniões sobre o casamento não iria conseguir
calar-se, mãe a Mariana é especial, não é como a maioria das raparigas que
idealizam um casamento de sonho, para o meu amor bastava a nossa presença, a do
Martim e do padre para casarmos, ela detesta tudo isto que nos rodeia neste
momento, a Mariana tem pavor a ser o centro da “polémica”.
- Por muito que tente
entendê-la não consigo! Tudo bem a rapariga pode ter sofrido bastante no
passado mas daí a obrigar-te a mudar radicalmente.
- Está enganada… não
mudei por obrigação, mudei por amor, segui o meu coração não foi isso que você
nos ensinou? Que devemos ser justos com os outros e seguir sempre o que o nosso
coração diz? Pois bem… é isso que estou a fazer… mãe se decidi desta forma foi
porque quis ser justo com a Mariana, caramba não pode ser sempre ela a ceder,
oh mãe você não tem a mínima ideia mas desde que nos conhecemos a Mariana já
abdicou de tanta coisa - suspirei - começou
logo ao início quando deixou que me aproximasse do Martim, ou quando me viu mal
e colocou de lado os fantasmas do passado para apoiar-me, ou quando sem ter
obrigação tomou conta de mim quando fui parar ao hospital com o traumatismo ou
ainda quando finalmente consegui admitir que a amo e a obriguei a contrariar o
irmão porque o puto simplesmente tinha medo que a pudesse afastar dele, ou
então quando se entregou a mim como nunca se tinha entregue a ninguém, ou
quando voltou a abdicar do seu sonho de se licenciar para realizar um desejo
meu que é o de ser pai biológico ou ainda hoje quando descobriu que o pai dela,
pessoa que não pode ver nem pintado de ouro, é o meu empresário a vi vacilar no
instante que coloquei a hipótese de mudar de representante por isso mãe não
condene a minha decisão quando ao pé de tudo o que a Mariana já teve que
aceitar não é nada.
- Parece que vou ter que
aceitar mais uma… - no momento que a ouvi fechei os olhos talvez por
perceber no mesmo instante que se estava a referir ao facto de falar do seu pai
com a minha mãe.
E agora será que a Mariana aceita numa boa o descuido do Ruben ou irá
este casamento começar “azedo”?


