Ruben
Nas duas últimas semanas mal tenho falado com a Mariana
preferi afastar-me um pouco para tentar organizar a confusão de sentimentos que
ia dentro de mim e ao fim de quinze dias a certeza que ela já é demasiado importante
para mim deixou de ser uma incerteza para passar a ser certeza mas agora a luta
interior é outra, não sei o que fazer em relação ao sentimento que tenho por
ela, por um lado quero partilhar com a Mariana mas por outro sei que ela se irá
afastar e por isso mesmo tenho preferido continuar afastado.
O jogo ontem correu-me mal a todos os níveis e quando acabou
só queria chegar a casa e dormir até ao dia seguinte mas isso não aconteceu
primeiro porque fui jantar com a minha família que teimaram em saber o que
andava a acontecer comigo mas que fugi a todas as questões e depois porque
quando cheguei finalmente à cama a Mariana e as saudades que já tenho de ver o
ser sorriso não deixaram que dormisse quase nada.
Acabei por levantar-me e depois de comer fiquei estatelado
no sofá a ver televisão, foi quando o estava a fazer que ouvi a campainha e
apesar de não ter vontade nenhuma levantei-me para ver quem seria e foi quando
olhei pelo intercomunicador que nem queria acreditar, era a minha Mariana que
estava à espera que lhe abrisse a porta, não hesitei um segundo que fosse e
abri a porta do prédio bem como a do meu apartamento, fiquei encostado à
ombreira à sua espera e uns minutos depois vi a porta do elevador a abrir para
finalmente a ver diante de mim.
Não consegui reagir e por isso foi dela a iniciativa de se
aproximar, a Mariana deu-me um beijo repenicado no rosto para logo depois ouvir
a sua voz.
- Então desaparecido
- sorri-lhe - será que dá para
conversarmos sem que fujas? - suspirei, ela não estava mesmo disposta a
sair dali sem respostas.
- Entra - dei-lhe
passagem e assim que ela passou por mim o seu perfume entranhou-se nas minhas
narinas - como é que descobriste a minha
morada?
- Nós nem temos
amigos em comum nem nada - gargalhei
- Queres alguma coisa
para beber ou comer?
- Não, só quero que
te sentes aqui do meu lado - olhei-a - Ruben
o que é que se passa? - perguntou-me quando já estava sentado do seu lado.
- Nada.
- Nada? Queres que
acredite nisso?
- É verdade.
- Não, não é e sabes
disso melhor do que eu - olhou-me - só
gostava de saber porquê que te afastaste de mim.
- Não afastei-me de
ninguém simplesmente tenho andado ocupado - tentei fugir à questão mas ela
não facilitou.
- Ruben além de
cobarde também és mentiroso, é? Não sei o que se passou só sei que desde que
recusei o maldito convite para jantar contigo que afastaste-te e desde dessa
altura que ando a levar constantemente com as perguntas do Nuno e da Patrícia
porque eles acham que sou responsável por andares distante e distraído -
interrompi-a.
- Não tens culpa de
nada - suspirei - o problema sou eu.
- Queres ser mais
explícito?
- Não.
- Ok, então fica aí a
remoer nos problemas sozinho - ela levantou-se mas agarrei-a pela mão.
- Onde vais?
- Embora porque não
estou aqui a fazer nada.
- Espera - ela
olhou-me - desculpa.
- Ruben não quero um
pedido de desculpas, só quero saber o que se passa e se posso ajudar nalguma
coisa.
- Mariana, prefiro
não falar e quanto a ajudares não há nada que possas fazer.
- Tens a certeza?
- ela perguntou-me a olhar directamente nos meus olhos ao mesmo tempo que
agarrou-me na mão e não sei porquê mas instintivamente afastei-me o que a
deixou triste - ainda falas que não se
passa nada? - ela levantou-se e foi até à janela - Podes dizer a verdade porque não é nada que não esteja à espera, sempre
fui descartável para as pessoas e contigo não há-de ser diferente - doeu
ouvi-la a dizer tal coisa quando a vontade que tinha era dizer-lhe o quanto
gosto dela.
- Mariana -
aproximei-me dela e ao tocá-la no ombro ela fugiu.
- Esquece não preciso
que tenhas pena de mim, já percebi que perdi o meu tempo a vir aqui mas
principalmente a deixar que entrasses de alguma forma na minha vida.
- Não digas isso
- pedi a olhá-la nos olhos - se soubesses
o quanto estás a ser injusta não dirias tal coisa.
- Injusta?
- Sim injusta -
aproximei-me ainda mais - Mariana não
quero afastar-me de ti mas precisei de uns dias para reorganizar a confusão de
sentimentos que ia dentro de mim - ela olhava-me e quanto mais minutos
passava ali diante dela mais a vontade de beijá-la consumia-me - ter terminado com o noivado deixou-me um
bocado à deriva - desculpei-me com o fim do relacionamento com a Soraia - desculpa se te magoei por ter andado mais
distante mas precisei mesmo destes dias, é verdade que podia ter-te dado uma
justificação mas não consegui, não sou prefeito também cometo erros e um deles
foi afastar-me de ti quando não é disso que estava a precisar - fiz-lhe uma
carícia no seu rosto - Mariana -
suspirei - o problema é que - não
consegui concluir fui interrompido pelo barulho irritante da campainha.
- É melhor ires ver
quem é - ela afastou-se, por isso fui até à porta e ao ver quem era ainda pensei
não abrir mas de nada adiantaria, a Soraia não iria desistir por isso abri a
porta do prédio e depois fui avisar a Mariana.
- É a Soraia -
falei ao entrar na sala.
- Vou embora -
falou ao pegar na mala.
- Espera não vás
- pedi-lhe - fica por favor.
- Ruben não estou com
disposição para aturar a Soraia.
- Se não quiseres
ficar na sala podes ir até ao meu quarto, espera lá que quando ela sair vou
chamar-te.
- Ok - sorri ao
ouvi-la a ceder - mas depois quero que
expliques muito bem o que se anda a passar.
- Tudo bem.
Ela acabou por ir até ao meu quarto enquanto fui abrir a
porta à Soraia.
- Bom dia.
- Olá, posso entrar?
- pediu-me.
- Precisas de alguma
coisa? - perguntei ainda com ela à porta.
- Sim se não te
importares gostava de levar as minhas coisas e queria falar contigo.
- Tudo bem, entra
- dei-lhe passagem afinal tínhamos mesmo que ter uma última conversa.
- Posso ir até ao
quarto buscar as minhas roupas?
- Não - ela
olhou-me - porque já está tudo dentro de
um saco por isso vou buscar.
- Isso é que foi
pressa para te veres livre das minhas roupas.
- Soraia, nós
terminamos de vez, se tu própria emitiste um comunicado a avisar a imprensa que
não iria haver mais casamento dado que nos separamos não vejo motivo para que
as tuas coisas continuassem espalhadas pela minha casa e se queres saber nem
fui eu que arrumei mas sim a minha mãe, pedi-lhe que o fizesse para que quando
chegasse não ter que levar com recordações nossas.
- Estás assim tão
arrependido do tempo que passaste ao meu lado?
- Não estou
arrependido.
- Não é isso que
parece.
- Soraia, amei-te e
pensei mesmo que fosse para a vida mas isso não aconteceu, continuo a gostar
imenso de ti mas já não é amor e quanto a isso não posso fazer nada, nós não
escolhemos quem amamos.
- Dói ouvir isso -
ela estava com as lágrimas nos olhos e pela primeira vez tive a noção que
estava a sofrer com o fim do nosso namoro - mas dói ainda mais saber a forma como terminou - olhei-a - trocaste-me por outra ainda por cima por
alguém que nem é do nosso classe social - interrompi-a.
- Podes parar por aí,
não te troquei por ninguém, estou sozinho e é assim que quero continuar.
- Estás a dizer que a
empregada se está a fazer de difícil, é?
- Soraia, não metas a
Mariana no meio da nossa conversa porque a rapariga não tem nada com o assunto.
- Até quando é que
vais continuar a negar o óbvio? Ruben, conheço-te muito bem para perceber que
estás apanhadinho por ela, a forma como olhas, como os teus olhos brilham
quando se fala no nome dela não deixa margem para dúvidas, o brilho que tens no
olhar quando estás perto dela é o mesmo que em tempo tinhas quando estavas
comigo, não negues aquilo que não tem negação possível - suspirei - admite de uma vez aquilo que sentes.
- Não dá - ela
olhou-me - porque não sei aquilo que
sinto, não amo a Mariana mas também não posso dizer que é indiferente quando
não é, sinto-me bem do seu lado mas ainda assim não é amor e muito menos temos
alguma coisa, sempre te respeitei.
- Sempre
respeitaste-me - falou ironicamente - principalmente
quando trocaste os nossos nomes, Ruben não sejas ridículo e admite o que se
anda a passar.
- Queres que diga que
gosto dela, sim gosto, se queres saber dava tudo o que tenho e o que não tenho
para que a Mariana sentisse o mesmo em relação a mim mas infelizmente ela só me
vê como um amigo e agora que já sabes a verdade deixa-me ir buscar o saco que
tem as tuas coisas.
Não lhe dei tempo para dizer nada, saí da sala e fui buscar
o saco, quando regressei encontrei-a sentada, entreguei-lhe o saco e pedi que
saísse, algo que acabou por fazer mas antes teve que avisar-me que isto não
ficaria assim, que ainda iria arrepender-me por tudo o que lhe fiz. Fiquei
triste apesar de tudo não queria que as coisas terminassem assim mas a verdade
é que não escolhi quando apaixonei-me pela Mariana, simplesmente aconteceu sem
que desse por isso e agora não há volta a dar.
Estava na varanda quando pressenti alguém a chegar e por
saber quem seria um sorriso surgiu no meu rosto e ficou ainda maior quando a
ouvi falar.
- Ó jeitoso -
virei-me e ficamos novamente frente a frente e demasiado próximos – estás bem? - perguntou-me visivelmente
preocupada.
- Mais ou menos -
suspirei - dói perceber que a magoei
mesmo sem ter essa intenção.
- Ruben, há coisas na
vida que são inevitáveis e uma delas é o amor, não escolhemos por quem é que
nos vamos apaixonar, hoje estás com uma pessoa amanhã podes estar com outra,
são coisas que acontecem principalmente quando a relação que mantemos com
alguém não está a atravessar uma boa fase.
- Tens razão mas
podia ter sido logo honesto com ela.
- Ruben não penses
mais nisso por muito que queiras já não podes alterar o passado logo segue em
frente, sei que dói quando reconhecemos que magoamos alguém mas não nos adianta
de nada ficar presos a essa dor, se deixaste de amá-la e encontraste o amor ao
lado de outra então aproveita a oportunidade para seres feliz e não cometas os
mesmo erros.
- O problema é que a
pessoa de quem estou a gostar não sente o mesmo por mim - olhei-a nos olhos
enquanto falei queria ver a sua reacção mas como já estava à espera a Mariana
não entendeu o que queria dizer.
- Tal como não
escolhemos por quem nos vamos apaixonar também não podemos obrigar essa pessoa
a sentir o mesmo.
- Isso não serve de
grande consolo.
- Ruben o tempo é o
nosso melhor amigo.
- O que queres dizer
com isso?
- Que nunca sabemos o
que esperar, que talvez com o tempo essa rapariga por quem te apaixonaste possa
vir a sentir o mesmo por ti, nós nunca sabemos o dia de amanhã mas se há algo
que já aprendi é que o amanhã traz-nos sempre surpresas umas vezes boas outras
nem tanto mas que não há nada certo na vida lá isso não há.
- Estás a querer
dizer que devo ter esperanças?
- Estou a dizer que
deves parar e tentar perceber se vale mesmo a pena esperares por essa rapariga.
- E se não quiser
esperar - aproximei-me ainda mais dela colocando a mão no seu rosto - e se quiser que ela responda à pergunta se
vale mesmo a pena esperar?
- Então pergunta-lhe -
ela afastou-se.
- Não tenho coragem
- admiti ao baixar o olhar.
- Não tens coragem ou
tens medo da resposta?
- As duas.
- Ruben - ela
aproximou-se e levou a mão à minha cara obrigando-me a olhá-la - não sou parva.
- O que queres dizer
com isso?
- Que cada vez tenho
mais certeza que sei de quem é que estamos a falar - disse-me olhos nos
olhos - Ruben até aqui andei a evitar
esta conversa porque quis acreditar que não era mais do que macaquinhos da
minha cabeça mas sinceramente já estou a dar em doida com esta dúvida, isto
pode parecer estranho mas pela primeira vez não estou a conseguir ser racional
e muito menos consigo distinguir se sou eu que estou a ver coisas onde não
existem ou se pelo contrário ando é a negar o óbvio. Ruben desde que nos
afastamos mas principalmente nestes últimos dias existe uma série de
acontecimentos que andam a tirar-me o sono, por isso desculpa mas vais ter que
responder-me se sou ou não a responsável pelo fim do teu namoro.
- Não - percebi
que não tinha ficado convencida da resposta e talvez por isso voltou a
insistir.
- Tens a certeza?
Ruben, não quero parecer egocêntrica mas há uma data de situações e conversas
que não saem da minha cabeça, pior ainda que estão a deixar-me cada vez mais
confusa e se há coisa que detesto são assuntos mal resolvidos porque acabam
sempre por vir ao de cima - ela não estava convencida e o facto de estar a
olhar-me enquanto falava não estava a ajudar.
- Que conversas e
situações são essas que te levam a pensar que és a responsável pelo fim do meu
noivado e namoro?
- Ruben começando
pelas bocas e suposições do Nuno e da Patrícia, passando pela conversa que a
tua mãe teve comigo no dia seguinte ao que vocês acabaram e terminando com as
nossas últimas conversas em que tenho ficado com a sensação que andas a fugir
de mim e a falar por meias palavras - pela primeira vez desviei o olhar o
que fez com que falasse novamente - vês
é disso que falo, são essas atitudes que levam-me a pensar que ou estou louca
ou então demasiado perto da verdade.
- Mariana a última
coisa que quero é magoar-te - ela interrompeu-me.
- O que pode
magoar-me é a mentira - olhou-me - consigo
lidar com tudo menos com pessoas falsas.
- Estás a dizer que
não acreditas em mim?
- Não tenho razões
para não acreditar mas ficas avisado que dificilmente perdoo quem não é honesto
comigo, detesto que não digam a verdade e que depois dão aquela desculpa
esfarrapada de que é para proteger-me - interrompi-a.
- Queres à força que
admita que estás certa, que por algum motivo foste a responsável pelo fim do
meu namoro, é?
- Não - olhou-me
- só quero a verdade independentemente
de qual seja.
- É a verdade que
queres?
- Sim.
- Então responde-me o
que sentes por mim - olhou-me - e já
agora como é que reagirias se te confirmasse que tens razão mas que não sentes
o mesmo por mim.
- Ruben o que sinto
por ti é amizade unicamente isso - disse segura de si - quanto ao resto não posso responder-te pois
não passa de uma suposição e a minha forma de lidar com essa realidade iria
depender e muito da forma como lidarias tu com o facto de não seres
correspondido, se conseguisses separar as coisas podes ter a certeza que
continuarias a ter-me do teu lado caso contrário terias sempre a minha amizade
mas não duvides que iria afastar-me, a última coisa que iria querer era dar-te
esperanças, infelizmente sei bem o que é viver na ilusão e isso não é algo que
desejo a ninguém muito menos a um amigo.
- Então ainda bem que
estás enganada - estava a custar mentir-lhe mas ou era isso ou vê-la a
afastar-se de mim porque os meus sentimentos não são correspondidos - Mariana não foste a responsável pelo fim do
meu namoro, a minha relação com a Soraia acabou porque deixei de ama-la e não
porque esteja a gostar de ti. Linda, esquece a conversa que tiveste com a minha
mãe e quanto às bocas dos nossos amigos não ligues, eles podem pensar aquilo
que quiserem mas não é por isso que vai virar realidade.
- Então porquê que
andaste a evitar-me? - ela não estava convencida o que fez com que
vacilasse por momentos ainda assim continuei a negar o óbvio.
- Não te evitei
simplesmente precisei de uns dias para reflectir no que fiz de errado, no
porquê que depois de quatro anos a relação terminou da forma que foi.
- Ok - ela sorriu
- mas para a próxima não fiques tanto
tempo sem dar notícias, todos precisamos do nosso espaço mas não custa muito
dizer isso aos nossos amigos, se tivesses falado que precisavas deste espaço
tinha respeitado o pedido e terias evitado esta conversa embaraçosa.
- Desculpa, não fiz
por mal.
- Esquece -
voltou a sorrir - já passou, nada como
uma conversa franca e agora tenho que ir - ela aproximou-se e deu-me um
beijinho no rosto seguido de um abraço.
- Não queres ficar
mais um bocado - ela olhou-me - podíamos
almoçar juntos.
- Hum a proposta
agrada-me mas tenho o meu puto à espera.
- É verdade com isto
tudo nem perguntei por ele.
- O Martim está
sempre bem e ontem teve com os amigos dele por isso não deve ser difícil
adivinhar que está radiante.
- Onde é que o deixaste?
- Na casa da Letícia
que é a madrinha dele.
- Ah ok - ela
sorriu - e não queres ir buscá-lo?
- Como assim?
- Oh vou de férias
por isso podíamos almoçar os três em género de despedida.
- Lamento mas não vai
dar.
- Porquê?
- Porque já tinha
combinado de almoçar com a Letícia.
- Então ela que venha
também - a Mariana olhou-me - podíamos
ir buscá-los e almoçávamos num lado qualquer.
- Não sei se é boa
ideia.
- Tens receio de ser
vista comigo, não é?
- Ruben, estamos em
Lisboa o melhor é não arriscarmos.
- Juro que não
entendo essa tua paranóia, quando namorava ainda tinha um motivo mas agora
- ela interrompeu-me.
- Agora o motivo
continua a ser o mesmo porque nunca foi a Soraia - olhei-a admirado - Ruben, o problema não era namorares mas sim
seres conhecido e mesmo sem quereres isso pode trazer-me consequências que não
quero.
- Como assim?
- Ruben, saí de
Lisboa porque a minha mãe andava a querer ver o Martim, digamos que fugi para
parte incerta na esperança de ver-me livre dela como tal ser vista contigo a
passear em Lisboa ainda para mais com as revistas a especularem a razão pela
qual já não vais casar não é de todo algo benéfico, desculpa não tens culpa mas
neste momento só quero proteger o meu irmão.
- Tudo bem compreendo
isso mas não podes andar a vida inteira a fugir da vossa mãe.
- Ruben não ando a
fugir mas se puder evitar, evito.
- O que é que não
estás a contar? - ela olhou-me.
- Lembraste do dia
que encontraste-me a chorar e que até foste falar disso com o Nuno?
- Sim isso foi logo
nos primeiros dias que nos conhecemos mas o que tem?
- Encontraste-me a
chorar e andei os dias seguintes mais em baixo porque ligaram-me a avisar que a
minha mãe andava a querer saber para onde tínhamos ido, que queria a todo o
custo ver o Martim e como ninguém lhe disse, ela ameaçou que iria tentar
através da justiça ter permissão para ver o Martim, ninguém lhe deu
credibilidade até porque não era a primeira vez que ameaçava mas ao contrário
das outras que não fez nada para conseguir isso desta fez, ela internou-se numa
clínica para fazer nova desintoxicação - a Mariana já estava com as
lágrimas nos olhos e sem pensar duas vezes abracei-a - tenho medo do que possa vir a acontecer se ela não desiste desta ideia.
- Mariana, ela até
pode ficar limpa das drogas e até pode levar o caso para a justiça mas nunca na
vida um juiz irá tirar-te o Martim para entregar a ela.
- Não sei, tenho
medo.
- Shiu -
limpei-lhe as lágrimas - isso não vai
acontecer e mesmo que ela tente não irás estar sozinha para além dos teus
amigos que te acompanharam desde o início agora tens-me a mim, ao Nuno e à
Patrícia, se quiseres até posso falar com o meu advogado ele deve conhecer
alguém que te pode ajudar se for necessário, mas agora não quero que penses
mais nisso - fi-la olhar para mim - vamos
buscar o Martim e a madrinha dele para almoçarmos e não aceito um não como
resposta, tens que te distrair até porque não queres que o Martim perceba que
se passa algo, não é?
- Sim - ela
sorriu ligeiramente - mas mesmo assim
preferia não andar a desfilar contigo para Lisboa inteira ver - gargalhei.
- Deixa de ser
exagerada mas se queres passar despercebida podes sempre ligar à madrinha do
Martim e dá-lhe a morada daqui.
- Como assim?
- Então se
concordares em fazeres o almoço para o esfomeado podemos almoçar aqui.
- Para isso vamos até
à casa da Letícia e almoçamos por lá - sorri-lhe - que foi?
- É impressão minha
ou não queres trazer a tua amiga aqui a casa?
- Não é bem não
querer mas prefiro que sejamos nós a ir ter com eles.
- Ok, avisa lá que
vais levar uma visita contigo enquanto vou mudar de roupa - dei-lhe um
beijo no rosto para depois deixá-la sozinha.
Mudei de roupa o mais rápido que consegui e quando regressei
à sala encontrei-a com o meu portátil no colo.
- Posso saber o que a
menina tanta vê?
- Ups fui apanhada
- gargalhei ao ouvi-la - mas já que
perguntaste precisei de ir ao meu mail e acabei por usar o teu portátil,
desculpa.
- Podes usar sempre
que precisares - ela olhou-me - não
tenho nada aí que não possas ver.
- Pois mas fiquei a
saber que o fundo do teu ecrã é uma foto nossa - sorri ao ouvi-la.
- Tens algum problema
com isso? - aproximei-me dela quando já estava de pé - Somos amigos por isso não vejo mal nenhum nisso - olhou-me - vamos? - a Mariana sorriu.
- Sim vamos que a
Letícia já está a fazer conta com mais uma boca que por sinal come por duas.
- Piadinha.
Ela não respondeu e por isso descemos até à garagem em
silêncio que só foi quebrado quando ela teve que dar a morada da casa da amiga.
Mariana
Quando decidi procurar o Ruben nunca pensei que terminasse
desta forma comigo a abrir o jogo e a dizer-lhe com as letras todos o que
andava a povoar os meus pensamentos, tivemos uma conversa franca e apesar de
ser um assunto delicado não fiquei minimamente incomodada, talvez por ter a
consciência que precisávamos mesmo de esclarecer as coisas.
O Ruben acabou por convencer-me a deixá-lo almoçar comigo e
com o Martim por isso enquanto se foi vestir aproveitei para ligar à Letícia e
informa-la que levaria alguém para o almoço, ela começou a fazer filmes mas não
liguei nenhuma e muito menos lhe disse que comigo iria um dos seus jogadores
preferidos.
Já íamos a caminho da sua casa quando lembrei-me de pedir ao
Ruben para passarmos por um supermercado, queria levar gelado para a sobremesa
uma vez que o Martim adora gelados, lógico que o Ruben fez-me a vontade e
desviou caminho só para comprar aquilo que queria.
Foi quando já estávamos a chegar que o Ruben perguntou-me
algo que levou-me a gargalhar.
- A Letícia sabe quem
é que vais levar contigo?
- Não.
- Porquê que
gargalhaste?
- Porque estou curiosa
para ver a reacção dela.
- Como assim?
- Digamos que ela é
uma fã tua.
- Benfiquista
portanto?
- Não, é mesmo só tua
fã - ele olhou-me - tua e de mais
não sei quantos - gargalhei ao ver a cara dele - é que ela é daquelas que só vê futebol pelas pernas e cus de quem joga,
ou seja, joguem vocês de azul, vermelho ou amarelo às bolinhas roxas é
completamente indiferente.
- És terrível.
- Amigo - ele
sorriu - só estou a ser sincera mas
agora deixemos a conversa para depois e estaciona mas é o carro que o prédio é
aquele - falei ao apontar.
O Ruben lá conseguiu encontrar um lugar e depois de
estacionar saímos, toquei à campainha e depois de ouvir a voz do meu pequeno a
perguntar quem era a porta abriu assim que lhe disse que era eu.
Subimos de elevador e assim que chegamos ao andar da Letícia
o Martim abriu a porta do apartamento, escusado será dizer que se atirou para
os braços do Ruben, não pude deixar de sorrir ao ver a alegria do meu irmão.
- Que sorriso foi
esse? - o Ruben perguntou-me assim que o Martim nos deixou aos dois à porta
e foi até à sala.
- Nada de especial só
fiquei contente por ver o meu pirralho animado e agora vamos entrar - falei
ao agarrar--lhe a mão para o puxar, entramos e o Ruben fechou a porta mas ao
virar-se ficamos perdidos a olhar um para o outro, não sei o que estava a
dar-me mas senti uma vontade louca de observar cada detalhe seu o que estava a
deixar-me assustada.
- Ó Mariana vais
ficar a fazer sala à porta de casa - ouvi a voz da Letícia cada vez mais
perto e só quando se calou é que desviei o olhar e encontrei-a petrificada a
olhar-nos e só aí é que percebi que continuava de mão dada ao Ruben,
automaticamente desprendi-me dele e falei.
- Letícia é o Ruben,
Ruben é a Letícia - apresentei-os e vi o Ruben a cumprimentá-la.
- A minha alma está
parva - gargalhamos os dois perante tal comentário - desde quando é que falas com jogadores?
- Desde que fui
trabalhar para a casa de um.
- Amiga temos que
conversar - o Ruben olhou-me.
- Depois porque agora
estou com fome - falei ao passar por ela - anda - falei para o Ruben.
O almoço foi divertido, as gargalhadas foram uma constante e
apesar de sentir que estava a ser observada pela minha amiga não deixei de ser
eu mesma já o Ruben desligou completamente ou não fosse estar habituado a ser
observado.
No final do almoço fui ajudá-la a arrumar a cozinha,
oportunidade que a Letícia aproveitou para perguntar algo que queria saber.
- Tu e o Ruben -
gargalhei.
- Somos só amigos
- falei antes que ela concluísse.
- Não foi isso que
pareceu quando fui ter convosco à porta - sorriu - amiga foste tu a responsável pelo fim do namoro e noivado dele?
- Não e podes parar
com os filmes porque não temos nada.
- Pois, pois vais
dizer que é fruto da minha imaginação, é? Mariana, sei aquilo que vi.
- Ai sim então diz lá
o que viste para além de dois amigos.
- Se fosse só amizade
vocês não se olhavam daquela forma e muito menos estavam de mãos dadas.
- Qual é o mal?
- O mal não é nenhum
até pelo contrário - olhei-a - gostei
do que vi - ela sorriu.
- Pára - ela
interrompeu-me.
- Porquê? Algo diz-me que tenho razão, que
entre ti e o Ruben existe alguma coisa.
- Já te disse que
somos só amigos agora acredita no que quiseres.
- Tudo bem não volto
a insistir neste assunto.
Acabei por mudar de assunto dando continuação à conversa
enquanto arrumávamos a cozinha e assim que terminamos regressamos à sala, o
Ruben estava na brincadeira com o Martim o que foi razão suficiente para a
Letícia mandar a piada.
- É que é mesmo fofo,
além de ser jeitoso todos os dias, o teu irmão adora-o - respirei fundo o
que foi motivo para ela gargalhar denunciando assim a nossa presença.
- Mana - olhei
para o Martim - quando é que temos de
regressar para Braga - perguntou-me quando já estava sentada ao lado do
Ruben e com o meu piolho ao colo.
- Daqui pouco porquê?
- Por nada -
sorri ao ouvi-lo.
Fiquei à conversa com o Ruben e a Letícia enquanto o meu
piolho foi arrumar os seus brinquedos uma vez que tínhamos mesmo que regressar
a Braga e quando voltou avisei que iria arrumar a mala para depois seguirmos.
Estava a terminar de fechar a mala quando reparei na presença do Ruben, ele
estava encostado à porta uma vez que a tinha fechado.
- O que estás aqui a
fazer? - perguntei e vi que ele sorria - Então não respondes - ele continuava mudo mas cada vez mais perto,
o Ruben caminhava lentamente na minha direcção e sem nunca desviar os seus
olhos dos meus, o que estava a deixar-me desconfortável e quando tentei sair do
quarto o Ruben agarrou-me pela cintura.
- Não fujas -
olhei-o - só quero despedir-me de ti.
- Podias esperar que
chegasse à sala - ele sorriu.
- Poder até podia mas
lá não podia fazer aquilo que quero - tremi ao ouvir tal insinuação ainda
assim não consegui desgrudar um milímetro que fosse e afastar-me dele - Mariana - ele aproximou-se ainda mais e
levou a mão direita à minha cara.
O que irá o Ruben fazer ou dizer? Será que vai voltar atrás e dizer-lhe
o que verdadeiramente sente?