quinta-feira, 31 de maio de 2012

020- “… há coisas na vida que são inevitáveis e uma delas é o amor…”


Ruben

Nas duas últimas semanas mal tenho falado com a Mariana preferi afastar-me um pouco para tentar organizar a confusão de sentimentos que ia dentro de mim e ao fim de quinze dias a certeza que ela já é demasiado importante para mim deixou de ser uma incerteza para passar a ser certeza mas agora a luta interior é outra, não sei o que fazer em relação ao sentimento que tenho por ela, por um lado quero partilhar com a Mariana mas por outro sei que ela se irá afastar e por isso mesmo tenho preferido continuar afastado.
O jogo ontem correu-me mal a todos os níveis e quando acabou só queria chegar a casa e dormir até ao dia seguinte mas isso não aconteceu primeiro porque fui jantar com a minha família que teimaram em saber o que andava a acontecer comigo mas que fugi a todas as questões e depois porque quando cheguei finalmente à cama a Mariana e as saudades que já tenho de ver o ser sorriso não deixaram que dormisse quase nada.
Acabei por levantar-me e depois de comer fiquei estatelado no sofá a ver televisão, foi quando o estava a fazer que ouvi a campainha e apesar de não ter vontade nenhuma levantei-me para ver quem seria e foi quando olhei pelo intercomunicador que nem queria acreditar, era a minha Mariana que estava à espera que lhe abrisse a porta, não hesitei um segundo que fosse e abri a porta do prédio bem como a do meu apartamento, fiquei encostado à ombreira à sua espera e uns minutos depois vi a porta do elevador a abrir para finalmente a ver diante de mim.
Não consegui reagir e por isso foi dela a iniciativa de se aproximar, a Mariana deu-me um beijo repenicado no rosto para logo depois ouvir a sua voz.
- Então desaparecido - sorri-lhe - será que dá para conversarmos sem que fujas? - suspirei, ela não estava mesmo disposta a sair dali sem respostas.
- Entra - dei-lhe passagem e assim que ela passou por mim o seu perfume entranhou-se nas minhas narinas - como é que descobriste a minha morada?
- Nós nem temos amigos em comum nem nada - gargalhei
- Queres alguma coisa para beber ou comer?
- Não, só quero que te sentes aqui do meu lado - olhei-a - Ruben o que é que se passa? - perguntou-me quando já estava sentado do seu lado.
- Nada.
- Nada? Queres que acredite nisso?
- É verdade.
- Não, não é e sabes disso melhor do que eu - olhou-me - só gostava de saber porquê que te afastaste de mim.
- Não afastei-me de ninguém simplesmente tenho andado ocupado - tentei fugir à questão mas ela não facilitou.
- Ruben além de cobarde também és mentiroso, é? Não sei o que se passou só sei que desde que recusei o maldito convite para jantar contigo que afastaste-te e desde dessa altura que ando a levar constantemente com as perguntas do Nuno e da Patrícia porque eles acham que sou responsável por andares distante e distraído - interrompi-a.
- Não tens culpa de nada - suspirei - o problema sou eu.
- Queres ser mais explícito?
- Não.
- Ok, então fica aí a remoer nos problemas sozinho - ela levantou-se mas agarrei-a pela mão.
- Onde vais?
- Embora porque não estou aqui a fazer nada.
- Espera - ela olhou-me - desculpa.
- Ruben não quero um pedido de desculpas, só quero saber o que se passa e se posso ajudar nalguma coisa.
- Mariana, prefiro não falar e quanto a ajudares não há nada que possas fazer.
- Tens a certeza? - ela perguntou-me a olhar directamente nos meus olhos ao mesmo tempo que agarrou-me na mão e não sei porquê mas instintivamente afastei-me o que a deixou triste - ainda falas que não se passa nada? - ela levantou-se e foi até à janela - Podes dizer a verdade porque não é nada que não esteja à espera, sempre fui descartável para as pessoas e contigo não há-de ser diferente - doeu ouvi-la a dizer tal coisa quando a vontade que tinha era dizer-lhe o quanto gosto dela.
- Mariana - aproximei-me dela e ao tocá-la no ombro ela fugiu.
- Esquece não preciso que tenhas pena de mim, já percebi que perdi o meu tempo a vir aqui mas principalmente a deixar que entrasses de alguma forma na minha vida.
- Não digas isso - pedi a olhá-la nos olhos - se soubesses o quanto estás a ser injusta não dirias tal coisa.
- Injusta?
- Sim injusta - aproximei-me ainda mais - Mariana não quero afastar-me de ti mas precisei de uns dias para reorganizar a confusão de sentimentos que ia dentro de mim - ela olhava-me e quanto mais minutos passava ali diante dela mais a vontade de beijá-la consumia-me - ter terminado com o noivado deixou-me um bocado à deriva - desculpei-me com o fim do relacionamento com a Soraia - desculpa se te magoei por ter andado mais distante mas precisei mesmo destes dias, é verdade que podia ter-te dado uma justificação mas não consegui, não sou prefeito também cometo erros e um deles foi afastar-me de ti quando não é disso que estava a precisar - fiz-lhe uma carícia no seu rosto - Mariana - suspirei - o problema é que - não consegui concluir fui interrompido pelo barulho irritante da campainha.
- É melhor ires ver quem é - ela afastou-se, por isso fui até à porta e ao ver quem era ainda pensei não abrir mas de nada adiantaria, a Soraia não iria desistir por isso abri a porta do prédio e depois fui avisar a Mariana.
- É a Soraia - falei ao entrar na sala.
- Vou embora - falou ao pegar na mala.
- Espera não vás - pedi-lhe - fica por favor.
- Ruben não estou com disposição para aturar a Soraia.
- Se não quiseres ficar na sala podes ir até ao meu quarto, espera lá que quando ela sair vou chamar-te.
- Ok - sorri ao ouvi-la a ceder - mas depois quero que expliques muito bem o que se anda a passar.
- Tudo bem.
Ela acabou por ir até ao meu quarto enquanto fui abrir a porta à Soraia.
- Bom dia.
- Olá, posso entrar? - pediu-me.
- Precisas de alguma coisa? - perguntei ainda com ela à porta.
- Sim se não te importares gostava de levar as minhas coisas e queria falar contigo.
- Tudo bem, entra - dei-lhe passagem afinal tínhamos mesmo que ter uma última conversa.
- Posso ir até ao quarto buscar as minhas roupas?
- Não - ela olhou-me - porque já está tudo dentro de um saco por isso vou buscar.
- Isso é que foi pressa para te veres livre das minhas roupas.
- Soraia, nós terminamos de vez, se tu própria emitiste um comunicado a avisar a imprensa que não iria haver mais casamento dado que nos separamos não vejo motivo para que as tuas coisas continuassem espalhadas pela minha casa e se queres saber nem fui eu que arrumei mas sim a minha mãe, pedi-lhe que o fizesse para que quando chegasse não ter que levar com recordações nossas.
- Estás assim tão arrependido do tempo que passaste ao meu lado?
- Não estou arrependido.
- Não é isso que parece.
- Soraia, amei-te e pensei mesmo que fosse para a vida mas isso não aconteceu, continuo a gostar imenso de ti mas já não é amor e quanto a isso não posso fazer nada, nós não escolhemos quem amamos.
- Dói ouvir isso - ela estava com as lágrimas nos olhos e pela primeira vez tive a noção que estava a sofrer com o fim do nosso namoro - mas dói ainda mais saber a forma como terminou - olhei-a - trocaste-me por outra ainda por cima por alguém que nem é do nosso classe social - interrompi-a.
- Podes parar por aí, não te troquei por ninguém, estou sozinho e é assim que quero continuar.
- Estás a dizer que a empregada se está a fazer de difícil, é?
- Soraia, não metas a Mariana no meio da nossa conversa porque a rapariga não tem nada com o assunto.
- Até quando é que vais continuar a negar o óbvio? Ruben, conheço-te muito bem para perceber que estás apanhadinho por ela, a forma como olhas, como os teus olhos brilham quando se fala no nome dela não deixa margem para dúvidas, o brilho que tens no olhar quando estás perto dela é o mesmo que em tempo tinhas quando estavas comigo, não negues aquilo que não tem negação possível - suspirei - admite de uma vez aquilo que sentes.
- Não dá - ela olhou-me - porque não sei aquilo que sinto, não amo a Mariana mas também não posso dizer que é indiferente quando não é, sinto-me bem do seu lado mas ainda assim não é amor e muito menos temos alguma coisa, sempre te respeitei.
- Sempre respeitaste-me - falou ironicamente - principalmente quando trocaste os nossos nomes, Ruben não sejas ridículo e admite o que se anda a passar.
- Queres que diga que gosto dela, sim gosto, se queres saber dava tudo o que tenho e o que não tenho para que a Mariana sentisse o mesmo em relação a mim mas infelizmente ela só me vê como um amigo e agora que já sabes a verdade deixa-me ir buscar o saco que tem as tuas coisas.
Não lhe dei tempo para dizer nada, saí da sala e fui buscar o saco, quando regressei encontrei-a sentada, entreguei-lhe o saco e pedi que saísse, algo que acabou por fazer mas antes teve que avisar-me que isto não ficaria assim, que ainda iria arrepender-me por tudo o que lhe fiz. Fiquei triste apesar de tudo não queria que as coisas terminassem assim mas a verdade é que não escolhi quando apaixonei-me pela Mariana, simplesmente aconteceu sem que desse por isso e agora não há volta a dar.
Estava na varanda quando pressenti alguém a chegar e por saber quem seria um sorriso surgiu no meu rosto e ficou ainda maior quando a ouvi falar.
- Ó jeitoso - virei-me e ficamos novamente frente a frente e demasiado próximos – estás bem? - perguntou-me visivelmente preocupada.
- Mais ou menos - suspirei - dói perceber que a magoei mesmo sem ter essa intenção.
- Ruben, há coisas na vida que são inevitáveis e uma delas é o amor, não escolhemos por quem é que nos vamos apaixonar, hoje estás com uma pessoa amanhã podes estar com outra, são coisas que acontecem principalmente quando a relação que mantemos com alguém não está a atravessar uma boa fase.
- Tens razão mas podia ter sido logo honesto com ela.
- Ruben não penses mais nisso por muito que queiras já não podes alterar o passado logo segue em frente, sei que dói quando reconhecemos que magoamos alguém mas não nos adianta de nada ficar presos a essa dor, se deixaste de amá-la e encontraste o amor ao lado de outra então aproveita a oportunidade para seres feliz e não cometas os mesmo erros.
- O problema é que a pessoa de quem estou a gostar não sente o mesmo por mim - olhei-a nos olhos enquanto falei queria ver a sua reacção mas como já estava à espera a Mariana não entendeu o que queria dizer.
- Tal como não escolhemos por quem nos vamos apaixonar também não podemos obrigar essa pessoa a sentir o mesmo.
- Isso não serve de grande consolo.
- Ruben o tempo é o nosso melhor amigo.
- O que queres dizer com isso?
- Que nunca sabemos o que esperar, que talvez com o tempo essa rapariga por quem te apaixonaste possa vir a sentir o mesmo por ti, nós nunca sabemos o dia de amanhã mas se há algo que já aprendi é que o amanhã traz-nos sempre surpresas umas vezes boas outras nem tanto mas que não há nada certo na vida lá isso não há.
- Estás a querer dizer que devo ter esperanças?
- Estou a dizer que deves parar e tentar perceber se vale mesmo a pena esperares por essa rapariga.
- E se não quiser esperar - aproximei-me ainda mais dela colocando a mão no seu rosto - e se quiser que ela responda à pergunta se vale mesmo a pena esperar?
- Então pergunta-lhe - ela afastou-se.
- Não tenho coragem - admiti ao baixar o olhar.
- Não tens coragem ou tens medo da resposta?
- As duas.
- Ruben - ela aproximou-se e levou a mão à minha cara obrigando-me a olhá-la - não sou parva.
- O que queres dizer com isso?
- Que cada vez tenho mais certeza que sei de quem é que estamos a falar - disse-me olhos nos olhos - Ruben até aqui andei a evitar esta conversa porque quis acreditar que não era mais do que macaquinhos da minha cabeça mas sinceramente já estou a dar em doida com esta dúvida, isto pode parecer estranho mas pela primeira vez não estou a conseguir ser racional e muito menos consigo distinguir se sou eu que estou a ver coisas onde não existem ou se pelo contrário ando é a negar o óbvio. Ruben desde que nos afastamos mas principalmente nestes últimos dias existe uma série de acontecimentos que andam a tirar-me o sono, por isso desculpa mas vais ter que responder-me se sou ou não a responsável pelo fim do teu namoro.
- Não - percebi que não tinha ficado convencida da resposta e talvez por isso voltou a insistir.
- Tens a certeza? Ruben, não quero parecer egocêntrica mas há uma data de situações e conversas que não saem da minha cabeça, pior ainda que estão a deixar-me cada vez mais confusa e se há coisa que detesto são assuntos mal resolvidos porque acabam sempre por vir ao de cima - ela não estava convencida e o facto de estar a olhar-me enquanto falava não estava a ajudar.
- Que conversas e situações são essas que te levam a pensar que és a responsável pelo fim do meu noivado e namoro?
- Ruben começando pelas bocas e suposições do Nuno e da Patrícia, passando pela conversa que a tua mãe teve comigo no dia seguinte ao que vocês acabaram e terminando com as nossas últimas conversas em que tenho ficado com a sensação que andas a fugir de mim e a falar por meias palavras - pela primeira vez desviei o olhar o que fez com que falasse novamente - vês é disso que falo, são essas atitudes que levam-me a pensar que ou estou louca ou então demasiado perto da verdade.
- Mariana a última coisa que quero é magoar-te - ela interrompeu-me.
- O que pode magoar-me é a mentira - olhou-me - consigo lidar com tudo menos com pessoas falsas.
- Estás a dizer que não acreditas em mim?
- Não tenho razões para não acreditar mas ficas avisado que dificilmente perdoo quem não é honesto comigo, detesto que não digam a verdade e que depois dão aquela desculpa esfarrapada de que é para proteger-me - interrompi-a.
- Queres à força que admita que estás certa, que por algum motivo foste a responsável pelo fim do meu namoro, é?
- Não - olhou-me - só quero a verdade independentemente de qual seja.
- É a verdade que queres?
- Sim.
- Então responde-me o que sentes por mim - olhou-me - e já agora como é que reagirias se te confirmasse que tens razão mas que não sentes o mesmo por mim.
- Ruben o que sinto por ti é amizade unicamente isso - disse segura de si - quanto ao resto não posso responder-te pois não passa de uma suposição e a minha forma de lidar com essa realidade iria depender e muito da forma como lidarias tu com o facto de não seres correspondido, se conseguisses separar as coisas podes ter a certeza que continuarias a ter-me do teu lado caso contrário terias sempre a minha amizade mas não duvides que iria afastar-me, a última coisa que iria querer era dar-te esperanças, infelizmente sei bem o que é viver na ilusão e isso não é algo que desejo a ninguém muito menos a um amigo.
- Então ainda bem que estás enganada - estava a custar mentir-lhe mas ou era isso ou vê-la a afastar-se de mim porque os meus sentimentos não são correspondidos - Mariana não foste a responsável pelo fim do meu namoro, a minha relação com a Soraia acabou porque deixei de ama-la e não porque esteja a gostar de ti. Linda, esquece a conversa que tiveste com a minha mãe e quanto às bocas dos nossos amigos não ligues, eles podem pensar aquilo que quiserem mas não é por isso que vai virar realidade.
- Então porquê que andaste a evitar-me? - ela não estava convencida o que fez com que vacilasse por momentos ainda assim continuei a negar o óbvio.
- Não te evitei simplesmente precisei de uns dias para reflectir no que fiz de errado, no porquê que depois de quatro anos a relação terminou da forma que foi.
- Ok - ela sorriu - mas para a próxima não fiques tanto tempo sem dar notícias, todos precisamos do nosso espaço mas não custa muito dizer isso aos nossos amigos, se tivesses falado que precisavas deste espaço tinha respeitado o pedido e terias evitado esta conversa embaraçosa.
- Desculpa, não fiz por mal.
- Esquece - voltou a sorrir - já passou, nada como uma conversa franca e agora tenho que ir - ela aproximou-se e deu-me um beijinho no rosto seguido de um abraço.
- Não queres ficar mais um bocado - ela olhou-me - podíamos almoçar juntos.
- Hum a proposta agrada-me mas tenho o meu puto à espera.
- É verdade com isto tudo nem perguntei por ele.
- O Martim está sempre bem e ontem teve com os amigos dele por isso não deve ser difícil adivinhar que está radiante.
- Onde é que o deixaste?
- Na casa da Letícia que é a madrinha dele.
- Ah ok - ela sorriu - e não queres ir buscá-lo?
- Como assim?
- Oh vou de férias por isso podíamos almoçar os três em género de despedida.
- Lamento mas não vai dar.
- Porquê?
- Porque já tinha combinado de almoçar com a Letícia.
- Então ela que venha também - a Mariana olhou-me - podíamos ir buscá-los e almoçávamos num lado qualquer.
- Não sei se é boa ideia.
- Tens receio de ser vista comigo, não é?
- Ruben, estamos em Lisboa o melhor é não arriscarmos.
- Juro que não entendo essa tua paranóia, quando namorava ainda tinha um motivo mas agora - ela interrompeu-me.
- Agora o motivo continua a ser o mesmo porque nunca foi a Soraia - olhei-a admirado - Ruben, o problema não era namorares mas sim seres conhecido e mesmo sem quereres isso pode trazer-me consequências que não quero.
- Como assim?
- Ruben, saí de Lisboa porque a minha mãe andava a querer ver o Martim, digamos que fugi para parte incerta na esperança de ver-me livre dela como tal ser vista contigo a passear em Lisboa ainda para mais com as revistas a especularem a razão pela qual já não vais casar não é de todo algo benéfico, desculpa não tens culpa mas neste momento só quero proteger o meu irmão.
- Tudo bem compreendo isso mas não podes andar a vida inteira a fugir da vossa mãe.
- Ruben não ando a fugir mas se puder evitar, evito.
- O que é que não estás a contar? - ela olhou-me.
- Lembraste do dia que encontraste-me a chorar e que até foste falar disso com o Nuno?
- Sim isso foi logo nos primeiros dias que nos conhecemos mas o que tem?
- Encontraste-me a chorar e andei os dias seguintes mais em baixo porque ligaram-me a avisar que a minha mãe andava a querer saber para onde tínhamos ido, que queria a todo o custo ver o Martim e como ninguém lhe disse, ela ameaçou que iria tentar através da justiça ter permissão para ver o Martim, ninguém lhe deu credibilidade até porque não era a primeira vez que ameaçava mas ao contrário das outras que não fez nada para conseguir isso desta fez, ela internou-se numa clínica para fazer nova desintoxicação - a Mariana já estava com as lágrimas nos olhos e sem pensar duas vezes abracei-a - tenho medo do que possa vir a acontecer se ela não desiste desta ideia.
- Mariana, ela até pode ficar limpa das drogas e até pode levar o caso para a justiça mas nunca na vida um juiz irá tirar-te o Martim para entregar a ela.
- Não sei, tenho medo.
- Shiu - limpei-lhe as lágrimas - isso não vai acontecer e mesmo que ela tente não irás estar sozinha para além dos teus amigos que te acompanharam desde o início agora tens-me a mim, ao Nuno e à Patrícia, se quiseres até posso falar com o meu advogado ele deve conhecer alguém que te pode ajudar se for necessário, mas agora não quero que penses mais nisso - fi-la olhar para mim - vamos buscar o Martim e a madrinha dele para almoçarmos e não aceito um não como resposta, tens que te distrair até porque não queres que o Martim perceba que se passa algo, não é?
- Sim - ela sorriu ligeiramente - mas mesmo assim preferia não andar a desfilar contigo para Lisboa inteira ver - gargalhei.
- Deixa de ser exagerada mas se queres passar despercebida podes sempre ligar à madrinha do Martim e dá-lhe a morada daqui.
- Como assim?
- Então se concordares em fazeres o almoço para o esfomeado podemos almoçar aqui.
- Para isso vamos até à casa da Letícia e almoçamos por lá - sorri-lhe - que foi?
- É impressão minha ou não queres trazer a tua amiga aqui a casa?
- Não é bem não querer mas prefiro que sejamos nós a ir ter com eles.
- Ok, avisa lá que vais levar uma visita contigo enquanto vou mudar de roupa - dei-lhe um beijo no rosto para depois deixá-la sozinha.
Mudei de roupa o mais rápido que consegui e quando regressei à sala encontrei-a com o meu portátil no colo.
- Posso saber o que a menina tanta vê?
- Ups fui apanhada - gargalhei ao ouvi-la - mas já que perguntaste precisei de ir ao meu mail e acabei por usar o teu portátil, desculpa.
- Podes usar sempre que precisares - ela olhou-me - não tenho nada aí que não possas ver.
- Pois mas fiquei a saber que o fundo do teu ecrã é uma foto nossa - sorri ao ouvi-la.
- Tens algum problema com isso? - aproximei-me dela quando já estava de pé - Somos amigos por isso não vejo mal nenhum nisso - olhou-me - vamos? - a Mariana sorriu.
- Sim vamos que a Letícia já está a fazer conta com mais uma boca que por sinal come por duas.
- Piadinha.
Ela não respondeu e por isso descemos até à garagem em silêncio que só foi quebrado quando ela teve que dar a morada da casa da amiga.

Mariana

Quando decidi procurar o Ruben nunca pensei que terminasse desta forma comigo a abrir o jogo e a dizer-lhe com as letras todos o que andava a povoar os meus pensamentos, tivemos uma conversa franca e apesar de ser um assunto delicado não fiquei minimamente incomodada, talvez por ter a consciência que precisávamos mesmo de esclarecer as coisas.
O Ruben acabou por convencer-me a deixá-lo almoçar comigo e com o Martim por isso enquanto se foi vestir aproveitei para ligar à Letícia e informa-la que levaria alguém para o almoço, ela começou a fazer filmes mas não liguei nenhuma e muito menos lhe disse que comigo iria um dos seus jogadores preferidos.
Já íamos a caminho da sua casa quando lembrei-me de pedir ao Ruben para passarmos por um supermercado, queria levar gelado para a sobremesa uma vez que o Martim adora gelados, lógico que o Ruben fez-me a vontade e desviou caminho só para comprar aquilo que queria.
Foi quando já estávamos a chegar que o Ruben perguntou-me algo que levou-me a gargalhar.
- A Letícia sabe quem é que vais levar contigo?
- Não.
- Porquê que gargalhaste?
- Porque estou curiosa para ver a reacção dela.
- Como assim?
- Digamos que ela é uma fã tua.
- Benfiquista portanto?
- Não, é mesmo só tua fã - ele olhou-me - tua e de mais não sei quantos - gargalhei ao ver a cara dele - é que ela é daquelas que só vê futebol pelas pernas e cus de quem joga, ou seja, joguem vocês de azul, vermelho ou amarelo às bolinhas roxas é completamente indiferente.
- És terrível.
- Amigo - ele sorriu - só estou a ser sincera mas agora deixemos a conversa para depois e estaciona mas é o carro que o prédio é aquele - falei ao apontar.
O Ruben lá conseguiu encontrar um lugar e depois de estacionar saímos, toquei à campainha e depois de ouvir a voz do meu pequeno a perguntar quem era a porta abriu assim que lhe disse que era eu.
Subimos de elevador e assim que chegamos ao andar da Letícia o Martim abriu a porta do apartamento, escusado será dizer que se atirou para os braços do Ruben, não pude deixar de sorrir ao ver a alegria do meu irmão.
- Que sorriso foi esse? - o Ruben perguntou-me assim que o Martim nos deixou aos dois à porta e foi até à sala.
- Nada de especial só fiquei contente por ver o meu pirralho animado e agora vamos entrar - falei ao agarrar--lhe a mão para o puxar, entramos e o Ruben fechou a porta mas ao virar-se ficamos perdidos a olhar um para o outro, não sei o que estava a dar-me mas senti uma vontade louca de observar cada detalhe seu o que estava a deixar-me assustada.
- Ó Mariana vais ficar a fazer sala à porta de casa - ouvi a voz da Letícia cada vez mais perto e só quando se calou é que desviei o olhar e encontrei-a petrificada a olhar-nos e só aí é que percebi que continuava de mão dada ao Ruben, automaticamente desprendi-me dele e falei.
- Letícia é o Ruben, Ruben é a Letícia - apresentei-os e vi o Ruben a cumprimentá-la.
- A minha alma está parva - gargalhamos os dois perante tal comentário - desde quando é que falas com jogadores?
- Desde que fui trabalhar para a casa de um.
- Amiga temos que conversar - o Ruben olhou-me.
- Depois porque agora estou com fome - falei ao passar por ela - anda - falei para o Ruben.
O almoço foi divertido, as gargalhadas foram uma constante e apesar de sentir que estava a ser observada pela minha amiga não deixei de ser eu mesma já o Ruben desligou completamente ou não fosse estar habituado a ser observado.
No final do almoço fui ajudá-la a arrumar a cozinha, oportunidade que a Letícia aproveitou para perguntar algo que queria saber.
- Tu e o Ruben - gargalhei.
- Somos só amigos - falei antes que ela concluísse.
- Não foi isso que pareceu quando fui ter convosco à porta - sorriu - amiga foste tu a responsável pelo fim do namoro e noivado dele?
- Não e podes parar com os filmes porque não temos nada.
- Pois, pois vais dizer que é fruto da minha imaginação, é? Mariana, sei aquilo que vi.
- Ai sim então diz lá o que viste para além de dois amigos.
- Se fosse só amizade vocês não se olhavam daquela forma e muito menos estavam de mãos dadas.
- Qual é o mal?
- O mal não é nenhum até pelo contrário - olhei-a - gostei do que vi - ela sorriu.
- Pára - ela interrompeu-me.
 - Porquê? Algo diz-me que tenho razão, que entre ti e o Ruben existe alguma coisa.
- Já te disse que somos só amigos agora acredita no que quiseres.
- Tudo bem não volto a insistir neste assunto.
Acabei por mudar de assunto dando continuação à conversa enquanto arrumávamos a cozinha e assim que terminamos regressamos à sala, o Ruben estava na brincadeira com o Martim o que foi razão suficiente para a Letícia mandar a piada.
- É que é mesmo fofo, além de ser jeitoso todos os dias, o teu irmão adora-o - respirei fundo o que foi motivo para ela gargalhar denunciando assim a nossa presença.
- Mana - olhei para o Martim - quando é que temos de regressar para Braga - perguntou-me quando já estava sentada ao lado do Ruben e com o meu piolho ao colo.
- Daqui pouco porquê?
- Por nada - sorri ao ouvi-lo.
Fiquei à conversa com o Ruben e a Letícia enquanto o meu piolho foi arrumar os seus brinquedos uma vez que tínhamos mesmo que regressar a Braga e quando voltou avisei que iria arrumar a mala para depois seguirmos. Estava a terminar de fechar a mala quando reparei na presença do Ruben, ele estava encostado à porta uma vez que a tinha fechado.
- O que estás aqui a fazer? - perguntei e vi que ele sorria - Então não respondes - ele continuava mudo mas cada vez mais perto, o Ruben caminhava lentamente na minha direcção e sem nunca desviar os seus olhos dos meus, o que estava a deixar-me desconfortável e quando tentei sair do quarto o Ruben agarrou-me pela cintura.
- Não fujas - olhei-o - só quero despedir-me de ti.
- Podias esperar que chegasse à sala - ele sorriu.
- Poder até podia mas lá não podia fazer aquilo que quero - tremi ao ouvir tal insinuação ainda assim não consegui desgrudar um milímetro que fosse e afastar-me dele - Mariana - ele aproximou-se ainda mais e levou a mão direita à minha cara.

O que irá o Ruben fazer ou dizer? Será que vai voltar atrás e dizer-lhe o que verdadeiramente sente?

quarta-feira, 30 de maio de 2012

019 - “Mariana será que não entendeste que o Ruben quer os teus mimos e não os das outras pessoas?”


Ruben

Acordei porque o maldito despertador tocou e apesar da vontade que tinha em ficar na cama acabei por levantar-me, tinha treino e não queria mesmo chegar atrasado. Tomei o pequeno-almoço à pressa pois não estava com paciência para aturar as piadas do meu irmão que a pedido da nossa mãe lá se calou.
O treino podia ter corrido melhor e por isso no fim não me livrei de levar com as perguntas do Nuno enquanto regressávamos ao balneário.
- Puto o que é que tens hoje?
- Nada.
- Isso é tudo falta da Mariana? – parei de andar o que o fez parar também.
- Desde quando é que a Mariana é motivo para estar distraído no treino?
- Ah, afinal confessas que estavas distraído durante o treino.
- Ó Nuno pára de chatear-me a cabeça que não preciso disso.
- Porquê que não admites de uma vez que tens dúvidas quanto à realização do casamento?
- Já não vai haver casamento – teria explicado mas ele interrompeu-me.
- Como assim? Explica lá bem isso como se fosse muito burro – sorri com o que ele disse.
- Não há muito para explicar, simplesmente não vai haver mais casamento - fiz uma ligeira pausa - nós terminamos de vez sem volta possível.
- Posso saber ao que se deve essa certeza absoluta?
- Podes, já não amo a Soraia – ele olhou-me estupefacto, acho que não esperava que o admitisse desta forma.
- Tens a certeza?
- Tenho.
- Mas ainda ontem falavas que a amavas?
- Ultimamente também falei outras coisas que não eram verdade – ele olhava-me talvez à espera de uma explicação – se queres saber andei a enganar-me a mim próprio.
- Queres ser mais explícito?
- Desculpa mas neste momento prefiro não falar sobre tudo o que se tem vindo a passar mas que insisto em não ver e muito menos admitir – comecei a andar de novo mas a voz dele deteve-me.
- Mariana – olhei-o – é esse o nome de todas as tuas dúvidas, é esse o nome pelo qual o teu coração tem vindo a chamar mas que a cabeça teima em negar – engoli em seco – Ruben deixa de negar o óbvio, já todos percebemos que a rapariga mexe contigo, só não falamos mais cedo porque ainda pensamos que pudesse ser algo da nossa cabeça mas as tuas últimas atitudes só vieram confirmar isso – ele fez uma ligeira pausa mas continuou logo de seguida – não quero ser pessimista mas é bom que estejas preparado para ouvir um não por parte da Mariana, ela só tem olhos para o irmão – interrompi-o.
- Podes ficar descansado que não pretendo correr atrás da Mariana, até porque não sei aquilo que sinto por ela, só sei que gosto de estar do seu lado, ela dá-me a paz de que preciso, não sei explicar, só sei que do lado dela parece tudo mais fácil mas tenho a consciência que independentemente daquilo que sinto por ela que não é recíproco, para a Mariana sou só um amigo.
- Isso chega-te?
- Neste momento sim até porque estou demasiado confuso, Nuno o que sinto pela Mariana não é amor mas também não é só amizade – ele sorriu – o que foi?
- Como é que deixaste que chegasse a este ponto? Será que não conseguiste enxergar mais cedo o que se estava a passar ou será não quiseste fazê-lo?
- O que é que estás a insinuar?
- Ruben, a Mariana é o oposto da Soraia, nela encontraste o apoio que na tua ex noiva não tinhas e acabaste por confundir os sentimentos.
- Não acho que tenha confundido nada.
- Será que não?
- Nuno ao início quando olhava para a Mariana via uma rapariga simples, sincera, amiga, justa, magoada, triste e talvez mesmo desiludida mas hoje quando perco-me a olhá-la além de continuar a ver isso tudo ainda vejo a mulher que talvez um dia venha a ser minha mas que no presente não dá e não é por ter consciência que a Mariana não sente o mesmo por mim, é porque no presente estou demasiado confuso, não consigo ser egocêntrico ao ponto de pensar só em mim, ela não merece que brinque com os seus sentimentos sejam eles quais forem, só quero que a Mariana veja feliz.
- Espero que não te esqueças do que acabaste de falar – ele olhou-me – Ruben, já por diversas vezes avisei e volto a dizer não a quero magoada.
- Também não a quero magoar – suspirei – não sei o que vou fazer mas se tiver que afastar-me para ela não sofrer não hesitarei em fazê-lo, de qualquer forma as férias estão aí e nós vamos ficar um tempo sem nos vermos pode ser que consiga perceber o que sinto verdadeiramente pela Mariana.
- Puto o que é que te fez perceber que afinal a Mariana mexe contigo?
- Nuno, simplesmente percebi que já não amo a Soraia e que a Mariana não sai dos meus pensamentos.
- Não estás a dizer tudo mas também não vou insistir.
- Obrigado.
O Nuno não insistiu mais e por isso fui despachar-me, foi quando estava no duche que lembrei-me de convidar a Mariana para jantar e por isso mesmo avisei o Nuno que iria com ele até à sua casa, ele simplesmente sorriu mas não falou nada.
Chegamos à sua casa e mal entrei fui direto ao local que sabia que iria encontra-la, entrei na cozinha e só parei quando os meus braços já estavam a envolver o seu corpo, a Mariana refilou e após algumas palavras fiquei a saber que a minha mãe estava no mesmo espaço e ainda por cima teve a falar com ela, a primeira coisa em que pensei foi que tivesse vindo falar sobre a confusão de sentimentos que vai dentro de mim mas depressa fui esclarecido pela Mariana.
 - Ruben - olhei-a - sim tivemos a falar de ti, sabes como é preocupação de mãe.
- Mãe o que é que você lhe veio dizer?
- Não te preocupes que não falou nada que não tivesse à espera - olhei-a novamente - e como não gosto de assuntos por esclarecer digo-te já que a tua mãe veio com a conversa de sossegar coração de mãe, ou seja quis certificar das minhas intenções para com o seu menino que apesar de ser um marmanjo continua a ser criança, resumindo a tua mãe estava preocupada se pudesse levar o menino dela para a cama e servir de consolo – gargalhei ao ouvi-la mas não pude deixar de reparar que a minha mãe estava estupefacta a olhar talvez pela forma como a Mariana esclareceu o assunto sem qualquer problema por ela estar ali a ouvir - onde é que está a piada?
- Confesso que tem, gostava de ter visto essa cena – respondi.
- Posso saber porquê?
- Porque por muito que imagine acho que não chego à resposta que lhe deves ter dado, se bem que faço uma pequena ideia – sorri-lhe.
- Ai é, tem assim tanta piada – ela bateu-me no braço e vi a minha mãe a sair de fininho algo que aproveitei para confessar à Mariana um dos meus receios.
- Não é o facto de ter piada mas sim o de não teres ficado chateada comigo à conta disso.
- Iria chatear-me contigo porquê? As palavras foram da tua mãe e a bem da verdade nem disse nada simplesmente insinuou.
- Ah, ela insinuou e tu como gostas dos pontos nos i’s entraste logo a matar, não foi?
- Só chamei os “bois pelos nomes” - voltei a sorrir.
- O que é que lhe disseste? - perguntei agora mais sério.
- Algo do género que não é por ser empregada que sou “pau para toda a obra”, que não faço determinados “serviços” e que antes de respeitar-te a ti respeito-me a mim.
- Gostava de ter visto a cara da minha mãe – gargalháramos os dois – por norma nunca é tão direta e ter levado contigo assim deve doído.
- Olha que não viesse para o meu lado, se não gostou temos pena, sei que é tua mãe mas daí a andar com a ela nas palmas das minhas mãos a conversa é outra.
- Agora não entendi.
- Quis dizer que não é por ser tua mãe que a tenho de agradar e muito menos fingir ser quem não sou.
- Só posso concordar contigo – ela sorriu – mas agora até tenho medo de fazer o convite que tinha em mente.
- Convite?
- Passei por cá para te desafiar a irmos jantar - gargalhou - o que foi?
- Tenho de falar com o Miguel – olhei-a sem entender - cá para mim isso é efeito retardado da cabeçada que deste no fim-de-semana.
- Muito me contas - olhou-me - estou a ver que ficaste muito amiga do Miguel – fui irónico mas não fiquei sem resposta.
- Por acaso não mas agora que falas nisso podias era arranjar-me o número do telemóvel dele para o desafiar a vir jantar connosco, é que assim fico conhecê-lo melhor, afinal deve ser santo porque para vos aturar todos os dias ou é burro ou é santo.
- Que conversa é esta? Desde quando é que te interessas por homens? não gostei do que ouvi e mostrei o meu desagrado para a ouvir logo de seguida.
- Não venhas dar numa de pai para cima de mim porque não estou habituada a isso, saio com quem quero e não com quem impõe a sua presença, já para não falar que não sou exclusividade de ninguém, muito menos tua, não admito que tentem controlar-me muito menos um amigo, estamos entendidos?
- Desculpa não quis ofender.
- Ofendes se continuares com essa postura de protetor, podemos ser amigos mas isso não te dá o direito de puderes opinar no que respeita às pessoas com quem falo ou quero vir a falar.
- Tudo bem, já entendi.
- Ótimo.
- Mas aceitas ou não o meu convite?
- Não.
- Porquê?
- Ruben ontem deixei o meu irmão e o Nuninho sozinhos porque precisavas de falar, tudo bem, fui porque quis mas só o fiz porque não estavas bem, mas hoje pelo que acabei de ver aqui nesta cozinha estás fresco e fofo, por isso não venhas que não tens, as crianças aqui são eles e não tu.
- Quer dizer se meter-me aqui a chorar baba e ranho que vens jantar comigo, é?
- Deixa de ser estúpido e já agora mimado também, vê se cresces de uma vez, a idade das birras já passou.
- Pronto, ok, não digo mais nada.
- Mas também não penses que ficas aqui amuado, vai mas é à tua vida e deixa-me trabalhar.
- Estás a falar assim porquê?
- Porque sinceramente enjoa olhar para ti e ver que não passas de um puto mimado que só porque leva uma nega fica de burro.
- Vou embora.
- Adeus.
Não respondi simplesmente sai da cozinha e ao passar pela sala encontrei a minha mãe à conversa com o Nuno, eles ainda perguntaram algo mas não obtiveram resposta porque desapareci daquela casa precisava de estar sozinho talvez assim encontrasse as respostas que tanto preciso.

Mariana

A conversa com a Bela deixou-me algo desconfortável ainda assim resolvi esquecê-la uma vez que não queria chatear-me com ninguém, muito menos com o Ruben mas isso acabou por acontecer quando recusei ir jantar com ele, mais uma vez teve uma atitude de criança e não soube aceitar um não como resposta, ele deixou-me sozinha na cozinha e só voltei a ter a companhia de terceiros quando fui à sala avisar o Nuno que o almoço estava servido.
- Mariana – parei quando já ia a sair da sala – o que é que se passou para o meu filho sair daqui com a pressa toda?
- O filho é seu por isso pergunte-lhe – ela sorriu – porque não estou para aturar birras de pessoas adultas.
- Ui, o que é que o Ruben fez?
- Basicamente ficou de burro porque não aceitei ir jantar com ele – eles sorriram – é que não falta mais nada que servir de ama a ele também.
- O rapaz só está a precisar de mimos – interrompi o Nuno.
- Podes parar por aí, se quer mimo que peça à mãe ou que vá à procura de quem lhe queira dar mas que desampare a minha loja porque os meus mimos são para crianças com idade inferior a dez anos – o Nuno gargalhou – não estou a encontrar a piada.
- Mariana será que não entendeste que o Ruben quer os teus mimos e não os das outras pessoas? – olhei-o sem entender.
- O que é que queres dizer com isso?
- Que o Ruben está a precisar de ti e da tua amizade.
- O que ele precisa é de alguém que o faça esquecer a Soraia e essa pessoa não sou eu de certeza por isso que vá procurar para outro lugar e não perca tempo comigo – eles voltaram a sorrir.
- Não te subestimes – olhei para o Nuno.
- Não estou a subestimar-me simplesmente não sou a pessoa que o Ruben precisa.
- Será que não? – a mãe dele olhou-me.
- Nuno não sei onde queres chegar mas aviso já que de mim o Ruben só terá amizade.
- Nunca digas nunca – olhei-o – já ouvi muita boa gente a dizer nunca e foi quando caíram mais depressa, não subestimes o poder dos sentimentos.
- Onde é que queres chegar com esta conversa?
- A lado nenhum.
- Ok, então vamos almoçar que depois quero aproveitar para sair um pouco com o Nuninho.
O Nuno ainda convidou a D. Anabela para almoçar mas ela recusou pois queria almoçar com os filhos antes de regressar com o Mauro para Lisboa.
Durante a tarde fui passear com o Nuninho mas levei o apêndice do pai dele atrás, passei momentos agradáveis à conversa com o Nuno, até porque ele quis convencer-me a ir de férias com eles algo que neguei e depois de lhe explicar que o meu irmão ainda terá aulas até Junho e que normalmente utilizo a altura das férias para dedicar-me inteiramente ao Martim, o Nuno lá entendeu e até deu-me algumas ideias de destinos a escolher.

***

Nestas duas últimas semanas conheci a minha nova colega de trabalho, a senhora é simpática e criamos logo uma afinidade, a D. Joana apesar de ter uns anos a mais tem uma forma de ser que cativa as pessoas e por isso a sua integração não foi difícil.
Mas se estas semanas serviram para conhecer a D. Joana também serviram para mal ver o Ruben, desde que neguei o convite para jantarmos que ele ficou estranho, agora vem a casa do Nuno menos vezes e quando vem é a correr, mal está com o afilhado. Já tentei perceber o que se passa mas o Ruben fecha-se em copas e diz que anda só cansado algo que não acredito mas que até aqui tenho respeitado a sua vontade em não querer falar até porque sei bem o que isso é.
Hoje acordei com uma alegria imensa talvez porque amanhã estou de partida até Lisboa, vou finalmente visitar as pessoas que considero como sendo da minha família, vou com o Martim à instituição onde cresci e isso é motivo mais do que suficiente para recarregar as baterias.
Estava a colocar a roupa do Martim na mala que iríamos levar quando vi a Patrícia a do meu lado a olhar-me.
- Posso falar contigo?
- Sim, diz - sentou-se na cama.
- Sabes o que se passa com o Ruben?
- Não.
- Ele anda estranho, vocês agora falam muito menos e o Nuno ontem comentou comigo que ele nos treinos anda desconcentrado, vais continuar a dizer que não sabes o que ele tem?
- Patrícia, não sei mesmo até porque o Ruben não fala comigo sobre isso, quando aqui vem trocamos algumas palavras mas nada como fazíamos num passado bem recente.
- Isso não te faz confusão? Não achas isso estranho?
- Sim faz-me confusão mas não o posso obrigar a falar até porque não lhe vou fazer algo que detesto que façam a mim, o Ruben sabe que se precisar de alguma coisa estou por aqui.
- Sinceramente acho que devias ir falar com ele.
- Patrícia já lhe perguntei diversas vezes o que tinha mas o Ruben foge sempre a essa conversa além disso deste que recusei o convite para jantar que ele se afastou.
- Nunca paraste para pensar no motivo?
- É mimado e não aceita uma nega - ela sorriu.
- Ou então não esperava que lhe negasses isso e ficou ressentido mas é demasiado orgulhoso para admitir.
- Então ele que enfie o orgulho num sítio que cá sei e faça bom proveito - ela gargalhou.
- Ai, ai vocês são os dois teimosos mas vou estar cá para ver qual dos dois vai ceder.
- Não se trata de ceder pelo menos da minha parte porque já tentei saber o que se passava mais do que uma vez, o Ruben é que não fala.
- Ok, não insisto mais mas devias tentar perceber o que se passa, ele não anda bem e isso é notório.
- Agora vai ser difícil perceber o que quer que seja - ela olhou-me - eles já foram para Lisboa e o Ruben já não regressa a Braga tão cedo.
- Mas vais a Lisboa, fala com ele não o deixes ir de férias sem terem uma última conversa.
- Patrícia é impressão minha ou está a escapar-me alguma coisa?
- O que achas que te anda a escapar?
- Sei lá mas que esta conversa está estranha lá isso está - ela sorriu.
- Faz-me só um favor - ela olhou-me e depois deu-me um papel para a mão - tens aí a morada do apartamento do Ruben se tiveres um tempinho tenta falar com ele antes que parta de férias.
- Mas passa-se alguma coisa que deva saber?
- Não mas fala com ele, tenta entender o motivo que o levou a afastar-se de nós.
- Patrícia se estás assim tão interessada pergunta-lhe.
- Achas que não fiz já isso, aliás eu e o Nuno mas o Ruben não fala, pode ser que contigo se abra.
- Duvido mas vou tentar - ela sorriu.
Ainda continuamos à conversa mas o momento de ir buscar o meu piolho à escola chegou e como seguíamos directos para Lisboa despedi-me da Patrícia e do Nuninho, bem como da D. Joana.

***

Chegamos a Lisboa e fomos diretos à casa da Letícia uma vez que além de ser lá que iríamos ficar o Martim também estava cheio de saudades da madrinha. As horas seguintes foram para colocarmos a conversa em dia sempre com o meu pequeno de volta de nós, por isso só depois de o ter deitado é que pudemos finalmente conversar sem interrupções.
- Agora que o puto já dorme quero saber se já encontraste um o bracarense que encha as tuas medidas - gargalhei ao ouvir tal disparate.
- Não mudas mesmo.
- Hey não comeces com essa conversa que não queres saber de gajo nenhum, que tens o Martim e isso para ti chega.
- Letícia não comeces sabes bem que não quero homem nenhum na minha vida.
- És tão casmurra mas isso também não é novidade afinal já te conheci assim.
- Por falar nisso amanhã vou à instituição não queres vir?
- Até ia mas tenho que trabalhar - ela sorriu - além disso não fui eu que resolvi ir para Braga e não meter os pés em Lisboa nos meses seguintes, ah e para que conste ainda ontem estive lá.
- Letícia sabes bem porquê que não regressei mais cedo mas isso não quer dizer que vos tenha esquecido ou abandonado.
- Deixa de ser toina sabes bem que só estava a implicar contigo - sorrimos - mas agora a sério ainda nenhum bracarense se encantou por ti?
- Que tenha dado por isso não - ela gargalhou - que foi?
- Não mudas mesmo já no tempo em que estávamos na instituição eras tapadinha, então quando saímos ficaste cega de vez, principalmente depois de teres o Martim.
- Sabes bem que o teu afilhado é tudo o que tenho de mais valioso na vida.
- Isso não te impede de pensares um pouco mais em ti.
- Letícia não tenho cabeça para namoros.
- A tua mãe continua a chatear-te?
- Não, acho que por agora desistiu, só não sei até quando.
- Amiga, esquece a tua mãe, ela por muito que tente nunca vai conseguir ficar com o Martim.
- Sabes que o facto de ter-se submetido à desintoxicação dá-lhe pontos a seu favor.
- Ya então e tudo o que fizeste pelo Martim ao longo de sete anos não conta queres ver? A vossa mãe até pode estar a lutar para ficar sóbria mas isso não é motivo para que consiga ficar com o Martim.
- Tenho medo - as lágrimas vieram-me aos olhos - só de pensar nisso até tremo.
- Hey, nem penses, isso não é hipótese além disso tens a guarda do Martim.
- Pois mas mesmo assim - ela não deixou que continuasse.
- Mesmo assim nada, nenhum juiz vai retirar-te a guarda do puto para o entregar a uma ex toxicodependente que já tem histórico de recaídas quando o menino contigo tem tudo o que precisa para ser uma criança feliz.
Teríamos continuado a falar mas fomos interrompidas pelo som do seu telemóvel, ela sorriu e não foi preciso dizer mais nada, sabia que era o seu namorado e por isso saí da sala com a desculpa de ir até à cozinha.

***

Acordei com o Martim aos pulos na minha cama improvisada no sofá da sala e depois de alguns momentos de brincadeiras só nossos acabamos por ir até à cozinha onde tomamos o pequeno-almoço na companhia da Letícia, ela entretanto saiu para ir trabalhar e nós fomos até à instituição, onde passamos o dia.
O Martim estava feliz por voltar a estar com alguns os seus amigos de Lisboa e ainda mais ficou quando recebeu a lembrança que as crianças lhe fizeram como prenda de anos, que apesar de atrasada deixou-o super animado e feliz.
Com o anoitecer chegou o momento das crianças jantarem, ajudei a dar a refeição e depois seguimos até à sala de convívio, foi quando estava a ler uma história que o meu irmão interrompeu.
- Mana quando é que vamos para casa? - olhei-o sem entender o motivo da pergunta afinal ele adora estar na instituição.
- Porquê tanta pressa?
- Mana o jogo do Braga tá a dar na televisão e eu quero ver - sorri ao ouvi-lo.
- Martim - o diretor da instituição chamou-o - desde quando é que és adepto do Braga? Não eras do Porto?
- E sou mas no Braga tenho dois amigos que jogam lá - as crianças não reagiram mas os adultos olharam-me talvez à espera que confirmasse tal coisa.
- Então e quem são esses amigos?
- Sr. João é o Ruben Amorim e o Nuno Gomes - o meu irmão respondeu todo orgulhoso.
- Isto é verdade? - o Sr. João e diretor da instituição perguntou-me talvez por saber a aversão que tenho ao futebol.
- Sim, é.
- Mas desde quando é que deixas o teu irmão se dar com jogadores de futebol? - perguntou a rir.
- Desde que um deles é o meu patrão.
- Explica lá isso melhor, se puderes lógico - sorri.
- Trabalho para o Nuno Gomes, foi ele e a Patrícia que acolheram-me em Braga e além de trabalho, casa, comida ainda deram-nos a sua amizade. O Ruben Amorim veio por acréscimo quando se mudou para Braga, ele é amigo e colega de Nuno, visita frequente lá em casa por isso o Martim acabou por criar laços com os dois.
- Por esta não esperava, tu que nunca gostaste de futebol vais trabalhar para a casa de um jogador.
- Trabalho para quem paga e depois tanto o Nuno como o Ruben são excelentes pessoas.
- O Nuno não sei, agora o Ruben posso corroborar o que acabaste de dizer.
- Como assim?
- O Ruben Amorim com o projeto de solidariedade dele já ajudou uma instituição que é gerida por um amigo meu, proporcionou um dia animado às crianças e deixou o pessoal da instituição em causa com muito boa impressão dele.
- Sim, o Ruben é cinco estrelas tal como o Nuno.
- Gostei de saber disso - sorriu - é bom ficar a saber que Braga te anda a fazer bem.
- Anda mesmo pelo menos lá esqueço certos problemas.
Continuamos a falar mas acabei por despedir-me das crianças uma vez que o Martim fez mesmo questão de ir para casa porque queria ver o jogo.
Vi o jogo sentada ao seu lado mas para ser sincera a minha cabeça estava noutro lado, mais concretamente em Braga porque durante os noventa minutos as palavras da Patrícia não saíram do meu pensamento, de facto o Ruben estava distraído e isso reflectiu-se no seu jogo, foi após o apito sinal que tomei a decisão de tentar falar com ele, nem que para isso fosse montar guarda à porta do seu apartamento.
Deitei o meu irmão e fiquei à espera da Letícia, contei-lhe o que foi o meu dia e pedi-lhe para ficar com o Martim no dia seguinte uma vez que tinha algo para resolver mas não o queria levar comigo, ela aceitou na hora até porque assim passava umas horas com o seu afilhado e depois de combinar as cenas com ela fui deitar-me.

Será que a Mariana fala com o Ruben? E o que terá acontecido para ele se afastar?

terça-feira, 29 de maio de 2012

018 - “Mas se gostasse de um rapaz e que esse rapaz te apoiasse na luta constante que é criar uma criança não serias capaz de deixá-lo entrar na tua vida e na do Martim?”

Ruben

Quando saí do quarto a ideia era desaparecer daquela casa não estava a conseguir respirar mais aquele ar, precisava de arejar as ideias mas antes de sair senti a necessidade de confirmar que estava tudo terminado, não sei porquê mas senti que o tinha de fazer para conseguir seguir em frente. Lógico que acabei por trocar mais umas palavras com a Soraia que só serviram para ter consciência que agora sim era mesmo o fim.
Saí de casa e assim que entrei no carro conduzi para o meu porto de abrigo, aquele que sabia que iria estar sempre à minha espera por mais cansada que estivesse nunca iria negar socorro.
Estacionei em frente à casa do Nuno, ainda pensei entrar mas acabei por optar por mandar uma mensagem à Mariana a pedir que viesse ter comigo, ela tentou convencer-me a entrar mas insisti no contrário, queria e precisava de falar muito com ela mas não queria que os nossos amigos percebem-se o que estava a passar, pelo menos para já.
O tempo que esperei por ela deu para pensar novamente nas palavras da minha mãe que faziam cada vez mais sentido, a verdade é que sempre que penso na Mariana é impossível não sorrir, aquela rapariga deixa-me a levitar completamente com tão pouco, muitas vezes basta um sorriso ou uma palavra.
Estava a desesperar quando a vi a sair, não consegui esperar muito mais e saí do carro, precisava urgentemente de vê-la, senti-la e até mesmo de ouvi-la a dar-me na cabeça, tê-la diante de mim verdadeiramente preocupada deu-me a uma tranquilidade estranha, acabei por arrastá-la comigo, tinha de deitar cá para fora a confusão que ia na minha cabeça mas principalmente no meu coração.
Conduzi até ao Bom Jesus, percebi que estava a observar-me e por isso perguntei o que se passava, iniciamos dessa forma uma longa conversa que sem entender passou da Soraia e do fim do relacionamento para a confusão de sentimentos, neste momento ainda não consigo entender aquilo que sinto pela Mariana mas acredito que esteja mesmo a caminhar para algo mais forte, o que deixa-me assustado, não quero perdê-la mas não sei até quando vou conseguir guardar isto só para mim, até porque no meio da conversa dei comigo a tentar fazê-la entender que talvez o motivo para estar desorientado é mesmo ela, mas a Mariana não percebeu e por isso resolvi mudar de assunto, fomos caminhando enquanto falávamos mas quando vi um jardim não pensei em mais nada que não puxá-la, sabia o quanto adora deitar-se na relva e ficar simplesmente a olhar o céu, que por sinal hoje estava lindo, todo estrelado.
A ideia era fazê-la parar mas quando a puxei a distância que nos separava reduziu a quase nada, confesso que por momentos perdi-me a olhá-la e a vontade de finalmente beijar os seus lábios consumiu-me, perdi todo e qualquer discernimento e reduzi ainda mais o espaço que nos separava, ela não se mexeu, acho que estava a ver até onde iria e confesso que a razão venceu, acabei por desviar as nossas caras no último instante, beijei-a na bochecha e por fim falei-lhe ao ouvido.
- O que está a apetecer-me é deitar-me naquela relva e ficar a olhar as estrelas – ela gargalhou e sem que estivesse à espera retribuiu-o o beijo para puxar-me logo depois.
- Então vamos – ela deitou-se sem qualquer problema – que foi? Não querias olhar as estrelas?
- Querer até queria mas – ela sorriu – faz-me uma certa confusão deitar-me assim num sítio sem saber se está limpo – ela gargalhou – o que foi?
- Deixa de ser menino, Ruben não vejo muito futebol mas quando vejo é pela televisão e são mais as vezes que vocês cospem para o chão do que as que não o fazem, aí não tens problemas em caíres em cima da relva – acompanhei-a na gargalhada.
- É, talvez tenhas razão e estou mesmo a ser menino mas o que queres faz-me confusão – ela olhou-me.
- Ok, então ajuda-me a levantar – ela esticou os braços e por isso agarrei-lhe nas mãos a pensar que queria ajuda mas o que ia no pensamento da Mariana não era isso mas sim obrigar-me a deitar, ela puxou-me o que fez com que desequilibrasse, resultado caí redondo em cima dela, a Mariana ria às gargalhadas talvez pela cara que fiz.
- Achas piada, é? – perguntei já minimamente recomposto e escarranchado em cima das suas pernas.
- Confesso que teve – voltou a gargalhar – não sei como é que ainda calhas em todas.
- Talvez porque confio em ti, não?
- Oh tadinho dele – ela estava a apertar-me as bochechas – tão inocente que o menino é.
- Vai gozar com outro – fiz cara de amuado o que resultou numa nova gargalhada dela.
- O que foi? – perguntou ao ver-me a olhá-la fixamente.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- Sim.
- Já namoraste alguma vez? – ela olhou-me.
- Outra vez esta conversa, não te chegou naquele dia no teu quarto?
- Tal como naquele dia hoje estás novamente a fugir à pergunta.
- Mas afinal o que queres? Primeiro insinuas que posso ser virgem e agora vens com esta do namorado? Só falta dizeres que tencionas ser o meu primeiro em tudo – falou ironicamente.
- Isso quer dizer que estou correto?
- Não, quer dizer que estás a abusar, será assim tão complicado entenderes que não quero falar disso, que não tens nada que saber, que é a minha intimidade e como tal não a quero partilhar com o mundo.
- Não sou o mundo, sou teu amigo.
- Por isso mesmo, és só meu amigo, ainda se fosses algo mais até compreendia essa curiosidade, agora assim não entendo.
- Gostava de perceber se o Martim tem razão quando afirma que nunca te viu aos beijinhos com ninguém.
- E não viu mesmo, sempre protegi o meu irmão logo como é óbvio nunca levei ninguém para dentro de casa e muito menos lhe apresentei algum namorado, mas isso não quer dizer que não tenha tido os meus namoros.
- Posso ser sincero?
- Diz – por esta altura já estava deitado ao seu lado mas como queria ver a sua reação virei-me de lado para que conseguisse olhá-la nos olhos, deixei mesmo o meu braço passar por cima da sua barriga – é impressão minha ou estás com medo que fuja? – gargalhei afinal da forma como tinha o braço ela não conseguiria levantar-se.
- Nunca se sabe – sorri – mas o que queria dizer é que – hesitei ao olhá-la – naquele dia no meu quarto – os olhos dela estavam presos aos meus – quando quase nos beijamos a sensação que tive foi que nunca tinhas estado tão próxima de um rapaz como estás de mim – ela nada falou continuava a olhar-me – e depois teres pedido para esquecer que quase nos beijamos, que só não aconteceu porque desviaste a cara no último instante só faz com que pense que estou correto.
- Mas não estás – respondeu serenamente – aliás já te falei do Bruno.
- Falaste mas sinceramente não consegui entender se algum dia foram mais do que amigos, podias gostar dele mas daí a ter acontecido alguma coisa.
- Afinal o que queres? – não lhe respondi, fiquei simplesmente a fintá-la com o olhar – Não acreditas mesmo em mim, pois não?
- Fica difícil quando sei que foges dos rapazes – ela sorriu – que foi?
- Não fujo dos rapazes mas sim dos problemas.
- Agora não entendi – ela olhou-me de uma forma que nunca tinha olhado e a intensidade com que o fazia deixou-me atordoado.
- Rapazes, é sinónimo de problemas, tal como nós raparigas também o somos. Ruben por muito que possa gostar ou sentir-me atraída por alguém irei pensar sempre primeiro no Martim e na estabilidade dele.
- Mas se gostasse de um rapaz e que esse rapaz te apoiasse na luta constante que é criar uma criança não serias capaz de deixá-lo entrar na tua vida e na do Martim?
- Talvez não sei responder a isso porque foi algo que nunca aconteceu – falou com alguma mágoa.
- Queres falar sobre isso? - voltei a deitar-me na relva mas ainda assim fiquei a olhá-la.
- Ruben por norma os rapazes fogem a sete pés quando sabem que tenho uma criança em casa.
- É porque ainda não encontraste alguém que te ame verdadeiramente, não acredito que o Martim seja impedimento para nada, muito menos para namorares e quem sabe um dia constituíres família.
- Sinceramente casar e ter filhos não faz parte dos meus planos para os próximos anos, além disso prefiro levar um dia de cada vez, se esse amor aparecer não irei virar costas mas também não vou andar desesperada à procura dele, a vida já ensinou-me que o que é meu à minha mão vem parar, que não adianta andar a correr e a saltar de cama em cama porque não é assim que vou ser feliz.
- É isso que admiro em ti, a forma como encaras a vida, o facto de ficares feliz com tão pouco e desde que vejas o teu irmão bem para ti está perfeito.
- Sabes que quando se experimenta as duas realidades fica muito mais fácil de escolhermos aquela que queremos, é verdade que podia ter escolhido o caminho mais fácil, podia ter-me revoltado e desgraçado com o que sobrava da minha vida mas tive a sorte de ainda em criança ter pessoas fantásticas na instituição que ensinaram o que é o certo e o errado, que nos amaram como se fossemos filhos delas, que de uma forma ou de outra lutaram connosco, que vibram com as nossas conquistas mas que também sofrem quando alguma coisa não corre bem, foi na instituição que aprendi que temos sempre duas ou mais opções de escolha, só temos que aprender a identificá-las, foi isso que fiz quando tive que sair da instituição, preferi continuar no mesmo caminho em vez de seguir para aquele que à partida seria o mais fácil e o mais cool na cabeça de muita gente que anda por este mundo, aquele em que se não fumasse não era fixe ou aquele em que se diz “é só uma vez não fico agarrado” convivi de perto com o mundo da droga e da decadência talvez por isso sei que quem entra dificilmente sai e os que conseguem ficam eternamente rotulados, não quis isso para mim e daí ter escolhido o caminho com mais pedras e buracos mas ainda assim o correto.
- Continuas a manter contato com as pessoas da instituição onde estiveste?
- Sim, aliás foram essas pessoas que ajudaram-me quando descobri que iria ter um irmão e que decidi lutar por ele.
- Não tens saudades de estares com essas pessoas?
- Tenho, aliás quero ir a Lisboa brevemente para visitar a instituição mas principalmente as pessoas que fazem parte da minha vida.
- Vais levar o Martim?
- Sim, porquê?
- Curiosidade.
- Então e tu?
- Eu o quê?
- Então o campeonato não está a terminar?
- Ya daqui a duas semanas.
- Isso quer dizer que regressas para Lisboa?
- Porquê que queres saber?
- Curiosidade - ela sorriu.
- Hum, então para que não fiques curiosa fica a saber que ainda vais aturar-me pelo menos mais uma época, o meu empréstimo ao Braga foi por época e meia.
- Mas vais de férias, certo?
- Sim, daqui a duas semanas regresso a Lisboa, fico por lá uns dias mas depois faço as malas e vou viajar ainda só não sei qual será o destino.
- Ou seja só nos voltamos a ver lá para Julho, certo?
- Errado - sorri - nem penses que te vês livre de mim assim tão facilmente, primeiro o Braga regressa aos trabalhos ainda em Junho e depois não tenciono estar tanto tempo longe de ti, começas a ser imprescindível - ela olhou-me - para mim - sorriu - sabes é que tenho de ter alguém para dar-me na cabeça ou então descarrilo completamente - gargalhou.
- Deixa de ser parvo porque tens cabeça para pensar por ti e além disso não és como a maioria que só tem mania que porque são jogadores e ganham balúrdios podem tudo - sorri ao ouvi-la - o que foi?
- É bom ouvir-te dizer isso, finalmente reconheces que não sou nada do que pensavas.
- Nunca tive problemas em reconhecer quando erro, não sou perfeita, também tenho falhas mas sempre que percebo que errei admito-o e sim contigo errei, julguei-te pelo estereótipo sem tentar conhecer-te primeiro mas ainda bem que insististe - ela sorriu - porque caso contrário não teria conhecido mais um amigo.
Não respondi estava perdido a olhá-la, ela fixou as estrelas e estava ainda mais bonita, a Mariana consegue tornar algo tão simples como olhar as estrela num momento único de partilha sincera e verdadeira.
Ficámos no silêncio e só abandonei os meus pensamentos quando ela falou, a Mariana avisou-me que já era tardíssimo e que amanhã tínhamos que levantar cedo, sorri mas acabei de concordar com ela, levantei-me e dei-lhe a mão para ajudá-la, caminhamos lado a lado até ao carro e sempre calados.
- O que tens? - perguntei quando já estávamos no carro e de regresso à casa do Nuno.
- Nada.
- Então porquê que estás tão calada?
- Ah isso - sorriu - deu-me para a nostalgia - suspirou.
- Então linda?
- Oh tenho saudades de estar com os meus pequenos, já não vou à instituição à imenso tempo.
- Sabes que isso resolve-se - ela olhou-me - Braga a Lisboa não é assim tão longe, porquê que não falas com a Patrícia e pede-lhes uns dias para ires até à capital.
- Porque tenho o meu irmão e a ir quero levá-lo.
- Então vai no fim-de-semana.
- Não posso o Martim tem uma festa de aniversário de um amiguinho.
- Hum, então e no fim-de-semana seguinte tens alguma coisa marcada?
- Não, porquê?
- Então passas a ter - ela olhou-me - o último jogo do Braga é em Lisboa por isso é uma ótima oportunidade para ires até à capital de certeza que a Patrícia também vai e assim até fazem companhia uma à outra.
- Até é uma boa ideia - ela sorriu - amanhã falo com a Patrícia - a Mariana ficou animada o que deixou-me feliz.
- Mesmo que ela não vá, podes sempre ir.
- É tens razão - sorriu - mas tenho de ver isso porque se não puder ficar na casa da madrinha do Martim preciso de alugar um quarto para mim e ele.
- Deves estar maluquinha, só pode - olhou-me - caso não te recordes tenho casa em Lisboa, além disso duvido que a Patrícia e o Nuno te deixem ir alugar um quarto quando também eles têm sitio onde possas ficar com o teu irmão.
- Não quero incomodar.
- Ai de ti que repitas tal coisa - olhei-a - era só o que faltava com sítio para ficarem e terem que ir alugar um quarto, ficas no meu apartamento e não se fala mais nisso.
- Nem penses, não vou para o teu apartamento sem que lá estejas - gargalhei - que foi?
- Vais dizer que tens medo de ficar sozinha, é?
- Não mas é abuso.
- Qual abuso qual quê, ficas lá e está decidido, além disso o jogo é no sábado por isso vais ter companhia.
- Não sei, tenho de pensar.
- Ok, daqui a uns dias voltamos a falar.
Continuamos à conversa mas o momento da despedida chegou, a Mariana deu-me um beijo no rosto e saiu do carro, fiquei à espera que entrasse e só depois fui embora.
Cheguei a casa e estava um silêncio enorme mas como não tinha sono fiquei pela sala, liguei a TV e comecei a ver um filme, foi quando já ia a meio que a minha mãe apareceu na sala ensonada.
- Já chegaste? -sorri
- Parece que sim a menos que julgue estar a sonhar.
- Isso é que é boa disposição, eu a pensar que te iria encontrar mal e afinal estás feliz.
- Mãe não estou feliz mas também não vou ficar a chorar pelos cantos.
- Filho, onde é que estiveste até a esta hora?
- Por aí.
- Com a Mariana queres tu dizer - olhei-a - e nem adianta negares porque liguei para a casa do Nuno a perguntar se estavas lá e fiquei a saber que não mas que a Mariana tinha saído sem dar grandes justificações, não foi difícil adivinharmos que deviam estar juntos - suspirei - Ruben afinal o que é que queres?
- Mãe, não vai começar novamente com a conversa de que tenho alguma coisa com ela, pois não?
- Nunca falei que tinham alguma coisa mas sim que ela não te é indiferente.
- Não estou com paciência para ouvi-la, já chegou à hora de almoço.
- Ruben, admite que tenho razão, até a Soraia percebeu isso.
- É verdade onde é que ela está?
- Foi embora, preferiu ficar num hotel e amanhã segue para Lisboa.
- Ah.
- Ruben, pelo menos podias demonstrar um pouco mais de compaixão por ela, vocês estiveram para se casarem, lá porque deixaste de amá-la não quer dizer que tenhas de lhe virar as costas dessa forma.
- Mãe, ela é que quis que as coisas fossem assim.
- Ruben Filipe deixa de ser criança e assume do uma vez o que sentes, nem que seja com um “não sei mãe, estou confuso” agora não digas que é só amizade, porque se fosse não tinhas ido a correr ter com a rapariga e feito com que saísse de casa sem dar grandes explicações, já para não falar que chegaste a esta hora da madrugada.
- Sim, fui ter com a Mariana porque precisava de falar mas principalmente de perceber o que sinto e se quer saber sim estou confuso, sim a vontade que tenho em beijá-la, abraça-la, dizer-lhe que mexe comigo é muita mas isso nunca vai acontecer porque não quero perder a amizade dela, pronto já admiti e agora deixe-me em paz - levantei-me com a intenção de sair mas a minha mãe travou-me ao agarrar na minha mão e ao falar.
- Filho, se estás confuso porquê que insististe em levar o casamento para a frente? Porquê que não foste sincero com a Soraia mas principalmente contigo?
- Porque só hoje é que percebi que não sei aquilo que sinto pela Mariana - sentei-me no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos a taparem a cara - mãe, depois da nossa conversa as suas palavras não saíram mais do meu pensamento, andei a tarde toda a pensar nisso, quando a Soraia chegou quis fazer amor comigo mas não consegui, era ela que estava deitada do meu lado mas era a Mariana que estava na minha cabeça, acabei por sair, andei por aí sozinho e quando regressei a Soraia foi ter comigo, acabei por envolver-me com ela mas terminou da pior forma, mãe pela primeira vez não senti nada, a Soraia atirou-me à cara e com muita razão que o que tínhamos feito não foi amor mas sim sexo, doeu ouvir isso talvez porque foi de facto o que aconteceu, até o nome dela troquei, chamei-a de Mariana.
- Ruben, o que é que se passou depois de saíres daqui de casa? - olhei-a -  Porquê que só chegaste a esta hora?
- Estive este tempo todo com a Mariana mas se está a insinuar que fiz alguma coisa pode tirar daí a ideia, não me envolvi com ela nem o vou fazer.
- Será que não?
- Não mãe, a Mariana não sente o mesmo, além disso prefiro tê-la como amiga do que não ter nada.
- Já lhe disseste o que estás a sentir?
- Não.
- Então como é que sabes que ela não sente o mesmo?
- Porque a conheço, mãe a Mariana é transparente, quando gosta não consegue disfarçar e o que sente por mim é só amizade, além disso como é que vou-lhe dizer que gosto dela se nem eu sei aquilo que sinto.
- Filho se queres um conselho aproveita as férias que estão cada vez mais próximas para afastares-te dela, tens que perceber o que sentes e a continuares a conviver diariamente com a Mariana não ajuda, estás confuso e cada vez ficas mais.
- Não se preocupe porque já tinha decidido ir de férias sozinho, lógico que não seria tanto tempo porque tinha a Soraia mas agora vou prolongá-las ao máximo.
A minha mãe concordou comigo e depois acabei por ir deitar-me, estava a precisar dormir.

Anabela

Esta noite mal dormir e por isso acordei cansada ainda assim levantei-me e fui preparar o pequeno-almoço para os meus filhos.
- Bom dia mãe - o Mauro cumprimentou-me assim que entrou na cozinha - sabe se o mano já regressou?
- Já, chegou de madrugada.
- Onde é que ele andou?
- Mariana diz-te alguma coisa?
- Só podia, o mano anda todo queimado, não sabe o que fazer e só faz porcaria.
- Não julgues o teu irmão e muito menos mandes piadas, deixa-o sossegado.
- Tudo bem.
Continuamos a falar mas o Ruben entrou com uma cara de sono que até metia dó, o Mauro ainda meteu-se com ele mas o irmão não lhe respondeu, limitou-se a sentar e a comer.
- Então puto não falas nada?
- Mauro, estou com pressa e sem disposição para as tuas brincadeiras - ripostou.
- Ok, tem lá calma.
O Ruben não respondeu e mal acabou de comer saiu para o treino, já o Mauro decidiu ficar por casa sem fazer nenhum, estava na sala a ver um filme quando o fui avisar que iria sair, precisava de tirar uma dúvida que estava a consumir-me por dentro e não queria regressar a Lisboa com ela.
Conduzi até à casa do Nuno e quem veio abrir a porta foi a Mariana, com ela vinha o Nuninho, o menino estava todo contente ao colo dela.
- Bom dia D. Anabela - cumprimentou-me educadamente.
- Bom dia.
- Entre mas a Patrícia e o Nuno já saíram - sorri-lhe.
- É mesmo consigo que quero falar.
- Precisa de alguma coisa? - perguntou quando já estávamos na sala.
- Gostava de fazer-lhe uma pergunta do foro pessoal – olhei-a – só responde se quiser.
- Pode fazer a pergunta mas digo-lhe já que duvido que tenha resposta - sorri ao vê-la já na defensiva.
- É sempre tão direta?
- Sim, não gosto de fingir o que não sou, como não gosto de pessoas a quererem saber mais do que devem.
- Mais direta que isso não podia ser.
- Há assuntos dos quais não gosto de falar e muito menos que se metam neles, mas diga lá o que quer saber que se puder respondo.
- Desculpa se estou a incomodar mas o meu coração de mãe está a falar mais alto e tenho mesmo que perguntar – voltei a olhá-la e mesmo sem que perguntasse respondeu.
- D. Anabela, pode sossegar o seu coração de mãe, sei bem qual é o meu lugar e até onde é que posso ir, não se preocupe que não vai ter que lidar com a vergonha de ter uma empregada doméstica no caminho do seu filho mesmo que seja algo passageiro. Posso não ter tido acesso à mesma educação que você lhe deve ter dado mas não é por isso que não tenho princípios. É certo que empregada é para servir os seus patrões e convidados mas recuso-me a fazer certos e determinados serviços, se os querem que vão procura-los a outro lugar que não sou objeto para andar de mão em mão e muito menos de consolo, prefiro passar fome do que humilhar-me a esse ponto – estava surpreendida, ela foi mesmo direta ao assunto – espero que tenha sido esclarecedora o suficiente para lhe sossegar o coração de mãe.
- Desculpe se ofendi, Mariana não era isso que pretendia e nem estava a colocar as coisas nesses termos.
- D. Anabela, não precisa justificar-se e muito menos tentar-se redimir. Sei o que é preocupação de mãe e o que somos capazes para defender os nossos filhos, o Martim é meu irmão mas para mim é como se fosse filho, aliás só não o carreguei dentro de mim porque de resto fui e sou a única mãe que ele conhece. Em relação ao Ruben, não se preocupe que não faço intenções de servir de distração para que o menino não pense no fim do namoro e muito menos de lhe passar a mão pelo pêlo, ele tem é que aprender a lidar com as consequências dos seus atos, deixar de ser criança e assumir de uma vez o que se passa, só assim é que vai encontrar o caminho dele.
- Sabe o que se passa? - perguntei
- O Ruben falou comigo mas se quer saber pergunte-lhe a ele.
- Mariana, sei o que se passa - ela olhou-me - o meu filho ontem quando chegou a casa depois de deixa-la aqui esteve a falar comigo.
- Então se sabe porquê que veio chatear-me a cabeça? Não fiz nem vou fazer nada e muito menos sou a responsável pelo fim do noivado - sorri disfarçadamente, afinal não é só o meu filho que não enxergava o que sente por ela, a Mariana também ainda não percebeu o que na realidade se passa.
- Desculpe a pergunta mas o que é que sente pelo meu filho?
- Amizade, mas porquê?
- Porque a cumplicidade que têm é enorme.
- Se está a insinuar que estou apaixonada pelo Ruben pode tirar daí a ideia, não estou, quanto a envolver-me com ele está fora de questão respeito-me demasiado a mim mesma para conseguir deitar-me com alguém só porque sim.
- Obrigada por teres sido direta.
- Não finjo ser quem não sou, esta é a minha forma de ser, direta e honesta.
- Calculo que já te deve ter dado problemas, é que isto de dizer tudo o que vem à cabeça nem sempre dá bom resultado.
- Desculpe, mas não considero que digo tudo o que vem à cabeça, só não tolero que façam de mim algo que não sou.
- Nunca quis ofendê-la mas confesso que precisava de ter esta conversa.
- Não ofendeu, muito pelo contrário preferi ter esta conversa em fez de não a ter.
- Posso saber porquê?
- Pode, deu-me a oportunidade de esclarecer as suas dúvidas, não ficou só com os juízos de valores que fez, preferiu ouvir o meu lado em vez de julgar-me sem saber ou pelo menos ter tido a oportunidade de ouvir a verdade - ela olhou-me - agora se acredita ou não no que lhe disse já não sei mas sinceramente também é-me indiferente.
- Provavelmente não irá fazer muita diferença mas acredito em si, há algo na forma como fala que transmite-me sinceridade, não foge às questões por muito que sejam impertinentes, fala sem medo ou receio de ser mal interpretada e isso normalmente acontece quando temos certezas do que dizemos, ou seja, quando falamos a verdade.
- Não tenho motivos para mentir, tenho a consciência tranquila, nunca fiz nada que não devia nem tenciono fazer mas daí a afastar-me de alguém que considero amigo só porque existe pessoas mesquinhas e que não conseguem distinguir a cumplicidade da amizade da de um relacionamento físico entre um homem e uma mulher a história é outra.
Continuei à conversa com a Mariana e acabei por acompanhá-la até à cozinha, a rapariga tinha que ir fazer o almoço e como estava a gostar bastante de ouvi-la aceitei o seu convite para acompanhá-la, isto se quisesse continuar a jogar conversa fora.
Estava sentada numa das cadeiras quando inesperadamente vi o meu filho a entrar na cozinha mas ao contrário de mim que o vi, o Ruben pensou que a Mariana estivesse sozinha e por isso chegou junto dela e abraçou-a, lógico que ela mandou logo uma rebocada o que fez o Ruben olhá-la.
- Acordaste com os pés do lado de fora, foi?
- Não, diz antes que tiveram pouco tempo tapados porque um certo menino fez-me ficar acordada até às tantas - sorri.
- Vais dizer que não gostaste da companhia.
- Ah, eu gostei, já os meus ouvidos não podem dizer o mesmo - desta gargalhei o que fez o meu filho olhar para trás.
- Mãe?
- Sim, filho.
- O que é que está aqui a fazer?
- Vim falar com a Mariana - ele olhou-a.
- Como assim? - percebi que o meu filho estava com receio do teor da conversa que tive com a Mariana e teria dito qual tinha sido mas ela antecipou-se.

O que irá dizer a Mariana? Será que o Ruben se vai chatear?