terça-feira, 30 de julho de 2013

075 - “escola da vida”

Ruben
A tarde estava a ser animada com muita brincadeira à mistura mas ainda tínhamos reservada uma pequena surpresa para o Martim, já que não fazia a mínima ideia que ainda faltava uma convidada, afinal até a mim a Mariana surpreendeu-me no dia que pediu para que entrasse em contato com o Paulo de forma a saber se seria possível a presença da Kika, nem que fosse só por um bocadinho, no aniversário do Martim.
O Paulo ao início mostrou-se reticente, até porque a Kika ainda precisa de ter muitos cuidados, mas depois de falar com a Filipa, ligou a avisar que trariam a menina durante um bocadinho, para cantar os parabéns ao Martim.
Apesar da Mariana o ter feito pelo Martim sei que estava a custar-lhe, afinal ia novamente reencontrar-se com quem não faz questão. Estava agora a dar mimo à grávida mais linda quando vi a entrar na sala a Kika acompanhada pelo pais, a menina assim que nos viu veio a correr abraçar-se à Mariana.
- Tinha saudades tuas! – atirou imediatamente – Porquê que nunca mais foste ver-me? - a menina queria respostas e isso foi evidente mas a sorte esteve do lado da Mariana uma vez que o Martim apareceu e a Kika esqueceu o assunto.
- Boa tarde! – levantei-me para cumprimentar os pais da Kika que retribuíram.
- Olá… - a Mariana falou e um momento estranho se seguiu uma vez que a Filipa a cumprimentou com dois beijinhos, gesto que o Paulo também repetiu, aquilo mexeu com o meu amor, tanto que se desculpou com o fato de ter que olhar pelas crianças para se afastar.
***
O Martim exigiu que tanto a Mariana como eu, estivéssemos do seu lado no momento em que cantamos os parabéns, o menino soprou as velas e depois ajudou na distribuição do bolo para logo depois se “perder” a desembrulhar os presentes recebidos. A festa estava a terminar e para desconforto da Mariana os pais da Kika deixaram-se ficar, já que a menina continuava na brincadeira com o Martim. Fomos “obrigados” a fazer “sala” aos convidados o que estava cada vez a incomodar mais a Mariana.

Paulo
O convite de Ruben para que levássemos a Kika ao aniversário do Martim surpreendeu, não por quererem a presença da minha menina mas sim por o convite ser extensível a nós, talvez por terem noção que não iriamos deixar a nossa pequena sozinha por ainda estar em recuperação e ter que ser vigiada permanentemente.
Acabamos por aceitar o convite, ainda assim avisei que iriamos mais tarde para a menina não se cansar tanto, algo que o Ruben compreendeu. O dia da festa chegou e mais uma vez tive a certeza que a minha presença incomoda a Mariana ou não fosse afastar-se sempre que lhe era possível.
A festa terminou, mas nós ficamos mais um pouco, porque a Kika brincava alegremente com o Martim, foi quando os adultos mantinham uma conversa de circunstância que as crianças se aproximaram.
- Oh mana a Kika não acredita que tens um bebé na barriga – falou aborrecido o que nos fez a Mariana sorrir – diz que os bebés não saem da barriga das mães! – confesso que a curiosidade em saber como lidaria a Mariana com o assunto fez-me ficar atento.
- Kika – a Mariana chamou-a e a menina ao aproximar-se acabou sentada ao seu colo – o Martim tem razão, tenho mesmo um bebé na minha barriga.
- Como é que isso aconteceu? – perguntou confusa, talvez porque da única vez que tentou abordar o assunto comigo e com a Filipa lhe contamos a história da cegonha.
- Pois mana eu também não sei... – o Martim sentou-se ao colo do Ruben à espera que a irmã o esclarecesse.
- É simples – a forma tão serena como a Mariana olhava para os pequenos só me deixou ainda mais curioso para ouvir o que tinha a dizer e não fui o único, já que os adultos presentes na sala fizeram silêncio – quando dois adultos gostam muito um do outro, como nós – olhou para o Ruben sorrindo e que sorriso lindo, aquele sorriso... por momento reconheci-o mas só podia ser a minha memória a trair-me – chega uma altura que queremos mais do que uns beijinhos, a isso chama-se fazer amor e quando o fazemos a mulher pode engravidar, isso acontece porque há a libertação de umas sementinhas por parte do homem que a mulher recebe e que pode ou não resultar num bebé.
- Mas de onde aparece as sementinhas? – o Martim perguntou imediatamente, estava curioso. Olhei para a Filipa e percebi que estava incomodada, talvez porque no fundo deveria ser ela a ter esta conversa com a nossa filha e não uma quase estranha.
- Da pilinha – a Mariana respondeu com uma naturalidade tremenda, parecia que não o fazia pela primeira vez.
- Então eu também tenho essas sementinhas?
- Ainda não... só quando fores mais crescido – esclareceu o menino.
- E como é que as mulheres recebem? – desta foi a Kika, o que surpreendeu-me a mim e à Filipa.
- É pelo pipi mana? – a pergunta do Martim surpreendeu mas o menino esclareceu imediatamente – se nós é por onde fazemos xixi as mulheres também deve ser...
- Sim, tens razão!
- Mas mana como é que essas sementinhas passam do homem para a mulher?
- Quando crescemos e encontramos a pessoa de quem gostamos muito descobrimos que a pilinha e o pipi se completam e quando isso acontece as sementinhas passam de um lado para o outro – estava cada vez mais fascinado com o momento que estava a presenciar, a Mariana estava a dar-me uma tremenda lição do que é educar uma criança com base na verdade adaptada à capacidade de perceber dos miúdos.
- Mana tás a dizer que a pilinha entra no pipi? – o menino estava confuso e isso notou-se na cara que fez.
- Sim – a Mariana respondeu tranquilamente.
- Ahhhhhhhhhh – o menino levou a mão à boca como se tivesse feito uma grande descoberta – é por isso que na televisão a gente vê o homem e a mulher na cama e sem roupa e depois aparece os bebés.
- Sim, é isso!
- Ah tá bem! – o Martim ficou esclarecido tanto que se virou para a Kika – anda vamos brincar.
Assim que se afastaram e quando ainda estava a assimilar tudo o que tinha presenciado, a forma como uma jovem que se encontra neste momento grávida do seu primeiro filho, já aprendeu o que é ser mãe, ouvi o Mauro a meter-se com a cunhada.
- Oh Madalena acertamos em cheio na escolha da madrinha para o Rafael, assim quando o puto começar com as dúvidas existenciais mandamo-lo perguntar à madrinha! – com a saída do Mauro acabamos por nos rimos à exceção da Mariana.
- Quando foi para explicar calaram-se todos mas agora já riem! Mas terei todo o gosto em esclarecer o meu afilhado, já que o pai dele não será capaz de o fazer... menino! – a Mariana ripostou animadamente.
- Para quê que vou estar a passar pela vergonha de explicar isso se és pró no assunto!
- É... nisso tenho que concordar – o Ruben meteu-se na conversa – a Mariana é mesmo pró em muita coisa e a principal delas todas é em ser mãe – levou a mão à barriga da mulher, num gesto de carinho que fez a Mariana sorrir enternecida – e esposa, companheira, amiga,... – a rapariga ficou envergonhada o que fez com que sorríssemos todos, é inegável o tamanho do amor que os une, estava perdido em pensamentos quando a voz da Filipa despertou-me.
- Mariana – a rapariga olhou-a – o Martim é o único irmão que tens?
- Sim...  – a Mariana olhou o Ruben por segundos - mas porquê?
- Ah... é a forma como abordaste o assunto, o teu à vontade, a forma como explicaste às crianças como se fazem os bebés, deu-me a sensação que não foi a primeira vez que o fizeste, afinal fizeste o que sinceramente não consegui fazer quando a Kika perguntou como os bebés apareciam...
- Tem razão... não foi mesmo a primeira vez que abordei o assunto com crianças – a Mariana por instantes pareceu ficar incomodada algo que a Filipa não deve ter percebido porque voltou a questioná-la.
- E posso saber onde leste sobre o assunto, é que notou-se que estudaste o assunto – o olhar da Mariana alterou por completo, antes desta abordagem da Filipa o brilho era de felicidade mas no fim era de mágoa ou não fosse o seu olhar ficar “vidrado” não a conheço muito bem mas arrisco dizer que fez um enorme esforço para não deixar as lágrimas cair, se já tinha essa impressão quando a Mariana começou a falar tive certezas.
- Não li... existe algo chamado a “escola da vida”, foi assim que aprendi, sabe que crescer numa instituição onde os mais velhos são os pais dos mais novos não trás só coisas más, dá-nos uma bagagem para a vida, foi lá que aprendi muito do que sei hoje – o Ruben olhava-a atento, parecia ter medo que a sua mulher fosse quebrar a qualquer momento - foi a ouvir o que os mais velhos tinham a dizer e depois a transmitir aos mais novos que aprendi a dialogar com as crianças, a falar a mesma linguagem que eles, a compreendê-los, afinal tínhamos todos o mesmo em comum, uma vida sem a presença dos pais – olhou-me por segundos o que fez-me arrepiar - sem ninguém para contar a historia da cegonha, descobrimos que fomos simplesmente o resultado de um encontro falhado entre uma pilinha e um pipi – a Mariana falava com uma mágoa tremenda – foi por ter esta noção desde muito cedo que recuso-me a inventar historinhas de encantar para explicar o que por incompetência os adultos por norma não conseguem fazer, prefiro milhões de vezes passar por situações embaraçosas do que recorrer a mentiras para responder às dúvidas do meu irmão, porque só assim o Martim irá crescer a saber o que é certo do que é errado, que há consequências em tudo que fazemos, até na forma como usamos o que temos entre as pernas, porque garanto que a última coisa que gostaria de ver é o Martim a fazer o mesmo que no passado um canalha fez àquela que me pariu, a divertir-se com uma miúda e depois a abandoná-la com um filho na barriga, porque isso é meio caminho andado para esse ser inocente ter uma infância infeliz, passar fome, ser maltratado e desprezado.
A Mariana falava quase sem parar para respirar e pela reação dos presentes, só o Ruben é que já sabia, mas a certeza que a Mariana não falava de algo que ouviu mas sim do que viveu fez com que voltasse a pensar no passado, seria possível que... a dúvida tomou proporções gigantescas, tanto que um medo avassalador tomou conta de mim...
- Desculpa – a Filipa falou assim que a Mariana se calou – não o falei com intenção de te magoar...
- Fique descansada que não consegue esse feito... – o tom de voz da Mariana alterou, agora era rude talvez por isso o Ruben tentou chama-la à razão pedindo calma mas isso só a revoltou mais
- Calma Ruben? Como é que queres que tenha calma quando sabes que a única coisa que me mata por dentro é ter que olhar nos olhos do meu irmão e mentir-lhe porque não posso dizer que nunca privou com o pai porque a mãe dele nem sequer se lembra quem é ele – o Ruben fechou por segundos os olhos, talvez por saber que a Mariana estava a falar sem pensar e que por isso mais tarde poderia arrepender-se - porque tava tão drogada que provavelmente abriu as pernas a outro drogado ou então a um estupor – olhou-me por segundos - que a enganou quando ainda era uma inocente e que depois a abandonou grávida – senti-me a ficar sem pinga de sangue - levando-a a afundar-se no mundo da droga, a deixar a filha dias sozinha porque tinha que vender o corpo para comprar droga, que voltava para casa com droga mas comida nem vê-la.
Sabes que lhe minto quando digo que a mãe está a trabalhar longe e como tal que ficou com a irmã, quando sabes que não priva com a mãe porque é uma drogada e só quer saber dele para conseguir dinheiro fácil, sabes que deixei de viver a minha vida sem preocupações para dar a infância que nunca tive ao meu irmão – a Mariana deixou rolar as lágrimas que há muito segurava pelo seu rosto –tive que fugir para que o menino cresça longe do mundo em que vivi até ter a infelicidade de ser entregue aos meus tios que em vez de me darem amor faziam de mim saco de pancada, sabes os anos que vivi na instituição, a ver outras crianças a encontrarem um pai e uma mãe enquanto ficava simplesmente a assistir... - a Mariana voltou a parar numa tentativa falhada de regular a respiração que há muito estava irregular devido ao choro, o Ruben simplesmente a abraçou - Como queres que tenha calma quando sabes perfeitamente que estou a ser obrigada a olhar para um dos responsáveis por não ter tido infância e fingir que não é o sangue dele que me corre nas veias – o meu “mundo” desabou porque agora já não era uma dúvida remota, agora era uma certeza inabalável – não deixa de ser irónico ser o lixo que rejeitou, que nem sequer quis conhecer, a salvar a única filha que tem, realmente não há cabrão nenhum que não tenha sorte e a – fixou pela primeira vez o meu olhar, doeu vê-la naquele desespero - sua foi o meu caminho se ter cruzado com o do Ruben porque se não fosse isso a esta hora podia já não ter filha, a sua sorte é que não lhe herdei os genes de abandono, ao contrário de si não consegui virar a cara a uma menina inocente e que naquele momento precisava de mim – foi impossível segurar as lágrimas que prendia a todo o custo desde o momento que tive a confirmação daquilo que menos queria – você mete-me nojo mas uma coisa tenho que admitir tem pela Kika o amor que nunca demonstrou ter aqui pelo acidente de percurso, só espero sinceramente que seja o pai que nunca foi para mim, a menina é um anjinho que não tem culpa do que você fez no passado, dei-lhe a oportunidade de poder continuar a ver o seu tesouro a crescer por isso ame-a é só o que lhe peço, não quero nada de si a não ser distância!
A Mariana assim que terminou de falar, respirou profundamente, limpou as lágrimas e tentou sair da sala mas impedi ao falar, o que a fez parar e encarar-me
- Espera... filha
- Não lhe admito que me chame isso, sou filha sou mas não é sua, sou filha da dor e do ódio, da dor de ter crescido sem infância, sem pais e do ódio de ter o seu sangue a correr-me nas veias...
- Deixa-me explicar... – os olhos da Mariana espelhavam uma mágoa tremenda
- Explicar o quê? Que era novo e que fugiu das responsabilidades?! Poupe-me que como deve ter percebido não sou ingénua porque nunca soube o que era isso, até isso você roubou-me...
- Desculpa – baixei o olhar – desculpa por não ter assumido, por ter fugido às responsabilidades, tens toda a razão para odiar-me mas deixa-me pedir-te desculpas, é só o que posso fazer...
- Não! Nunca terá o meu perdão porque para mim você não é ninguém, é que nem os animais abandonam os seus filhos como você fez, não quero nada de si ou melhor quero distância! Você não merece nada, é asqueroso, o que fez não se faz, renegou um filho...
- Tens toda a razão de odiares-me mas acredita que não odeias mais do que eu – a Mariana sorriu de forma irónica – odeio-me por ter abandonado a tua mãe mas naquela altura não pensei nas consequências e quando anos mais tarde tentei saber de ti nunca consegui, perdi o rasto à tua família – interrompeu-me
- Qual família?! Aquela que só se lembrava que existia quando tinham o stress para descarregar? Poupe-me porque se há algo que não tive durante anos foi família, só quando entrei para a instituição é que descobri o que era isso e mais tarde quando recebi o Martim nos meus braços, não lhe admito que tente sequer meter-se no meu lugar e páre de tentar fazer-me entender o seu lado porque nem aqui nem no raio que o parta o vou desculpar e muito menos ouvir, você não é nada...
A Mariana odeia-me e com toda a razão, não consegui reunir forças para contraria-la, simplesmente percebi que falasse o que falasse a Mariana nunca iria ouvir e se duvidas tivesse, essas teriam sido dissipadas no momento em que saiu da sala, deixando para trás a família do Ruben incrédula com a descoberta que fizeram, olhei para a Filipa, obriguei-me a isso mesmo pela primeira vez desde que a Mariana afirmou que o canalha a quem tem um ódio de morte sou eu, vi a minha mulher como nunca antes a tinha visto, não consegui decifrar sequer se estava a odiar-me perante o que ouviu ou se estava tal como os restantes só em completo choque perante a realidade que nos assombrou sem aviso prévio.

Ruben
Nunca pensei que o dia fosse terminar com a Mariana a deitar cá para fora tudo o que guardou dentro dela durante anos. Quando começou a falar, ainda tentei acalmá-la dado que estava a perder o controlo e adivinhava-se o que aconteceu, a verdade veio ao de cima, mas só consegui o inverso, revolta-la ainda mais, o que culminou com um momento doloroso, tanto para o meu amor como para o Paulo, já para não falar da Filipa que quanto mais a Mariana falava mais se desiludia, afinal não conhece a pessoa que tem do seu lado.
Optei por deixar a Mariana falar tudo, não voltei a interrompe-la por saber que depois de começar teria que chegar ao fim, só assim conseguirá colocar uma pedra sobre o assunto, isto é se algum dia for possível...
A Mariana falou e no fim o Paulo ainda tentou defender-se mas o meu amor não lhe deu hipótese nenhuma, acabando por sair da sala, deixando para trás o rasto da destruição de um homem e quem sabe de uma família, arrepiou-me ver a Filipa no estado que estava, sinceramente não sei que consequências terá este desabafo da Mariana naquela família mas também não estou minimamente preocupado, afinal e a bem da verdade o Paulo está a colher o que semeou no passado. Estava remetido ao silêncio, afinal não havia muito mais a ser dito quando a voz do Paulo despertou-me.
- Sabias?
- Sim! – fui claro na resposta – Do início ao fim...
- Perguntei-te o porquê da Mariana reagir da forma que reage à minha presença e nunca o disseste...
- Paulo, você é só o meu empresário e um conhecido, ela é a minha mulher, acha mesmo que lhe ia dizer? – baixou o olhar – Até lhe digo mais... não consigo condenar a Mariana por afirmar que o odeia, quando foi isso que senti no dia que contou-me o seu passado, senti uma revolta tremenda porque tinha diante de mim uma pessoa estupenda, que surpreendia-me sempre mais e mais a cada dia que passava, que dava e dá tudo de si às pessoas a quem chama de amigas, a sofrer porque após insistência minha acabou por desabafar, ouvir tudo pelo que passou e saber que em grande parte a culpa era do pai, revoltou-me, nunca lhe disse, afinal já bastava a enxurrada de sentimentos menos próprios que tinha e tem por si, mas quantas não foram as vezes que dei comigo a pensar que se tivesse a infelicidade de me cruzar com o responsável que não saberia como reagir... a Mariana nunca disse o nome mas sempre disse que era alguém ligado ao futebol, andava muito longe de imaginar que afinal conhecia bem o seu pai, aliás descobri no dia do nosso casamento, só nesse dia é que fiquei a saber, isto porque a Mariana não conseguiu arranjar forças para lidar com os sentimentos contraditórios que iam dentro dela, afinal era o nosso dia, dia em que supostamente era para ser vivido na plena felicidade e alegria, mas não... nesse dia a Mariana levou o maior murro no estomago que podia suportar, ainda assim impediu-me de trocar de empresário, porque apesar de tudo, você é um dos melhores, ela voltou a pensar primeiro em mim e depois nela, acabei por fazer-lhe a vontade mas jurei para mim mesmo que tudo isto iria comigo para a cova, talvez por saber que a Mariana preferia ignorar do que passar pelo que está a passar agora...
Ignoramos durante alguns meses até que por ironia do destino o Martim se tornou amigo da Kika, a Mariana não conseguiu impedir o irmão de construir a amizade que os une, porque o menino não tem culpa, mais uma vez pensou nos outros e só depois nela. Escusado será relembra-lo que quando a Kika mais precisou da irmã que a Mariana disse o “estou presente”, fez os testes de compatibilidade de espontânea vontade, o resultado foi positivo e no mesmo momento que teve essa confirmação decidiu salvar a vida da menina, como a Mariana falou, felizmente não lhe herdou os genes de abandono...
Agora não venha com cobranças para cima de mim por nunca lhe ter dito nada... Desculpe mas não tem sequer moral para o fazer...
Não lhe dei tempo para dizer o que quer que fosse, saí da sala para procurar quem mais precisava de mim naquele momento. Encontrei a Mariana no quarto que foi meu, estava tão absorta na sua dor que nem deu pela minha entrada, só mesmo quando deitei-me do seu lado e a abracei é que a Mariana voltou a “quebrar”, chorou até não aguentar mais, acabou por ser vencida pelo cansaço e adormeceu exausta, sem voltarmos a tocar no assunto, talvez por não haver necessidade, afinal conheço de trás para a frente e da frente para trás toda a dor que o meu amor transporta dentro de si...

Anabela
Poder proporcionar uma festa de aniversário ao Martim deixou-me radiante e por isso quando a Mariana falou comigo no sentido de a festa ser cá em casa não hesitei e ainda afirmei que a ajudava a preparar tudo, por isso nestes últimos dias convivi mais do que algumas horas com a Mariana, o que contribuiu para perceber algumas mudanças no entanto nunca comentei por receio que pensasse que estava a meter-me na sua vida. Resolvi esperar que a confirmação chegasse por sua iniciativa algo que aconteceu no momento que contaram ao Martim da sua gravidez, fiquei feliz, afinal um bebé é algo que tanto o meu filho como a minha nora desejam.
A festa de aniversário foi animada e divertida mas confesso que quando sentei-me junto dos adultos que se encontravam na sala, o fiz por estar exausta. Conversa vai, conversa vem e um momento delicioso chegou, a forma como a Mariana esclareceu as dúvidas sobre como se fazem bebés à Kika e ao Martim deixou-me deliciada mas o inesperado aconteceu quando ouvimos a Mariana a revelar o motivo pelo qual lidou tão bem com as dúvidas dos pequenos, percebi desde o principio que falava do seu passado mas nunca imaginei ouvir o que ouvi, ter consciência do quanto sofreu e como conseguiu vencer, ultrapassando todas as dificuldades e muitas vezes sozinha só contribuiu para entender ainda melhor o que levou o meu filho a apaixonar-se pela Mariana mas principalmente o quanto teve de batalhar para destruir as muralhas de protecção que a Mariana foi construindo durante anos.
Confesso que fiquei surpreendida com o seu passado mas o que fez o meu coração de mãe mingar completamente foi ouvir que afinal o pai da Mariana é alguém que conheço bem e que nunca pensei ser capaz de um ato tão cruel como o de rejeitar uma filha, a Mariana sofreu horrores e em grande parte por sua culpa mas mais uma vez a rapariga demonstrou o coração enorme que tem quando não hesitou em ajudar a irmã, salvando-lhe a vida.
A Mariana foi cruel na escolha das palavras quando falou única e exclusivamente para o Paulo mas no fundo entendi, afinal foi a forma que deve ter encontrado para descarregar toda a dor e ressentimento que carregou durante anos. Mas se a revelação da Mariana deixou-me preocupada com ela e com o bebé que carrega pois foi impossível não perceber o quanto nervosa estava, o que o Ruben falou a seguir deixou-me surpresa, o meu filho não poupou em nada o Paulo.
Assim que o Ruben saiu para procurar a Mariana também a Filipa se despediu de nós, chamou a Kika e saiu, atrás delas foi o Paulo visivelmente abatido, tanto que a menina lhe perguntou o que tinha, lógico que o Paulo não respondeu com a verdade, afinal a verdade é demasiado dolorosa.
- Onde tá a mana e o pai? – a voz do Martim despertou-me a mim, ao Mauro e à Madalena para a realidade dado que nos mantínhamos em completo silêncio, olhamos uns para os outros à procura da melhor resposta a dar ao menino, resposta essa que foi dada pelo Ruben que entrou na sala
- Estou aqui.
- A mana?
- Anda cá – o Ruben puxou o Martim para o seu colo – a Mariana está a dormir – conheço o meu filho e por isso sei que mentiu ao menino.
- Mas a mana não dorme a sesta – o Ruben sorriu perante a dedução do menino
- Pois mas sabes que o teu mano – tocou com o seu dedo na ponta do nariz do Martim – tem muito sono e deixa a Mariana assim muito preguiçosa…
- Isso quer dizer que agora a mana vai andar sempre a dormir?
- Sempre não… mas vai andar mais cansada…
- Oh pai o mano já tem nome? – o meu filho gargalhou com a pergunta do menino o que fez-nos rir a todos também.
- Não.
- Mas ele precisa de um nome!
- Pois precisa mas nós ainda não pensamos nisso até porque não sabemos se é menino ou menina.
- E como é que se descobre isso? O bebé tá na barriga da mana não dá para ver – o Ruben voltou a sorrir
- Dá… a Mariana quando vai à médica, vemos o bebé através de um ecrã parecido com uma televisão – o menino olhou-o com uma expressão cómica de quem não está a acreditar no que ouve – e daqui a algumas semanas quando for maior e se deixar nós vamos conseguir ver se é menino ou menina.
- Não tou a perceber… como é que o meu mano aparece no ecrã – gargalhamos todos, o menino não estava a perceber nada – onde vais? Eu quero que expliques porque eu quero perceber – o Martim reclamou quando o Ruben se levantou do sofá
- Já volto! – o meu filho respondeu e saiu da sala, regressando pouco tempo depois com o meu portátil
- O que tás a fazer?
- Já percebes! – o Ruben ligou o portátil e após uns minutos – vês isto aqui – apontou para o ecrã e o menino abanou a cabeça em sinal afirmativo – então é assim que nós vemos o teu mano.
- Tu já viste o bebé? – o Ruben sorriu
- Já.
- E porquê que eu ainda não vi? – perguntou aborrecido o que levou o Ruben a sorrir
- Amor porque a Mariana ainda só foi a uma consulta e já foi há umas semanas – o menino interrompeu-o
- E porquê que eu não fui? – o Ruben sorriu – Eu também quero ver o bebé.
- Lindo mesmo que tivesses ido connosco não conseguias ver o bebé porque ainda era muito pequenino, além disso a primeira consulta serviu para termos a certeza que a Mariana já tinha o bebé na barriga por isso é que não te contamos logo.
- E depois quando souberam porquê que não contaram logo?
- Lindo porque quisemos contar hoje – nós, os adultos, percebemos que o verdadeiro motivo foi a barreira das 12 semanas algo que o Ruben não iria dizer, afinal o Martim é só um menino e não precisa de saber de certos detalhes – foi assim como uma prenda especial – o menino riu e depois do Ruben colocar o portátil na mesa de apoio que tenho no centro da sala o Martim sentou-se ao seu colo num pedido nítido de mimos, algo que o Ruben deu sem qualquer esforço.

Como terá a Mariana depois de um fim de tarde emocionante??

Olá :)
O capítulo foi publicado em consideração a quem sempre leu e acompanhou a história mas confesso que estou desanimada com o número reduzido de comentários ao capítulo anterior, muitas vezes é nos vossos comentários que encontro força para continuar a escrever e ultimamente tenho a sensação que não acompanham a história, algo que entristece-me no entanto darei um fim à história, não prometo é frequência a publicar porque irá depender da motivação que como já disse anda bem reduzida.
Desculpem o desabafo mas considero que quem sempre leu e que fica curiosa pelo rumo da história merece todo o meu respeito, bem como uma justificação para a demora em publicar... além da falta de tempo, há ainda uma enorme desmotivação que dificulta a escrita...
Fiquem bem!
Beijinhos  

quinta-feira, 25 de julho de 2013

074 - "Amor… o Paulo começou a fazer perguntas sobre o teu passado"

Ruben
Nestas últimas três semanas tenho vivido no paraíso tal é a felicidade que sinto sempre que olho ou toco na barriga da Mariana, é cada vez a mais difícil controlar-me diante de terceiros, já que sinto uma necessidade tremenda de estar sempre agarrado ao meu amor.
Hoje acordei e ao lembrar-me que é dia 19 fez com que tivesse a primeira conversa com o meu Tink Wink, mesmo tendo a plena noção que não ouve e muito menos percebe, afinal ainda é só um feijãozinho a germinar, desabafei certo de que ninguém ouvira mas percebi que afinal a Mariana estava acordada, ainda nos animamos, a verdade é que desde que está grávida o meu amor anda mais sensível e basta uma mãozinha mais marota da minha parte para ouvi-la a suspirar, mas não pudemos satisfazer os desejos um do outro, o Martim pediu autorização para entrar no quarto e depois de levantar-me para lhe abrir a porta, uma vez que estava fechada à chave, o meu pequenino entrou e sem perder tempo desejou-me um feliz dia dos pais.
Os minutos seguintes foram vividos a quatro, sim que o Tink Wink já faz parte da nossa vida mas subitamente a Mariana teve mais um enjoo matinal e teve de correr para a casa de banho, tentei disfarçar levando o menino para tomar o pequeno-almoço, mas o Martim percebeu que algo se tinha passado e tentou mesmo perceber o quê, acabei por conseguir enrola-lo mais uma vez e quando a Mariana se juntou a nós o menino fez-lhe um pedido.
- Mana eu já tenho saudades da Kika e quero ir ver ela, posso?
- A mana já te explicou que a Kika está a recuperar e que por isso não pode receber visitas.
- Oh mas eu tenho saudades dela.
- Pois mas... – a Mariana estava a tentar evitar ao máximo voltar a ver a irmã, já tinha percebido isso há uns dias numa conversa que tive com ela, o meu amor deu a entender que não quer voltar a cruzar-se com o Paulo, no fundo sei que isto tudo a magoou bastante, a Mariana fez-se de forte e aguentou até ao fim porque a vida da Kika dependia disso.
- Amor – olhou-me e bastou uma troca de olhares para entender o que estava a pensar
- Ok... o Ruben vai ligar ao Paulo e se der para a Kika receber visitas, ele leva-te.
- E tu não vais?
- Não.
- Oh mas a Kika gosta de ti – aquelas simples palavras atingiram a Mariana de uma forma imensa e por isso voltei a desviar o assunto.
O Martim não insistiu mais e fui levá-lo à escola, não sem antes certificar-me que o meu amor ficava bem. O dia foi passado no Seixal e no final fui buscar o meu príncipe à escola, fui imediatamente brindado com uma prenda que tinham feito para entregar aos pais e que me deixou de sorriso no rosto.
- Onde vamos?! – o Martim questionou assim que percebeu que não íamos para casa.
- Ver uma certa menina…
- Vamos ver a Kika?
- Sim mas tem de ser uma visita rápida que tens os trabalhos da escola para fazer e logo vamos jantar a casa da minha mãe.
O Martim ficou contente e assim que chegamos ao IPO foi o primeiro a sair do carro.

Paulo
Felizmente a Kika está a recuperar bem e já só pensamos no dia em que a minha filha terá alta, a Filipa já anda numa roda-viva a preparar o seu quarto para recebê-la, dado que a cada dia que passa, esse dia se aproxima mais.
Estava no quarto a falar com a minha menina quando o telemóvel toca, atendi e depois de umas palavras trocadas com o Ruben, fiquei a saber que o Martim queria ver a Kika, disse-lhe para aparecer quando quisessem uma vez que o meu anjinho já pode receber visitas.
- Pai o Martim vem hoje? – a Kika desde que lhe disse que o Martim a viria visitar tem perguntado frequentemente se o menino viria hoje
- Não sei, filha já te disse que o Ruben não confirmou se vinham hoje.
- Oh… mas eu tenho saudades dele.
- Gostas mesmo do Martim, não é?
- Sim… ele é um fixe – sorri ao ouvi-la – e o único dos meus amigos que veio cá.
Continuei à conversa com a minha menina mas esta foi interrompida no momento que a porta do quarto se abriu e que o Martim entrou, o menino correu até à cama da Kika e depois de lhe dar dois beijinhos, cumprimentou-me com um “olá”, sorri ao ver a alegria no rosto deles.
- Boa tarde – cumprimentei o Ruben – tudo bem?
- Sim e convosco?
- Felizmente muito melhor do que há uns meses – respirei de alívio – graças a Deus que conseguiram encontrar um dador – o Ruben desviou o olhar por momentos, algo que deixou-me intrigado – e com a Mariana, está tudo bem?
- Sim… - o Ruben foi curto na resposta
- A Kika também tem perguntado pela Mariana
- Ah… pois… mas ela está a trabalhar – desculpou-se
- Tiveste muita sorte – olhou-me – em encontrar alguém como a Mariana… do pouco que privei com ela deu para perceber que tem um excelente “fundo”, apesar de comigo ser por vezes fria…
O Ruben desviou o olhar, conhecendo-o como conheço, foi suficiente para perceber que ficou incomodado com o que falei mas não tive tempo de tentar perceber o motivo porque a pergunta da Kika ao Martim fez com que olhasse.
- Não tens pai?
- O meu pai é o Ruben! – falou convicto
- Mas o Ruben é o teu pai a fingir eu sei que ele não é teu pai verdadeiro como o meu é a mim
- É sim! O Ruben é o único pai que tenho e o único que gosta de mim.
- E a tua mãe onde anda?
- Não sei… eu sempre vivi com a minha mana…
- E ela não sabe dos vossos pais?
- Ela não gosta de falar da nossa mãe e o pai dela não é o mesmo que o meu… ela nunca fala disso mas eu sei que o pai dela não quis saber dela…
Estava estarrecido com aquela conversa, aquilo fez-me, por momentos, regressar ao passado.
- Porquê?
- Não sei…
- E nunca perguntaste?
- Já mas ela não fala e eu não quero ver a mana triste por isso não pergunto.
Aquela conversa estava a deixar-me inquieto, talvez porque por momentos recordei parte do meu passado e depois inevitavelmente voltei ao presente, comecei a ligar as pontas soltas, a Mariana detesta-me, nunca quis saber de mim, sempre fez questão de manter uma enorme distância, distância essa que quebrou no momento que a Kika adoeceu, manteve-se sempre próximo até a minha pequenina receber o transplante, a Filipa encontrou o Ruben no IPO no dia da suposta recolha das células que mais tarde salvaram a minha Kika, já para não falar na ligação que estabeleceu com a minha filha numa tarde, a Kika desde essa tarde que recebeu a primeira visita do Martim que pergunta sempre pela Mariana e agora que a Kika está francamente melhor não a veio visitar mais…
- Paulo… Paulo – o Ruben abanou-me – você está bem?
- Ah… sim
- Está pálido! – olhei-o
- Ruben, conheces a história de vida da Mariana até os vossos caminhos se cruzarem? – perguntei de rajada, o que surpreendeu o Ruben
- O que é que isso importa?
- Não te faz confusão não conheceres a família da tua mulher? – tentei obter informações sem ser muito direto
- O Martim é a única família que a Mariana tem!
- O menino acabou de admitir que tem mãe e pai que por sinal não é o mesmo que o da irmã…
- Onde quer chegar?
- Fiquei curioso, só isso… no vosso casamento não vi a sua família e agora com a conversa do menino…
- Paulo, com toda a consideração que tenho por si, a vida familiar da Mariana não lhe diz respeito e não percebo o súbito interesse…
- Porque sempre pensei que a Mariana e o Martim tinham em comum a mãe e o pai – o Ruben olhou-me – e que o menino estava a ser criado por vocês porque por algum motivo teriam perdido os pais mas afinal…
- Afinal percebeu que em comum só têm a mãe, então e depois? Desculpe lá mas continuo a dizer que não lhe diz respeito!
- Curiosidade, só isso.
O Ruben não respondeu, aliás uns minutos depois pediu ao Martim para se despedir da Kika que tinha de ir embora, o menino obedeceu na hora e depois de se despedirem de mim e da minha filha saíram.
Não nego que passei o resto da tarde a pensar em tudo o que tinha ouvido e receoso que as peças soltas que por momentos juntei fizessem realmente sentido…

Ruben
Arrependi-me amargamente de levar o Martim a ver a Kika, afinal a visita despontou a curiosidade do Paulo e por momentos fiquei com a sensação que já desconfia de algo, tentei desviar qualquer suspeita mas sinceramente não sei se consegui.
O resto da tarde foi passada em casa, ajudei o Martim nos trabalhos e no fim a tomar banho.
Estava sentado no sofá a ver um pouco de televisão quando a Mariana entra, vinha com uma carinha de cansada e não demorou muito a aninhar-se nos meus braços.
- Temos mesmo que ir jantar a casa da tua mãe?
- Ohh... se nos convidou é porque tem gosto na nossa presença mas se estás cansada posso ligar a avisar que não vamos...
- Não é o cansaço... é mesmo esta sensação de enjoo que não me largou o dia inteiro e está a dar cabo de mim... mas vou tomar um banho pode ser que passe – suspirou
- Queres companhia?! – perguntei quando já estava a sair da sala
- Ainda estás aí sentado a fazer o quê?? – sorri ao vê-la a trincar o lábio
- Julgava que estavas enjoada... – falei junto do seu ouvido numa de a provocar
- Sabes... quem enjoa é o estomago... o resto do corpo está apto – gargalhei fortemente com o que ouvi
Os minutos seguintes foram serenos ainda assim proveitosos, deixamo-nos ficar só pelos mimos inocentes e no fim de estarmos despachados fui chamar o Martim que estava no seu quarto. Seguimos para a casa da minha mãe onde já se encontrava o Mauro, a Madalena e o Rafael.
O jantar foi animado mas percebi que a Mariana continuava enjoada, mal comeu, aliás pareceu mais galinha a penicar do que outra coisa. Estávamos na sala a conviver uns com os outros quando o Martim do nada falou algo que deixou-nos, a mim e à Mariana, desconfortáveis.
- Oh pai porquê que agora andas sempre agarrado à minha mana e com as mãos na barriga dela? – senti o olhar da minha família e uns segundos bastaram para reagir
- O meu pirralhinho – larguei a Mariana, uma vez que estávamos abraçados e puxei o menino para o meu ao colo – tás com ciúmes, é? – enchi-o de beijinhos, o que lhe provocou algumas gargalhadas – sabes que gosto muito de ti e nada irá mudar isso – saiu-me instintivamente e só percebi o que falei quando ouvi a pergunta que fez
- Tás a querer contar alguma coisa? – a perspicácia do menino fez com que os adultos sorrissem, olhei para a Mariana e encontrei-a enternecida a olhar-nos – tu e a mana andam estranhos.
- Agora somos estranhos?! – a Mariana meteu-se
- Sim mana! O pai agora tá sempre agarrado a ti – fez cara de enjoado – sempre aos beijinhos – sorrimos
- O Ruben sempre deu beijinhos à mana...
- Mas agora são beijinhos diferentes!
- Diferentes?!
- Sim mana... não sei explicar mas são diferentes! - olhei de forma cúmplice para a Mariana e isso bastou para perceber que tinha ficado dividida entre o contar ou não da gravidez – oh lá tão os dois a olharem com cara de totós um para o outro! – com a saída do Martim, o Mauro gargalhou e aproveitou para meter lenha na fogueira
- Tenho que concordar com o miúdo... vocês estão ainda mais melosos que o habitual... Martim estou contigo... já enjoa!
- Eish fala noutra coisa sem ser enjoos – a Mariana murmurou mas foi impossível não gargalhar ao ouvi-la
- O que é que falaste? – o meu irmão perguntou imediatamente com um ar de desdém tremendo
- Nada Mauro... nada...
- Tá tudo maluco... – o Martim reclamou porque não estava a perceber nada – a mana anda estranha, o pai agora tá sempre agarrado à mana e agora tá tudo a rir e eu não sei porquê...
Nunca pensei que pudesse agradecer o fato do Rafael começar a fazer birra de sono mas o certo é que por causa disso a conversa terminou, a Madalena desviou as atenções para o filho, enquanto que a Mariana saiu da sala. O Martim estava a brincar sozinho, o que originou a oportunidade que o Mauro estava à espera para se aproximar.
- Não tens nada para contar aqui ao mano?!
- Não…
- Ai não?! Então e aquela conversa toda do Martim vem assim do nada?
- É só uma criança…
- Agora é aquela parte que falas que como é criança não sabe o que diz – sorriu – a sério puto tenta outra desculpa que esta não cola, até porque não sou cego e deu para ver que andam aí todos melosos...
Não respondi, aproveitei a entrada da Mariana na sala para levantar-me e deixá-lo sozinho, até porque o momento das despedidas chegou, o Martim tinha que se deitar cedo devido às aulas e já passava da hora dele.

Mariana
Por momentos ainda pensei em contar a novidade da gravidez mas acabei por não o fazer, no entanto tive a certeza que os adultos desconfiaram, até porque sabem que estávamos com dificuldades em conseguir.
- Amor… - olhei para o Ruben – hoje levei o Martim a ver a Kika.
- Ok… - não dei grande importância ao que falou e fui tratar da minha higiene pessoal antes de deitar-me.
- A menina perguntou por ti – o Ruben voltou à carga assim que deitei-me do seu lado.
- Quando puder vou visitá-la – falei numa tentativa dele se calar, algo que fez durante um bocado mas senti que estava inquieto com alguma coisa – o que se passa? – acendi a luz para o olhar
- Mariana – o Ruben hesitou – amor… o Paulo começou a fazer perguntas sobre o teu passado
- Desculpa?!
- Não lhe disse nada mas acho que está desconfiado de alguma coisa…
- É que não me faltava mais nada! – resmunguei – Mas ele que não venha que não tem! – por incrível que pareça estava serena, aquilo não me afetou minimamente.
- O que é que estás a querer dizer com isso?
- Que não estou para aturar melodramas… aquele nunca fez parte da minha vida e não começar agora!
O Ruben tentou perceber até onde a revelação dele tinha causado estragos por isso tranquilizei-o ao afirmar que não ia perder tempo a pensar nas dúvidas existenciais do outro e por isso o assunto morreu ali mesmo.
***
Entre os enjoos e os preparativos para a festa de aniversário do meu irmão, o tempo passou, hoje acordei extremamente enjoada mas animada, afinal dentro de horas estarei rodeada de crianças, como mais gosto.
Estava no quarto a vestir-me e à conversa com o Ruben, quando o meu amor voltou a puxar-me para si, reclamei porque queria vestir a camisola mas ele estava mais numa de ficar feito parvo a olhar para a minha barriga.
- Amor… deixa-me vestir! Temos que ir… não vais deixar a tua mãe ter o trabalho todo! – alertei-o, afinal a festa será na casa da Anabela por ser mais espaçosa
- Ohhh ainda temos tempo – o Ruben voltou a colar os seus lábios no meu ventre – estás tão linda – suspirou o que fez com que gargalhasse
- És tão parvinho! – resmunguei e finalmente consegui afastar-me dele para vestir a camisola, mas antes de o conseguir fazer, o Martim entrou no quarto de rompante, culpa nossa que tínhamos a porta completamente escancarada.
- Desculpa mana! – o menino ao ver-me sem camisola pediu imediatamente desculpas, o que fez-me sorrir para logo despois gargalhar ou não fosse ouvir – shii mana tu tás mais gorda!
- Olha que bem… agora estou gorda!
- Tás – confirmou a rir
- Oh mor não ligues – o Ruben meteu-se na conversa – que está cada dia mais linda…
- Estou tramada convosco… um diz que estou gorda o outro diz que estou linda, em que ficamos?!
- Oh mana eu é que tou a dizer a verdade, o Ruben é totó! – a convicção do puto fez-nos rir
A conversa continuou mas agora entre o Ruben e o Martim, sim que retirei-me estrategicamente antes que o menino se lembrasse de perguntar o motivo por estar mais gorda. 
A manhã foi passada na casa da Anabela a ultimar os últimos preparativos para a festa de aniversário do Martim, mas hoje estava particularmente complicado estar na cozinha, a mistura dos cheiros complicava com o meu estado de completo enjoo, por isso saí de fininho e fui até á sala.
- Como estão as coisas lá dentro? – o Ruben perguntou ao passar por mim com balões cheios de ar para colocar na sala
- Acho que a tua mãe e a Madalena dão conta do recado…
- Continuas enjoada? – perguntou agora num sussurro e já comigo sentada ao seu colo.
- Ya… e estar na cozinha não ajuda em nada…
- Oh Tink Wink – o Ruben levou a mão à minha barriga – alivia lá a mamã para a festa do mano – sorri feita parva perante a forma como o Ruben falava – correr bem… - o Ruben uniu as nossas bocas assim que terminou de falar, estava a saber-me bem os mimos do meu amor que deixamo-nos ficar no marmelanço até que
- Quando é que nasce mesmo o Tink Wink? – a voz do Mauro atrás de nós fez-me saltar do colo do Ruben – Sim que como tio tenho o direito de saber de quantas semanas está a mamã – olhei para o Ruben que me pedia desculpas pelo olhar, afinal por culpa dele tínhamos sido apanhados e agora já não havia muito a fazer para continuar a ocultar.
- A mamã está de praticamente 11 semanas! – respondi serenamente enquanto o Ruben continuava com a mão na minha barriga e a sorrir feito parvo
- Foi assim tão complicado? – olhei para o Mauro sem entender o que queria saber com aquela pergunta – Calma cunhadinha que não quero saber se foi assim tão difícil o meu mano fazer o trabalho de forma competente – gargalhou – o que estava a tentar saber é porquê que levaram tanto tempo a dar a novidade!
- Não tens muita razão de queixas… afinal és o primeiro a quem contamos ou que confirmamos!
- O Martim ainda não sabe?
- Não…
- Oh porquê? O puto quer tanto um mano…
- Nós decidimos esperar…
- Ah… já entendi! Vocês, mulheres, e aquela cena da barreira das 12 semanas – falou virado para mim – Já a Madalena veio com a mesma conversa e como vez correu tudo bem!
A conversa terminou até porque o Martim entrou na sala, ajudei o meu amor a colocar os balões e só voltei a aproximar-me de comida na hora do almoço mas estava tão enjoada que não consegui ficar mais que uns minutos sentada, tive mesmo que sair quase a correr da mesa.

Ruben
A manhã foi agitada, com os últimos preparativos para o aniversário do Martim mas para a Mariana estava a ser especialmente difícil, hoje acordou tremendamente enjoada e foi numa pausa que fizemos os dois que tentei inteirar-me do seu estado, o Mauro presenciou o momento e não deixou escapar, o meu amor acabou por confirmar as suas suspeitas.
A hora de almoço chegou e com ela chegou também o momento que ficou tudo a olhar-me, já que a Mariana simplesmente não aguentou e teve que se retirar rapidamente, ainda estava a pensar se iria atrás dela ou se ficaria quando o Martim falou.
- Pai o que tem a mana? – o Mauro olhou-me e sorriu
- Nada… come que a mana já regressa.
- Ela tá cada dia mais estranha – falou preocupado e ao levantar-se da cadeira
- Onde vais?
- Ver da mana! – falou com tanta convicção que não o consegui impedir e por isso o menino foi procurar a irmã, no entanto pedi desculpas aos presentes e fui atrás do menino.

Mauro
Comprometi-me a ajudar nos preparativos da festinha do Martim, uma vez que a Mariana não teve muito tempo para o fazer e foi quando regressei à sala para ajudar o meu irmão na tarefa de pendurar os balões que tínhamos enchido que presenciei um momento super ternurento entre a Mariana e o Ruben, confirmei as minhas suspeitas ao ver o meu irmão babadíssimo a falar para a barriga da Mariana, estavam os dois com um ar de felicidade tremendo ou não fosse desejarem muito terem o seu primeiro filho, ainda fiquei a observá-los mas acabei por implicar.
A Mariana confirmou a gravidez e ainda trocamos mais algumas palavras, no entanto afastei-me, aqueles dois estão tão mas tão lamechas que até enjoa.
Tínhamos acabado de iniciar a refeição quando a Mariana se retirou com tal urgência que deixou o irmão preocupado, o menino disse mesmo que a irmã está cada dia mais estranha, o Ruben ainda tentou segurá-lo mas ao ver o menino sair para procurar a irmã foi atrás.
- Onde vais? – a minha mãe falou assim que levantei o rabo da cadeira.
- Oh mãe, esta não perco por nada! – elas olharam-me
- Mas o que se passa convosco?
- Ai… se quer saber venha!
Elas não falaram mais simplesmente seguiram-me, fomos até ao jardim onde os encontramos aos três, a Mariana estava sentada no banco baloiço, com o Martim sentado ao colo do Ruben.
- Mauro! Estás a ouvir – a minha mãe agarrou-me o braço numa tentativa de impedir-me de aproximar
- Oh mãe!
- Deixa o teu irmão…
Não lhe respondi e aproximei-me mesmo deles, aquele momento não perderia por nada, elas acabaram por também se aproximarem, a Mariana assim que deu pela nossa presença sorriu de forma cúmplice para o meu irmão.
- Estou à espera – o Martim reclamou – eu sei que tão a esconder alguma coisa… não sou parvo! – tive que controlar-me para não gargalhar.
- Martim – a Mariana chamou-o – nós temos mesmo algo para te contar... – o Ruben sorria feito parvo
- O quê? – o menino estava curioso e a Mariana numa de tentar encontrar a melhor forma de lhe dar a boa nova mas acabou por ser o Ruben a tomar a palavra e de forma muito direta disse-lhe
- Vais ter um mano ou mana...
- Juras pai??? – a alegria estampada no rosto do Martim foi enorme – A mana já tem um bebé dentro da barriga dela? – foi impossível conter a gargalhada – oh mana deixa eu ver.
- Queres ver o quê?
- A tua barriga! – atirou com uma convicção enorme
- Oh amor a barriga ainda não se nota... – o Ruben esclareceu mas deve-se ter arrependido no mesmo momento
- Mas eu quero ver... se tu podes eu também posso – falou todo senhor de si
A Mariana sorriu mas fez-lhe a vontade, levantou ligeiramente a camisola e assim que o fez o menino teve um gesto enorme de carinho que arrepiou-nos a todos ao dar beijinhos repenicados na barriga da irmã e várias festinhas, o menino ficou alguns minutos a contemplar a barriga ainda inexistente da Mariana e quando se cansou.
- Obrigado pai – agarrou-se ao pescoço do meu irmão – eu sei que vais gostar sempre de mim mesmo depois do mano nascer – o menino é único.
- Estás a agradecer porquê?
- Porque eu sei que foste tu que convenceste a mana a dar um mano a mim e porque gostas de mim
- É impossível não gostar de ti – deu-lhe vários beijinhos e quando o momento de pai e filho terminou, olhou para a Mariana que estava a sorrir, foi o meu irmão que a beijou mas foi dela a iniciativa de prolongar o beijo, que só foi interrompido quando o Martim colocou os seus os bracinhos em volta dos pescoços deles.
- Foi a melhor prenda que podiam dar hoje – as simples palavras do menino enterneceram-nos novamente.
Deixamo-nos ficar só a observá-los, o quadro que tínhamos diante de nós era o de uma família feliz.
- Bem parece que alguém está de parabéns... – a Madalena foi o primeira a manifestar-se depois de assistirmos a tudo remetidos ao silêncio, seguiu-se a nossa mãe e nos momentos seguintes partilhamos com eles a alegria que estavam a sentir. 
Mariana
Não tinha planeado contar ao Martim da gravidez desta forma mas não deu para adiar mais, o menino delirou com a notícia e afirmou mesmo que era a melhor prenda que podíamos dar-lhe, os momentos seguintes foram para as felicitações e alguns mimos que o meu irmão decidiu dar-me.
Depois deles terem almoçado, sim que não o consegui fazer, concluímos as tarefas que ainda faltavam a tempo e horas. Estava na sofá aninhada ao colo do Ruben com o menino do nosso lado quando a Anabela avisou que os convidados estavam a chegar, o Martim foi a correr até à porta para receber os amiguinhos, algo que tanto eu como o Ruben também fizemos.

Como irá correr a festa?