Ruben
Acordei durante a
noite e assim que tentei sair da cama ouvi de imediato da Mariana a perguntar
onde é que ia.
- Pensava que estavas a dormir – sorri ao vê-la abrir os olhos.
- Tanto quanto sei hoje estou de plantão a um certo
jeitoso – olhei-a - que resolveu
andar a brincar aos cabeçudos – sorri ao ouvi-la.
- Gracias pela parte do jeitoso – ela sorriu ainda que timidamente – agora
a parte do cabeçudo dispensava.
- Não seja por isso, posso sempre chamar-te de cornudo – fui obrigado a sorrir novamente, ela estava
nitidamente a picar-me.
- Vê lá se não queres que aqui o cornudo se vingue.
- Ui estou cheia de medo – provocou-me mas resolvi não responder ou então não sei onde isto iria
parar – onde é que vais? – perguntou-me assim que coloquei os pés no
chão.
- Fazer algo que ninguém faz por mim – ela sorriu – será que posso ou também
tens que vir atrás de mim?
- Não, dispenso essa parte – olhei-a – já vi tristezas que cheguem na vida – já estava perto
da casa de banho mas assim que a ouvi tive que parar.
- Estás mesmo a insinuar o quê?
- Para bom entendedor meia palavra basta – falou num tom de gozo.
Resolvi não
responder, até porque isso era o que a Mariana esperava que fizesse e preferi
aguardar pela minha oportunidade para vingar-me.
Estava já a lavar as
mãos quando a imagem da Soraia voltou ao meu pensamento e mais uma vez a
tristeza invadiu-me não deveria ser a Mariana a estar ali mas sim ela.
Regressei ao quarto
e ao olhar para a cama não vi a minha enfermeira predileta, espreitei para a
varanda mas não a encontrei por isso acabei por sair do quarto e ir procura-la,
estava sem sono e não apetecia-me ficar sozinho. Passei pelo quarto do Martim e
percebi que era lá que a Mariana se encontrava, aproximei-me devagarinho e sem
que estivesse à espera abracei-a, o que foi suficiente para ela mandar um pulo
e se ter virado para o meu lado.
- Estás parvo
– murmurou de frente para mim e com o seu rosto bem perto do meu – larga-me –
apesar de ter pedido não o fiz estava a olhá-la nos olhos e não sei porquê mas os
meus braços não obedeceram ao que a cabeça queria – estás a ouvir-me –
acabei por soltá-la no entanto permanecemos frente a frente – não devias
estar de pé – sorri de facto a preocupação dela era verdadeira – ainda
ris? Ruben o médico avisou-te que tens de estar deitado.
- Vim à tua procura – ela abanou a cabeça em sinal de reprovação.
- Regressa para o teu quarto que já lá vou ter – continuava a olhá-la fixamente e sem que
esperasse a Mariana deu-me um beijinho no rosto acompanhado por um sorriso
genuíno o que acabou por reconfortar-me de uma forma estranha – toca a andar
– ela agarrou-me na mão e puxou-me para fora do quarto do irmão – quero ver-te
deitado quando regressar ao quarto – sorriu-me para desaparecer logo
depois.
Regressei ao quarto
mas como estava sem sono agarrei num cobertor e fui até ao exterior do quarto,
estava sentado no cadeirão que existe na varanda quando a Mariana chegou com
duas canecas de chocolate quente e umas bolachas, sorri ao ver que ela não
descura mesmo nos cuidados que tem com as pessoas de quem gosta.
- Estás a rir porquê? E já agora disse que te queria ver
na cama não aqui na varanda –
repreendeu-me.
- Deixa de ser embirrenta, posso não estar deitado mas
estou sentado e sossegado.
- Ok, desta escapas – sorriu – toma pode ser que ao aqueceres o estômago que o sono
regresse – gargalhei – cala-te ou queres acordar a casa toda.
- Se bem conheço o Nuno não acorda, aquele parece uma
pedra quando adormece, pode cair a casa em cima que mesmo assim continua na
dele. Se soubesses as judiarias que a malta lhe fazia quando adormecia durante
as viagens.
- Isso é tudo saudade? – olhei sem entender a pergunta – Do tempo em que jogavam os dois no
Benfica – ela esclareceu.
- Afinal até entendes alguma coisa de futebol pelo menos
sabes de que clube é que viemos.
- Não é difícil saber quando se tem um irmão que adora
aliás ama de paixão gozar com os jogadores desse clube – provocou – e depois o mínimo que posso
saber é quais foram os clubes por onde o meu patrão andou.
- Ah, então o Martim gozava connosco, era?
- Não é bem convosco, acho que é mesmo no geral.
- É o que faz não ter quem o ensine o que é bom – teria continuado mas fui interrompido por
ela.
- Ainda vais bens a tempo de lhe ensinares alguma coisa – fiquei surpreso por ouvi-la e isso foi
visível no meu rosto – o que foi? Será que não farias esse sacrifício pelo
puto?
- O que deixou-me surpreso foi teres proposto que
ensinasse alguma coisa ao teu irmão ainda para mais sobre futebol.
- O que tem? O tema pode não agradar-me mas sempre
eduquei o meu irmão na base das escolhas, sempre tentei fazer com que
entendesse que temos sempre opções, que umas vezes acertamos nas escolhas
outras não por isso no que respeita ao futebol ou à equipa que ele defende não
vai ser muito diferente, o puto tem o direito de puder escolher qual o seu
clube mas cabe-me a mim ou neste caso a quem perceba do assunto mostrar-lhe
outras opções.
- Foi por isso que acabaste por ceder e deixar o teu
irmão entrar para as escolinhas do Braga?
- Sim mas nem me lembres dessa.
- Porquê?
- Olha porque daqui a uns meses lá vou ter que encaixar
mais uma atividade no meu horário, afinal alguém terá que levá-lo ao treino - sorri - mas quando chegar o momento
logo vejo.
- Podes contar comigo se algum dia não puderes basta
dizeres que se estiver disponível levo-o aos treinos - ela sorriu - e agora queres que seja eu
a falar de futebol com ele?
- Ruben tenho que ser realista futebol não é de todo algo
que perceba e muito menos algo que goste, estás em melhor posição para o
fazeres, mas compreendo que tens outras coisas com que te preocupares.
- Deixa de ser tonta – olhou-me – tenho todo o gosto em conversar sobre futebol com o teu
irmão – desta quem gargalhou foi ela – estás a rir porquê?
- Opa, desculpa mas no dia que decidires fazer isso quero
estar presente, é que vai ser lindo de se ver – gozou.
- Estás a gozar, é?
- Não estou a gozar mas que vai ser engraçado lá isso
vai.
- Porquê?
- Talvez porque o Martim é de ideias fixas.
- É, tem a quem sair – provoquei – mas se a irmã acabou por ceder aqui aos encantos do Je,
o puto também vai ceder.
- Deixa de ser convencido – ela afastou-se e foi até à outra extremidade da varanda, fiquei a
observá-la mas quando percebi que estava a ficar com frio coloquei a caneca que
já estava vazia no chão e aproximei-me dela – o que é que estás a fazer?
– perguntou-me assim que a abracei e a embrulhei no cobertor que tinha – não
achas que andas a abraçar-me vezes de mais? – interrogou-me ao mesmo tempo
que tentou ver-se livre dos meus braços.
- E tu não achas
que andas a fugir vezes de mais?
- Ruben, afinal o que é que queres?
- Como assim?
- Como assim? Ruben, já não é a primeira vez que tive a
sensação que queres algo mais por isso aviso já que ou paras com estas
brincadeiras ou afasto-me de vez, tens noiva e deves-lhe respeito, já para não
falar que exijo que o faças comigo, nunca te faltei ao respeito por isso espero
que não faças o inverso.
- Hey, tem calma – ela olhou-me – não quero envolver-me contigo podes ficar tranquila.
- Acho bem caso contrário vai cada um para o seu lado,
não quero nada contigo e muito menos confusões com a tua noiva.
- Se o problema é a Soraia podes respirar de alívio como
vês ela nem sequer cá está.
- Desculpa, toquei num assunto que não devia. Ruben, não
quero ver-te triste por causa dela, esquece-a nem que seja só por esta noite e
vamos para a cama que tens de descansar.
Acabei por fazer o
que pediu e fui deitar-me, ainda dei algumas voltas na cama mas acabei por
adormecer.
Mariana
Passei a noite em
claro, ter partilhado com o Ruben a parte do meu passado que os meus amigos
mais próximos sabem deixou-me abalada mas o que arruinou comigo foi recordar
quem é o responsável por tudo o que aconteceu ao longo da minha vida, aquele a
quem deveria chamar de pai mas que para mim não devia sequer existir.
Acabei por conseguir
“passar pelas brasas” já nas primeiras horas do dia, os raios de sol já
entravam pela janela quando consegui descansar alguma coisa mas despertei pouco
tempo depois uma vez que tinha os meus afazeres, além disso o Martim precisava
de ir para a escola.
Levantei-me com
cuidado para não acordar o Ruben que dormia serenamente e saí do quarto, tinha
que ir despachar o meu irmão que já estava a ficar atrasado para a escola,
passei pelo seu quarto e vi que já não se encontrava na cama, pensei que a
Patrícia o pudesse ter acordado por isso fui procura-lo e foi quando entrei na
sala que deparei-me com o Nuno acompanhado da mãe do Ruben, de um rapaz que não
conhecia e da Soraia.
- Bom dia –
saudei-os.
- Olá, está tudo bem? – a senhora perguntou-me depois de o Nuno ter feito o mesmo.
- Sim e consigo? – desviei o olhar para o rapaz que se encontrava a sorrir.
- Podia estar melhor se o meu filho não tivesse dado este
susto.
- Não fique preocupada porque foi mesmo só um susto, ele
passou bem a noite e daqui a nada já acorda com aquele humor dele – o rapaz gargalhou o que fez com que
olhasse novamente para ele – e você quem é? – o Nuno sorriu, já a Soraia
olhou de lado com o seu ar de importante.
- Hey, trata-me por tu se faz favor que esse você até
deixa-me com cabelos brancos –
olhei-o nada convencida – sou o Mauro, irmão do Ruben.
- Prazer, sou a Mariana – teria continuado mas ele interrompeu-me.
- A Mariana, empregada do Nuno e da Patrícia mas que por
algum motivo cativou a amizade deles e do meu irmão.
- Tem alguma coisa contra? – perguntei imediatamente por não ter gostado do seu tom de voz.
- Não.
Já não lhe respondi
simplesmente olhei para o Nuno e avisei que iria preparar o pequeno-almoço.
- Mariana –
olhei para trás quando já ia a sair da sala.
- Sim, diga.
- Como é que está o meu filho?
- Quando saí do seu quarto ainda dormia mas deve estar a
acordar.
- Passaste a noite com o meu noivo? – ouvi a histérica e antes de lhe responder
respirei fundo.
- Se com o passar a noite quis dizer que fiquei a cuidar
do seu noivo, sim fiquei – o Mauro
sorriu ainda que timidamente - ele só podia ter alta do hospital se alguém
ficasse durante a noite a vigiá-lo, porque apesar de ter sido só um susto não
convinha ficar sozinho e já que a sua noiva estava longe calhou-me a mim ficar
acordada a noite toda para hoje estar cheia de olheiras mas mesmo assim nada
arrependida de o ter feito.
- Estás a insinuar que não preocupo-me com o meu noivo?
- Não – fiz
uma pequena pausa – estou mesmo a afirmar – desta o irmão do Ruben não
se preocupou minimamente em disfarçar e sorriu à “cara podre”.
- Querias que fizesse o quê? Que viesse de Lisboa àquela
hora?
- Qualquer coisa seria melhor do que um simples
telefonema. Desculpe que lhe diga mas não era assim tão tarde que não pudesse
ter vindo para Braga, até lhe digo mais tinha chegado bem a tempo de ter
passado a noite em claro a cuidar dele mas como isso iria provocar-lhe olheiras
resolveu ignorar o facto de o seu noivo estar numa cama de hospital, local que
detesta e sujeito a passar lá a noite porque não tinha ninguém que pudesse
sacrificar umas horas de sono a cuidar dele.
- Insolente.
- Verdadeira e amiga – ripostei – além disso pode pensar o que quiser a meu respeito
porque tenho a consciência tranquila, não virei costas a um amigo e sei muito
bem aquilo que faço e quem sou.
- Petulante –
passou por mim a bufar – vou ver o meu noivo.
- Veja lá se não parte uma unha ao abrir a porta – o Mauro gargalhou o que fez a sua mãe
repreende-lo.
- Desculpe mãe mas desde que saímos de Lisboa que a
Soraia estava a pedi-las.
- Isso não te dá o direito de achar piada ao que se
passou aqui – a mãe do Ruben estava
aborrecida.
- Desculpe que lhe diga mas a Mariana teve muita razão em
tudo o que falou, além disso aqui quem foi insolente foi a Soraia na forma como
insinuou que a rapariga tinha passado a noite com o mano, até parece que não
conhece o Ruben.
Não estava para
ouvir mais aquilo, pedi licença e saí da sala. Comigo veio o Nuno que os deixou
sozinhos talvez por também achar que estaria a mais.
- Desculpe –
falei assim que saímos da sala.
- Mariana, quantas vezes tenho de pedir para tratares-me
por tu? – sorriu – E quanto a
teres respondido à Soraia concordo com o Mauro, ela estava mesmo a pedi-las.
- Mas não devia ter respondido.
- Discordo disso, acho que fizeste bem em responder-lhe
ainda para mais não falaste mentira nenhuma e agora esquece isso.
Acabei por fazer o
que pediu até porque quando entrei na cozinha deparei-me com a Patrícia a preparar
o pequeno-almoço o que deixou-me incomodada, aquilo era obrigação minha e fui
isso mesmo que falei quando tentei terminar o que a Patrícia já tinha começado.
- Deixa de ser teimosa – falou – Mariana, deves ter passado a noite acordada por isso vai
descansar que termino isto.
- Mas posso fazer sem problemas, estou bem.
- Estás bem? Então que olheiras são essas? E essa cara?
Estás abatida e cansada.
- Até pode ser verdade mas ainda aguento – falei já a cortar o pão para as torradas.
- És teimosa, rapariga fizeste aquilo que mais ninguém
teve coragem de fazer, assumiste a responsabilidade de ficar a noite toda
acordada a olhar pelo Ruben só porque o rapaz foi mimado e não quis ficar no
hospital por isso no mínimo agora vai descansar que ele já tem a Soraia para
cuidar dele.
- Isso deve ser para rir.
- Porquê? Não foi para isso que veio?
- Patrícia, acreditas mesmo no que acabaste de falar?
- Não mas é ela a noiva dele e como sei que não queres
problemas não vais ficar no meio deles, logo podes ir descansar que termino
isto e ainda levo o Martim à escola, quanto ao almoço o Nuno vai ter comigo
para comermos e leva o Nuninho. Ah e a Bela já está avisada que pode invadir a
cozinha para preparar o almoço do Ruben e o deles se quiser caso contrário eles
que se virem porque hoje estás de folga e não quero ouvir-te a refilar, estamos
entendidas?
- Sim, mas deixa-me ajudar.
- Qual é a parte que não entendeste?
- Patrícia, estou acordada e sem sono por isso posso
muito bem ajudar-te já que não deixas-me fazê-lo sozinha.
- Tudo bem.
Acabei por ajudá-la
a terminar de preparar o pequeno-almoço e depois de levarmos tudo para a mesa
fui chamar o Nuno juntamente com as visitas e de seguida fui buscar o Nuninho e
o meu irmão.
- Mana como é que está o Ruben? – o meu piolho perguntou quando já estávamos
a comer.
- Está bem.
- Mana –
olhei-o o que serviu de incentivo para continuar a falar – porquê que não
foste tu que foste acordar-me e quando fui ao teu quarto não estavas lá.
- Martim, a mana passou a noite no quarto do Ruben – ele interrompeu-me imediatamente.
- Ah ficaste a cuidar dele como cuidas de mim quando
estou doente – sorri ao ouvi-lo.
- Sim foi isso.
- Então ele fica bom depressa – a Patrícia e o Nuno sorriram tal como o Mauro que estava a olhar para
o meu irmão.
- Vá come que tens de ir para a escola – pedi e ele acabou por se calar.
***
Passei a manhã no
meu quarto não estava com disposição para aturar a Soraia e como o Nuno disse
que ficava com o Nuninho uma vez que estava de folga aproveitei para descansar
um pouco mas acabei por levantar-me.
- Então já acordada? – o Nuno meteu-se comigo assim que viu-me a entrar na sala.
- Parece que sim – ele sorriu.
- Devias descansar que esta semana foi puxada para ti.
- Agradeço a preocupação mas sabes que vaso ruim não quebra
com facilidade por isso não te preocupes que não é por ter passado mais uma
noite acordada que vai fazer diferença.
- Ok, não insisto mais.
- Olha e já agora como é que está o Ruben? – perguntei ao Nuno mas quem respondeu foi o
Mauro.
- Não deve estar lá muito bem – olhei-o – tendo em conta que a Soraia não deixa ninguém se
aproximar.
- Não? Deu-lhe para ser uma noiva preocupada foi?
- Parece que sim – o Mauro respondeu-me a sorrir.
- Ok, resta saber se vai continuar a zelar pelo noivo na
altura de lhe fazer a paparoca –
murmurei mas eles ouviram e por isso gargalharam.
- Bem embirraste mesmo com a Soraia.
- Mauro, certo? – ele abanou com a cabeça em sinal afirmativo – Não tenho nada contra
a noiva do teu irmão desde que se mantenha no lugar dela – ele sorriu – e
não se vire cá para o meu lado está tudo muito bem.
- Ainda vos vou ver a andar à bulha.
- Desculpe? Não sou de andar à bulha além disso não quero
ser acusada de partir uma unha à menina que tem todo o ar de ser daquelas que
fazem um escândalo quando isso acontece – o Nuno ria já o Mauro gargalhou.
- És das poucas pessoas que conheço que não precisou de
muito tempo para entender que a Soraia tem um feitio especial.
- Mauro, não considero que seja burra por isso não foi difícil
entender que a noiva do seu irmão tem ali um problema grave de insegurança já
para não falar que se acha superior às reles empregadas, esquece-se é que são
as reles empregadas que lhe fazem o trabalho, enfim.
- Insegurança?
- Sim, insegurança. Ela tem medo de qualquer rabo de
saias que se aproxime do Ruben que não consegue enxergar o quanto é ridícula.
Se a Soraia se preocupasse mais com o noivo e menos com as raparigas que o
rodeiam talvez não ficasse tão insegura porque já teria percebido que o Ruben a
ama mas isso é problema deles, já são os dois maiores e vacinados portanto que
se entendam e deixem-me de fora.
Teríamos continuado
a falar mas a entrada da Soraia na sala impediu isso, estava sentada ao lado do
Nuno e por lá fiquei até que uns segundos depois de ter entrado resolveu abrir
a boca.
- Mariana –
olhei-a.
- Sim, diga –
respondi educadamente.
- O Ruben está com fome – informou-me.
- Precisa que lhe vá mostrar onde é a cozinha? – perguntei o que levou o Nuno e o Mauro a
terem que se controlar para não rirem.
- Não, quero que vás fazer alguma coisa para ele comer.
- Estou de folga mas se quiser explico-lhe a ciência de
colocar uma panela de água a ferver para cozer umas batatas e uma posta de
peixe, sim porque deverá ser esse o almoço do seu noivo.
- Nuno como é que admites este comportamento da tua
empregada?
- Soraia primeiro modera o tom de voz e segundo controla-te
porque não admito que trates a Mariana dessa forma.
- Empregada é para nos servir.
- Talvez tenhas razão mas tanto quanto sei estás na minha
casa e quando eu e a Patrícia não tratamos a Mariana como uma empregada mas sim
como uma amiga que por acaso até trabalha para nós e que por sinal estamos
satisfeitíssimos com o resultado, exijo que a respeites. Além disso a rapariga
avisou-te que está de folga por isso não é obrigada a servir nenhum de nós, se
o fizer é porque quer e não se importa. A Mariana hoje é só a amiga e não a
empregada.
- Essa é boa, a insolente é a ela e é a mim que chamas a
atenção.
- Insolente? Só porque encontraste pela primeira vez
alguém na vida do Ruben que não tem medo de fazer-te frente que se está
marimbando para o que pensas ou possas ir dizer ao rapaz achas que é insolente?
Soraia, se não implicares com a Mariana podes ter a certeza que ela não se
atravessa no teu caminho, agora não lhe pises os calos porque aí levas com ela
e ainda te habilitas a ser cilindrada pela empregada.
A Soraia não falou mais nada simplesmente saiu da sala e por
isso o Nuno virou-se para o meu lado.
- Mariana, quanto a
ti e apesar de saber que tens todos os motivos para lhe responderes, evita fazê-lo
– olhei-o – a Soraia tem o feitio dela
tal como tens o teu, não estou a defendê-la mas tenta-te controlar porque és
muito mais ponderada que ela e sei que mesmo que te custe consegues fazê-lo.
- Tudo bem.
- Vais ficar chateada
comigo? – perguntou-me ao perceber que tencionava sair da sala.
- Não, vou aproveitar
a minha folga para apanhar ar.
Saí da sala sem lhe dar tempo para responder, sabia que
tinha razão e isso foi o que mais custou mas uma coisa é certo não voltarei a
ser repreendida por causa daquela emproada armada em Rainha.
Como era quase horas de almoço decidi procurar um lugar para
comer, encontrei um restaurante que agradou-me por ter esplanada e apesar do
frio que se fazia sentir foi na rua que almocei.
Já estava a terminar quando vi que o preparador físico do
Braga se aproximava.
- Boa tarde Mariana
– sorriu.
- Boa tarde, está
tudo bem consigo? – perguntei por uma questão de educação.
- Sim, será que posso
fazer-lhe companhia no café? – olhei desconfiada algo que deve ter
percebido porque se apressou a justificar-se – Quero saber como o Ruben passou a noite.
- Sente-se – ele
sorriu e depois pediu o seu café – quanto
ao Ruben passou bem a noite.
- Deixou-o sozinho?
- Gente de volta dele
não lhe falta, quando saí de casa deixei-o com a mãe, com a noiva, com o irmão
e com o Nuno.
- Mas não teve
indisposto, nem com dores de cabeça durante a noite, correto?
- Não se preocupe que
ele está pronto para outra – o Miguel sorriu – nada como umas boas horas de sono em casa para resolver o assunto.
- Teve uma atitude
bonita – olhei-o novamente – em ter
assumido a responsabilidade de ficar com ele.
- Os amigos são para
isso.
- Posso confessar uma
coisa?
- Já vem por aí
disparate – ele gargalhou – desculpe
mas diga.
- É sempre assim tão
espontânea?
- Tem dias mas
acredito que não era isso que queria dizer.
- Tem razão –
olhou-me – o que queria dizer é que por
momentos pensei que fosse você a noiva do Ruben.
- Eu? Credo que o
diabo seja cego, surdo e mudo – o Miguel gargalhou.
- Então? Seria assim
algo tão mau?
- Expressei-me de
forma incorreta, o que quis dizer é que não tenho feitio para namorada quanto
mais noiva de alguém muito menos de um jogador de futebol que tem sempre não
sei quantos olhos em cima dele.
- Isso quer dizer que
está solteira?
- Isso quer dizer que
você é um bocado atiradiço, não? Desde quando é que o meu estado civil lhe
interessa?
- Desculpe, não quis
invadir a sua privacidade mas confesso que deixou-me curioso.
- E posso saber
porquê?
- Posso ser sincero
consigo sem correr risco de vida – sorri não sei porquê mas estava a gostar
deste bocadinho.
- Pode, prometo que
vou controlar-me mas ainda assim é melhor não abusar da sorte – ele sorriu.
- Fiquei curioso
devido à forma como tratou o Ruben quando ainda estava no hospital, meteu-o na
linha sem que ele refilasse muito o que sinceramente pelo pouco que conheço do
Ruben é algo incomum – sorri ao ouvi-lo, não deixava de ter razão – e depois a forma como se preocupou com ele
demonstra que é uma boa amiga.
- Isso de boa amiga
varia consoante os olhos que nos olham.
- Agora não entendi.
- Deixe, é uma longa
história e acredito que deve ter mais que fazer.
- Por acaso até não
tenho, afinal estou de folga.
- Somos dois –
ele sorriu – mas agora vou ter que ir.
O Miguel não falou mais acabamos por nos levantar e ir pagar
a nossa despesa, cada um pagou a sua e quando já ia para despedir-me dele, o
Miguel perguntou se iria para casa.
- Posso saber o
motivo de tal pergunta?
- Gostava de ir ver o
Ruben, só por isso.
- Hum, não vou já
para casa mas se quiser posso dar-lhe a morada e você vai lá vê-lo.
- Agradeço se puder
fazer isso.
Após revirar a minha mala de pantanas lá consegui encontrar
a caneta e depois de escrever a morada num papel entreguei ao Miguel, que mais uma
vez agradeceu para depois finalmente seguirmos cada um o seu caminho, não sem
antes ter-me despedido dele que ao contrário das outras pessoas que têm a mania
irritante dos beijinhos ele simplesmente esticou a sua mão, apertei-a e virei
costas com a sensação que irei cruzar-me mais vezes com ele, ideia que não
desagrada de todo uma vez que gostei da sua atitude.
Passei as horas seguintes a bater perna na avenida principal
de Braga, podia não ter dinheiro para gastar mas sempre adorei passear e ver
coisas novas. Quando reparei já era horas de ir buscar o Martim e por isso fui
até à escola, o meu piolho assim que me viu correu e como sempre atirou-se para
os meus braços, fomos o caminho todo a falar do seu dia de aulas e dos
trabalhos que tinha para fazer.
***
- Mana – o meu
piolho apareceu na sala.
- Diz.
- Queres ir brincar
comigo para o jardim.
Sorri e como é lógico aceitei o desafio, adoro brincar com
ele principalmente ao ar livre onde podemos correr que nem desalmados, sempre
que o faço sinto-me livre por momentos é como se os problemas todos deixam de
existir.
Estava a jogar à apanhada quando reparei que estávamos a ser
observados, o Ruben estava na varanda do seu quarto a olhar-nos e assim que
percebeu que a sua presença tinha sido notada acenou, teria retribuído o gesto
mas como a Soraia grudou nele de forma imediata resolvi fingir que não tinha
visto e acatar o pedido do Nuno. Continuei na brincadeira com o meu irmão até
que nos cansamos e regressamos para dentro.
- Boa tarde novamente
– sorri ao ver o Miguel o que deixou todos os presentes a olharem nomeadamente
o Ruben que já estava na sala sentado a fazer companhia à visita dele.
- Afinal sempre nos
voltamos a encontrar.
- Parece que sim
– teria continuado a falar com o Miguel mas a pergunta do meu irmão impediu
isso.
- Mana quem é?
- É o Sr. Miguel
Moita preparador físico do Braga.
- Ah isso quer dizer
que trabalha com o Nuno e com o Ruben – eles gargalharam.
- Sim, trabalha com
eles – o Miguel sorria ao olhar para o meu irmão.
- Então e tu como te
chamas? – meteu-se com o meu irmão.
- Sou o Martim e
irmão da Mariana.
- Muito prazer –
o Miguel cumprimentou o meu irmão que depois disso se foi sentar ao lado do
Ruben e do Nuno – engraçado o miúdo
– comentou comigo.
- Tem dias mas sim
não posso queixar-me – respondi e teria continuado à conversa se o Ruben
não falasse.
- Mas isto é assim? Ó
Mariana o Miguel veio visitar-me a mim não foi a ti – olhei-o
- Desde quando é que
controlas com quem falo ou deixo de falar? Mas não te incomodes porque já estou
de saída.
Não tinha entendido a implicância do Ruben mas sinceramente
também não quis alongar mais aquilo, despedi-me do Miguel e fui até ao meu
quarto queria tomar um banho e mudar de roupa pois estar a brincar com o Martim
deixa-me sempre de rastos, aquele pirralho tem uma energia terrível que dá cabo
de mim em três tempos.
***
Estava na sala acompanhada pelos meus amigos e pela família
do Ruben a fazer tempo para ir preparar o jantar que após ter insistido
consegui convencer a Patrícia a não encomendar comida quando o meu irmão se
veio sentar ao meu colo.
- Mana posso fazer
uma pergunta?
- Diz.
Que pergunta será? E irá o Martim deixar a irmã sem resposta?
Olá:)
ResponderEliminarQuando vi o titulo só pensei ai vem mais uma troca de palavras,só espero que a Mariana diga umas verdades!
Quanto às conversas de futebol do Rúben e do Martim isto sim é algo bonito de ser ver xD
Agora o que será que o Martim quer perguntar à mana?
Rápido!
Beijinhos
Rita
Olá :D
ResponderEliminarAdorei o capítulo! Esta fic está cada vez melhor : )
Beijinhos
Ritááá xD
Hoje a coisa correu bem para o meu lado... :D a perua levou "porrada" de vários lados :D :D :D
ResponderEliminarAi e os abraços constantes do Ruben à Mariana??? Acho que o Ruru já estava com vontade de mais carinho...
Estou a ver que este Miguel vai começar a aparecer... vai dar que falar, bem o Ruben ficou com ciumes claramente ;)
Quero mais, como é fim de semana devias dar-nos mais um capitulo ;)
Beijinhos linda.
A única coisa que posso dizer é um que preciso dos próximos, pelo menos 15, capítulos com muita urgência!!!
ResponderEliminarBjokinhas
Mariaa
fantastico... agora tou curiosa para saber o k o martin vai perguntar a irma...
ResponderEliminarcontinua... quero mais...
Eu realmente qando li o titulo ainda pensei qe viesse aí porrada da boa :p e realmente essa soraia anda a merecer!
ResponderEliminarE o Rubinho realmente anda a qerer muitos abraços ^^, agora é qe vamos ver os ciuminhos do menino em relação ao Dr.? ahah vou qerer ver o qe vem daí!
Beijinhoo
Olá!
ResponderEliminarBem, esta Soraia já podia ir até Milão ver umas lojinhas de roupa e ficar por lá a arranjar as unhas...
E quanto a este Miguel, ui ui que eu acho que vai dar em confusão. Já estou a ver o menino Amorim com um ataque de ciúmes.
E quanto ao Martim até tenho medo! Sai cada pergunta do pirralho xD
Espero pelo próximo!!!
Beijo
Ana
http://desempreparasempre28.blogspot.com/
Adorei, para não variar! Com tanto abraço, parece-me a mim que o Ruben anda a ficar muito carente por mimos da Mariana! :P
ResponderEliminarE quer parecer-me também que vêm aí mais surpresas... esse Miguel ainda vai dar que falar!
Quero o próximo o quanto antes, estou a ficar cada vez mais rendida à história. :)
Beijinhos, minha linda :)
O menino Ruben anda muito carente, só quer abracinhos da Mariana.
ResponderEliminarEsta Soraia... haja paciencia, bem que o Ruben lhe podia meter uns patins e mandá-la dar uma curva, de preferência uma curva bem grande, que mulherzinha chata, mas a Mariana é que a mete na linha. Adorei, como sempre, mas este Miguel, vamos ver se isto não dá confusão, porque o Amorim já lhe deu uma picada de ciúmes.
Quanto à perguntinha, o puto deve ir fazer alguma das dele.
Beijocas
Fernanda