Ruben
A atitude da Mariana apesar de não ter surpreendido uma vez
que tenho consciência que ela faz qualquer coisa pelas pessoas de quem gosta
deixou-me em certo modo feliz, pois não tinha obrigação nenhuma de o fazer e
menos ainda sem lhe ter pedido, ela demonstrou preocupação coisa que a minha
noiva não fez, sei que está em Lisboa e que não adiantaria nada vir para Braga
a correr mas pelo menos podia ter demonstrado mais interesse mas bastou ter trocado
meia dúzias de palavras comigo e lhe ter dito que estava bem para ela não
insistir mais.
Estava no quarto e a pensar nisso quando a Mariana regressou
com algo para comer mas como não consegui acabamos por ficar à conversa, até
que resolvi perguntar algo que a deixou incomodada ainda assim respondeu-me.
- Mariana fizeste
referência que já dormiste no chão – ela olhou-me – isso quer dizer mesmo o quê?
- Podia dizer que é
porque já fiz campismo mas estaria a mentir.
- Passaste assim
tantas dificuldades? – perguntei com algum receio que reagisse mal.
- As dificuldades
foram muitas mas nunca dormi na rua se é isso que queres saber – ela olhou-me
– tive falta de muita coisa mas um teto
nunca faltou.
- Desculpa, estou
para aqui a tocar num assunto que não gostas de falar.
- Ruben, o problema
não é falar mas sim recordar no entanto é a minha história, é por tudo o que
passei que cheguei aqui.
- Posso fazer-te uma
pergunta?
- Podes.
- Ainda manténs o
contacto com a tua família?
- A única família que
tenho é o Martim.
- Mariana estou a
falar dos teus pais, tios ou avós – ela olhou-me.
- Ruben os únicos
avós que conheci faleceram ainda quando era uma criança nem sequer tenho
recordações deles.
- Não tens mais
família?
- Já te disse que a
única que tenho é o Martim.
- Mas – ela interrompeu-me.
- Mas nada, Ruben
entende que lá porque tens a sorte de poder chamar mãe e pai às duas pessoas
que te trouxeram ao mundo que para ti são as mais importantes, eu não tenho
essa mesma sorte, a senhora que carregou-me no seu ventre durante nove meses é
alguém de quem não tenho orgulho nenhum e o responsável por ela ter feito o
sacrifício de carregar-me e depois parir nem sequer se dignou a conhecer a sua
filha, por isso não sei ao que queres que chame de família.
- Mas não sabes quem
é o teu pai?
- Irra que hoje estás
impossível – refilou, ainda assim respondeu – durante anos não fazia a mais pequena ideia mas hoje sei quem é o filho
da mãe responsável por ter vindo a este mundo.
- Como é que
descobriste – ela suspirou.
- Porque quis saber
quem era e quando tive oportunidade perguntei à pessoa que deveria chamar de
mãe, ela contou-me isso tal como contou a parte da minha infância que mal tinha
recordações.
- Isso quer dizer que
manténs contato com ela.
- Mesmo sério o que é
que queres?
- Gostava de saber
mais sobre ti.
- Ruben será que não
entendes que dói sempre que falo disso.
- Compreendo isso
tudo mas não nego que a curiosidade é muita ainda para mais depois dos avisos
todos do Nuno para manter-me afastado de ti, juro que não percebo o motivo do
pedido dele.
- O Nuno só quis
evitar isto que está a acontecer agora.
- Não confias em mim?
- Confio.
- Então conta-me algo
mais sobre ti.
- Porquê que estás
assim tão interessado em saber?
- Porque gosto de ti
e sinto cada vez mais a necessidade de saber o que realmente aconteceu contigo,
este mistério todo à volta do teu passado deixa-me intrigado – ela olhou-me
– Mariana podes não acreditar mas dou
comigo a pensar em ti, em como dava tudo para que pudesses esquecer esse
passado que apesar de não saber qual é tenho a perfeita noção que atormenta-te
todos os dias, que por causa dele não consegues seguir verdadeiramente em
frente, que continuas pressa a essa dor, mas que depois também é esse passado
que faz com que estejas hoje aqui deitada ao meu lado e preocupada comigo.
- Ruben compreendo
que fiques curioso mas acredita a minha história não é de todo bonita, não é
algo que mereça ser contado, não é mais que uma infância de sofrimento e
abandono igual a tantas outras que andam por aí – ela levantou-se e foi até
à pequena varanda para o qual o meu quarto tem acesso direto.
- Mariana chega aqui
– pedi algo que ela não cedeu e por isso mesmo levantei-me para ir ter com ela.
- O que é que estás
aqui a fazer? – perguntou-me a olhar para as estrelas e a tentar disfarçar
a voz de choro.
- Desculpa –
aproximei-me dela – linda não queria que
ficasses assim – falei com os remorsos de vê-la a chorar a consumir-me por
dentro afinal foi devido à minha insistência em falar de um passado que ela só
quer esquecer que ficou triste.
- Isto já passa –
limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto – agora vai-te deitar – olhou-me – tens que pensar em ti e na tua recuperação para isso precisas de
repouso.
- Chega – elevei
ligeiramente a voz o que fez com que ela olhasse novamente – chega de quereres à força demonstrar que
nada te deita a baixo, que não precisas do mesmo apoio e dedicação que dás aos
outros, que consegues lidar com tudo e com todos sozinha, Mariana tens amigos
que se preocupam contigo, se soubesses o que custa olhar para ti e ter a
certeza que não estás bem mas só porque nunca tiveste ninguém que se
preocupasse contigo no passado achas que no presente também não tens foges das
pessoas que só querem o teu bem. Caramba se soubesse como és especial para mim,
como a tua amizade é importante não fugias a sete pés.
- E se soubesses a
quantidade de pessoas que ao longo dos anos entraram na minha vida mas que
depois saíram sem dar uma única explicação não achavas a minha atitude tão
descabida. Ruben, estou farta de deixar as pessoas entrarem na minha vida para
depois vê-las a saírem, será assim tão difícil entenderes que dói, que machuca
ver as pessoas que um dia chamei de amiga ou amigo desaparecerem da minha vida
só porque encontram outra pessoa que pode ocupar o meu lugar ou porque
encontraram a cara-metade e que por isso se afastam pois não querem problemas
com essa pessoa, juro que os entendo, sei o que é ter que optar por duas
pessoas que gostamos, sei como dói ter que olhar nos olhos da pessoa que amamos
e dizer que já não sentimos nada por ela para que possa seguir a sua vida sem
sofrer, até pode ficar-te a odiar eternamente mas pelo menos não fica a odiar-se
a si própria por ter falhado. Ruben será que ainda não entendeste que se
permito que te aproximes mais do que já estás que vais ter problemas com a
Soraia, não há mulher nenhuma que ature a amiga do namorado entre eles, percebe
de uma vez que é na tua noiva que tens de pensar e não em mim que não te sou
nada.
- Não és nada?
Mariana neste momento estás a ser mais que ela que nem sequer está aqui.
- Não dificultes –
ela olhou-me – Ruben ou aceitas as
coisas como estão ou então podes ter a certeza que afasto-me de vez.
- Porquê que estás a
ser assim?
- Talvez porque tenho
noção que daqui a uns meses vai cada um para o seu canto ou achas que depois de
casares vamos poder continuar a manter esta amizade? Ruben, a Soraia não foi
com a minha cara desde o primeiro segundo achas mesmo que depois de casares que
vai suportar a minha presença, achas? Ela é mulher quer-te só para ela e por
muito que sejas só meu amigo, que só te vejo como tal, aos olhos dela será
sempre algo mais, não quero nem posso ser a responsável pela tua infelicidade,
não dá, não consigo, já perdi amigos à custa disso e entre ver-te partir já ou
daqui a uns meses prefiro que seja já.
- E se eu te dizer
que já é tarde, que não vou aceitar isso, que por muito que ela reclame não vou
vergar perante a vontade dela, a Soraia não é minha dona.
- Mas será a tua
esposa e mãe dos teus filhos, é a mulher que escolheste para casar por isso no
mínimo deves-lhe respeito.
- Achas que por ser
teu amigo estou a faltar-lhe ao respeito, é? Então e ela não respeitar as
minhas amizades não é também uma falta de respeito? Por muitos ciúmes que possa
ter, ciúmes esses sem fundamento porque não existe nada entre nós além de uma
amizade, ela não tem o direito de separar-me das pessoas que quando preciso
estão do meu lado.
- Ruben, não sabes o
que é termos que abdicar de quem amamos por isso não digas isso, não faças
promessas que não possas cumprir.
- Estás a insinuar o
quê? Que por acaso nunca sofri, é?
- Não, estou a dizer
que nunca abdicaste de alguém que tenhas amado verdadeiramente pois caso
contrário não dirias isso, saberias o quanto dói ver essa pessoa desfeita
porque lhe falamos não dá mais ou já não te amo quando o que sentias era
exatamente o contrário.
- Acredito que tenhas
sofrido bastante mas não penses que foste a única, é verdade nunca tive que
abdicar de ninguém, que não sei o que é isso, mas por outro lado sei o que é
estar rodeado de pessoas interesseiras, que passam anos a dizer que são tuas
amigas mas quando precisas delas fogem, desaparecem e é como se nunca tivessem
existido na tua vida, por isso sei reconhecer quando é que tenho alguém do meu
lado que está a ser falsa, coisa que não acontece quando te olho nos olhos.
Mariana, hoje quando
entraste naquele quarto do hospital voltei a ter a mesma certeza que tive no
dia que retiraste-me da piscina, no dia que pensei que a minha relação com a
Soraia não tinha mais volta, tu preocupaste verdadeiramente com as pessoas, dás
muito mais de ti do que recebes, simplesmente ages de acordo com os teus
princípios que acredito cada vez mais que os obtiveste sozinha. São pessoas
como tu que quero do meu lado e por elas faço qualquer coisa, tal como serias
capaz de te afastares de mim para que não tenha problemas com a Soraia também
sou capaz de ir atrás de ti, entende de uma vez que quem escolhe os meus amigos
sou eu e nunca ninguém que possa estar do meu lado, mesmo que seja a mulher que
amo e que quero para minha esposa.
Mariana é verdade que
chocamos ao início que por um ou outro motivo não começamos bem mas também é
verdade que naquela noite quando olhei nos teus olhos entendi que se tivesse
calma, que se desse tempo para perceberes que não era quem julgavas, que
conseguiria receber a tua amizade sem pedires nada em troca, porque foi isso
que fizeste naquela noite, mesmo com tudo o que pensavas a meu respeito
percebeste que não que não estava bem e preocupaste comigo, fizeste de tudo
para que compreendesse que se estava a passar por aquilo foi porque também
contribui para que tal acontecesse por isso não venhas agora pedir para afastar-me
de ti, porque além de não querer não consigo.
- Falaste bonito mas
quando chegar o dia de teres que optar irás fazê-lo e quando temos de lados
opostos alguém que amamos ou simplesmente uma amiga, escolhemos sempre quem
amamos. Não adianta dizeres o contrário porque já tive que fazer essa escolha
por isso sei do que falo.
- Desculpa mas não
acredito que tenhas voltado as costas a uma amiga só porque do outro lado
tinhas alguém que amavas, isso não é algo que conseguirias fazer.
- Tens razão não
voltei costas a uma amiga mas sim a um amigo que naquela altura era também um
amor porque tive de escolher entre dois rapazes e dois amores, lógico que
escolhi aquele que sei que nunca irá desiludir-me, escolhi o meu irmão – a
Mariana chorava desalmadamente o que sinceramente estava a deixar-me mal, muito
mal mesmo – e ainda bem que o fiz,
porque hoje quando olho para o rapaz que um dia foi dono do meu coração vejo-o
verdadeiramente feliz ao lado de outra que pode dar o que nunca teria sido
capaz, hoje somos conhecidos mas no passado fomos muito mais.
- Desculpa mas esse
rapaz não te amava caso contrário não obrigava-te a escolheres entre o teu
irmão e ele.
- Ruben não fales do
que não sabes – a Mariana que até ao momento estava encostada à parede
deixou-se escorregar até sentar-se no chão.
- Posso não saber as
circunstâncias que o levaram a pedir-te que fizesses tal escolha mas só alguém
que não te conhece verdadeiramente é que seria capaz de tal coisa, nunca na
vida irás abandonar o Martim.
- A escolha que fiz
foi muito antes do meu irmão nascer, a escolha tive de fazer no momento que
decidi lutar pela vida de alguém que nem sequer sabia se iria sobreviver ou
como é que iria nascer, não condeno o que ele fez, o Bruno só pediu que
esquecesse o passado, que olhasse para o presente e futuro, talvez por saber o
quanto já tinha sofrido e que iria sofrer à custa da minha decisão, juro que o
entendo e por muito que custe admitir nos primeiros meses de vida do Martim
pensei nisso tanta vez, dei comigo a pensar em como seria tudo diferente se
aquela mulher que um dia chamei de mãe não tivesse aparecido à minha frente grávida,
não fazes a mais pequena ideia do que foi ter que enfrentar a mulher que trouxe-me
ao mundo e lutar na justiça pelo meu irmão, apesar de tudo custou-me ver o
filho a ser retirado a ela ainda assim não me arrependo do que fiz, escolhi
lutar pelo meu irmão mesmo sem saber se um dia o iria conseguir ter nos meus
braços e por isso abdiquei de uma parte da minha vida mas não tinha o direito
de fazer o Bruno reviver tudo novamente, ele tal como eu também tem um passado
que em determinado momento se cruzou com o meu, crescemos juntos, tornamo-nos
cúmplices e sinceramente hoje quando falamos disso achamos que confundimos
companheirismo com amor, não guardamos mágoa e apesar de termos seguido
caminhos ligeiramente diferentes sempre que nos encontramos é como se nunca nos
tivéssemos separado por isso não admito que julgues o Bruno só porque um dia
pediu que escolhesse o rumo que queria para a minha vida.
- Mariana sai do chão
– pedi – por favor – estiquei-lhe a
mão para a ajudar – anda vamos para
dentro que está frio – pedi quando ela já estava abraçada a mim no entanto
continuava a chorar imenso, não conseguia controlar as lágrimas e sempre que
lhe olhava nos olhos via sofrimento o que estava a deixar-me revoltado – deita-te e descansa – pedi algo que ela
fez sem contestar, acho que estava absorvida na dor de ter recordado parte do
seu passado.
Ficamos simplesmente deitados lado a lado e no silêncio, só
se ouvia as nossas respirações, a dela por sinal pesada. Estava a olhá-la
quando do nada vi que já chorava novamente, aproximei-me dela e ao abraça-la a
Mariana voltou a quebrar, soluçava de tanto chorar e quando acalmou ouvi algo
que não esperava.
- Ruben, o que vou contar não é fácil mas já percebi se
não o fizer que não vais deixar-me em paz, que irás sempre insistir comigo e
como não posso nem quero andar a falar disto aos poucos prefiro dizer de uma
vez – estava a olhá-la – podes
fazer as perguntas que quiseres que tentarei responder a todas.
- Tens a certeza que queres fazer isso?
- Tenho –
suspirou – podes começar.
- Não é difícil adivinhar que a tua vida não foi fácil
por isso prefiro que sejas tu a contar, assim só falarás do que queres – ela suspirou e quando abriu a boca foi
para começar a desbobinar todo um passado.
- Quando se tem um
pai que não quer saber de ti, que assim que teve conhecimento que a rapariga com
quem se andava a divertir estava grávida simplesmente desapareceu e uma mãe que
em vez de alimentar a filha preferia usar o pouco dinheiro que consiga a vender
o corpo para comprar droga, é difícil acreditar que a minha vida tenha sido fácil
– fez uma pequena pausa mas prosseguiu - percebes
agora porquê que não gosto de falar da minha mãe? Porque acredita que saltar
algumas refeições sem comer foi o mal menor no meio de tudo o resto.
- Não tiveste ninguém da família que te acolhesse? –
perguntei incrédulo.
- Tive mas sinceramente preferia ter andado na rua atrás
da minha mãe.
- Foi assim tão mau?
- Desde que fui entregue a umas pessoas que segundo
consta são meus tios que fome nunca passei mas em contrapartida apanhei que me
fartei, era o que se chama o bobo da corte, pau para toda a obra.
- Foste vítima de violência? – perguntei com receio
de ouvir a confirmação do que mais condeno.
- Fui, os meus parentes diretos não são o protótipo
daquilo a que não se deve chamar de família – a Mariana já estava novamente a chorar ainda assim prosseguiu – e
se consegui escapar à
violência que era submetida praticamente todos os dias bem posso agradecer a uma senhora que
infelizmente já partiu, ela era vizinha dos meus tios e com o passar dos meses
percebeu que eles não seriam as pessoas indicadas para cuidar de mim e
denunciou o caso às autoridades, fui retirada a eles e passei os anos seguintes
numa instituição, até atingir a maioridade e ter que aprender a virar-me sozinha – ela parou talvez na esperança que não
fizesse mais perguntas mas tinha uma que precisava de resposta.
- Mariana, quantos anos é que viveste nessa situação?
- Entre ter ficado ao Deus dará sempre que a minha mãe
saía para arranjar dinheiro para a droga e a ser deixada por ela na casa dos
meus tios até ir para a primeira instituição, foram dois anos no máximo.
- Tinhas que idade quando entraste para a instituição?
- Sete.
- Espera aí andaste sete anos nessa situação? – perguntei incrédulo.
- Não, pelo que a minha mãe contou, durante os meus
primeiros cinco anos de vida tive uma infância normal, com bastantes
dificuldades mas normal, o problema começou quando a minha mãe caiu na droga,
ainda assim tentou salvar-me daquele mundo, entregando-me aos meus tios,
infelizmente não foi a melhor opção.
- Isso quer dizer que apesar de tudo ela pensou em ti se
deixou-te com os teus tios deve ter sido por pensar que seria o melhor.
- Porquê que achas que apesar de tudo nunca a odiei? E
que assim que saí da instituição a primeira coisa que fiz foi andar quase um
ano à sua procura, até que a encontrei, queria olhá-la nos olhos e dizer que
fui capaz de sobreviver. Chama-me parva as vezes que quiseres mas tive a
necessidade de lhe agradecer ter-me deixado com a sua irmã porque apesar de
tudo foi à custa disso que consegui crescer minimamente bem – a Mariana teve que parar por uns segundos
mas voltou a falar - quando encontrei a minha mãe ela estava mais ou menos,
consumia mas era algo que dava para ir levando, tentei aproximar-me dela e
consegui convencê-la a fazer uma desintoxicação, apoiei-a e quando pensei que o
pior já tinha passado, que podia ter finalmente a minha mãe novamente comigo
voltou tudo ao mesmo, ela teve uma recaída e por isso afastei-me, não consegui
perdoar-lhe isso, posso estar a injusta ao não perceber o quanto é difícil um
ex drogado continuar limpo mas ela não tinha esse direito, não quando tinha-me
do seu lado a apoia-la, naquela altura fiz de tudo para que conseguisse
reconstruir a sua vida e quando já até tinha um trabalho voltou a drogar-se,
acho que o meu erro foi mesmo ter permitido a ela ter o seu próprio dinheiro
mesmo por muito pouco que fosse.
A desilusão foi tão grande que deixei de ter qualquer
contato com ela até que descobri por mero acaso que estava grávida e desde esse
dia não descansei até conseguir afastá-la do Martim. Acompanhei os últimos três
meses da gravidez, dei comigo a implorar a tudo e a todos para que o meu irmão
nascesse sem nenhum problema provocado pelas drogas, algo que felizmente
aconteceu e assim que nasceu mexi-me imediatamente para que fosse retirado à
minha mãe, preferia ir vê-lo nos dias e horas estipulados à instituição onde
estava do que vê-lo a passar pelo mesmo que passei. Durante os primeiros meses
de vida dele andei numa roda-viva entre o trabalho e a luta constante para
provar que tinha condições para o criar mas felizmente consegui ganhar essa
batalha. Desde o dia em que pude levar o Martim para casa até hoje a prioridade
é ele.
A Mariana rompeu
novamente num choro profundo e acabou deitada ao meu lado e nos meus braços,
foi assim que a consegui acalmar e quando pensava que já tinha terminado ainda
ouvi mais.
- Mas o pior nem é isto, o pior é ter que privar o meu
irmão de ter qualquer contato com ela, no fundo sei que ela à sua maneira gosta
do Martim e isso machuca imenso, principalmente de todas as vezes que ela tenta
uma aproximação, a minha mãe sempre que está melhor procura-me, porque quer
conhecer o filho que lhe roubei à nascença, foi por isso que saí de Lisboa, já
não dava para aguentar mais, tive que fugir para que o Martim cresça longe do
mundo para o qual a nossa mãe insiste em arrastar-nos.
A Mariana calou-se
finalmente mas ao contrário das outras vezes ficou a olhar-me, talvez à espera
de algumas palavras de conforto, palavras essas que não consegui dar, aliás
acabei mesmo por admitir isso.
- Nem sei o que dizer.
- Não digas nada – ela voltou-se a deitar e focou o olhar algures num ponto do teto.
- O Nuno e a Patrícia sabem disto? – perguntei uns minutos depois.
- Ya, contei uns meses depois de vir trabalhar para cá.
- Agora entendo porquê que o Nuno pediu para não chatear-te
quando andei a tentar descobri qual era a tua história.
- Isto não é algo que goste de falar como deves calcular
mas também não o escondo, é o meu passado, foi a vida que tive e com aquela que
aprendi a lidar – falou agora mais
calma.
- É preciso coragem para conseguires seguir em frente.
- Não partilho da mesma opinião, não é uma questão de
coragem mas sim de sobrevivência.
- Posso só fazer mais duas perguntas?
- Diz.
- Quem é o pai do
Martim?
- O pai dele é um
drogado ainda mais agarrado que a minha mãe, sei quem é mas nunca quis ver o
filho e para ser sincera acho que nem tem consciência que o Martim existe.
- E o teu, sabes quem
é?
- Sim mas nunca o
procurei e duvido muito que se por mero acaso nos cruzássemos que ele iria
reconhecer-me dado que nunca quis conhecer-me.
- Porquê que nunca o
procuraste?
- Tenho as minhas
razões para o deixar quieto no seu canto e essa é a única parte do meu passado da qual não falo mesmo, o nome do
responsável por ter vindo ao mundo nunca será revelado, pelo menos não por mim,
quero que vá morrer bem longe de mim.
- É alguém conhecido? – perguntei sem ter dado conta disso, talvez por ter ficado com essa
sensação o que fez com que a Mariana olhasse para mim - Desculpa não queria
deixar-te ainda mais triste – falei depois de a ver novamente com as
lágrimas nos olhos.
- Não faz mal mas sim ele é conhecido mas é alguém a quem
não quero ser associada e de quem não falarei, por mim nunca ninguém saberá o
canalha que ele foi e muito menos serei acusada de destruir uma família.
- Isso quer dizer que tens irmãos?
- O único irmão que tenho é o Martim se o filho da mãe
tem mais filhos não sei nem interessa e agora não insistas mais por favor – pediu novamente com as lagrimas nos olhos.
- Não fiques assim – ela olhou-me – Mariana foste tu que falaste que a força está dentro
de nós, que só temos que aprender a usar, linda sabes melhor do que ninguém
usar essa força que tens dentro de ti por isso não quero ver-te triste e podes
ficar tranquila que o que revelaste hoje não sai nunca deste quarto, ficará
sempre só entre nós, tal como não irei fazer mais perguntas sobre o teu pai.
- Obrigada.
Não consegui dizer
mais nada, as palavras da Mariana não saiam de forma alguma do meu pensamento e
por muito que tentasse imaginar o quanto ela sofreu não consigo, era nisso que
estava a pensar quando fui interrompido por ela.
- Ruben, porquê que desde o início quiseste aproximar-te
de mim? – olhei-a e sorri.
- Para ser sincero nem sei responder a isso, acho que
achei engraçada a forma como reagiste quando fomos apresentados, o teres fugido
só porque cumprimentei-te com um beijo no rosto quando estavas de mão
estendida.
- Não sei onde está a piada, para mim o que fizeste é
abuso de confiança.
- Achas mesmo isso? Mariana, já não vivemos no século
passado, hoje é normal um rapaz cumprimentar dessa forma uma rapariga que acaba
de conhecer.
- Não quando essa rapariga é empregada e está diante do
seu patrão.
- Agora estás a exagerar, sabes muito bem que para o Nuno
és mais amiga do que empregada.
- Mesmo assim, não devias ter feito aquilo.
- Mariana, confessa de uma vez que o problema não foi a
minha atitude mas sim o teres algo contra os jogadores de futebol, sim porque
já entendi que tens alguma coisa contra aquilo que faço.
- Estás a exagerar – ela tentou desconversar.
- Será que estou? Mariana podes não querer falar disso
mas não digas que estou a exagerar.
- Ok, confesso que até conhecer o Nuno a minha opinião
não era nada favorável mas tal como nas outras profissões existem cabrões e
filhos da mãe – olhei-a – na
vossa também existe alguns que escapam.
- Alguns? Estás a partir do pressuposto que a maioria não
tem princípios é isso?
- Não quero falar disso.
- Porquê?
- Não insistas ou ficas sozinho.
- Ok, desculpa
– ela não falou mais simplesmente se virou para o outro lado.
Depois da revelação
de parte do seu passado como é que ficará a Mariana? E este incómodo todo por
causa da profissão do Ruben e do Nuno será que está ligado também ao passado?
Olha a tua sorte é que estou no.sítio certo para ter um ataque. Então isto lá é infância que se tenha?
ResponderEliminarAgora estou ansiosa pela resposta a questão que deixas no final e espero que venha rápido.
Jokinhas
Mariaa
magnifico... fabuloso...
ResponderEliminarquero mais... tou super curiosa para ver o proximo... continua... cada vez ta mais cativante a tua fic...
Pois como eu já imaginava o passado da Mariana era bem difícil e ligado a um problema tão grave da nossa sociedade como a droga... o pior é que há muitas "Marianas" e o que acabo de ler mexe muito comigo.
ResponderEliminarE sim há algo no passado de Mariana ainda para descobrir com "futebolistas"
Muito bom!!!
Quero mais!!!
Beijinhos.
Eu tenho impressão qe o pai dela é do mundo da bola...uii, qe isto ainda vai aquecer mais!
ResponderEliminarEstá lindoo e estes dois teimam na amizade, qal amizade qal qê :p
Beijinhooo
Olá :)
ResponderEliminarADOREI!
Fiquei a morrer de curiosidade quanto ao passado da Mariana,e pelos vistos está relacionado com "a bola" :P
Quero MAIS!
Beijinhos
Rita
primeiro peço desculpas por nao te ter comentado os ultimos dois capitulos mas só agora consegui pôr me a par da leitura! :S
ResponderEliminarsegundo, tenho-te a dizer que estou a ficar cada vez mais amarrada à tua história, este passado complicado da Mariana, o pai dela...hum...tenho cá umas suspeitas!! LOL
tudo está maravilhoso e por isso quero muito ler o proximo!!
ficarei à espera!!
beijinhos :)
Olá!
ResponderEliminarBem, este passado eu nao esperava!
E algo me diz que já encontrei a chave para que a Mariana não goste de jogadores de futebol...
Com a revelação do passado ficou tudo bem claro!!! Sempre associei este "ódio" a jogadores de futebol, por um amor mal acabado, mas afinal...
Bem, vamos lá ao próximo!!!
Beijo
Ana
http://desempreparasempre28.blogspot.pt/
hoje nao há? ja nao consigo estar um dia sem ler um capitulo desta historia !!
ResponderEliminarbeijinho
O mistério de parte do passado da Mariana já foi revelado, agora falta a outra parte, afinal que é o pai da criança?
ResponderEliminarA Mariana não teve uma infância, não teve tempo de ser criança, foi obrigada a ser adulta muito cedo, por isso é que ela reage a certas situações da maneira que nós já vimos.
Gostei muito, adorei, e foi bom ver que ela confia no Ruben, afinal é para isto que os amigos servem. Foi um capitulo muito intenso, e infelizmente esta é a história de muitas Marianas.
Beijocas
Fernanda