terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

084 - "Esquece que existo que vou fazer o mesmo e agora tchau!"

Mariana
Ser encurralada pelo meu irmão só fez com que percebesse que afinal todos me abandonaram, estou sozinha e por isso mesmo agarrei no saco onde tinha a minha roupa e saí sem olhar para trás mas quando já tinha a mão na porta
- Mariana fica - o Ruben levou a mão à porta, impedindo que a abrisse - por favor fica, não nos abandones! Pensa no teu irmão, em nós e no nosso bebé - levou as mãos à minha barriga, o que causou um arrepio - não desistas de nós por alguém que não merece e olha para mim enquanto falo
Fiz a vontade e olhei, o Ruben chorava mas isso não me demoveu, tanto que quando se calou
- Espero ver-te na próxima consulta afinal és o pai do filho que carrego!
- Mariana…
- Esquece que existo que vou fazer o mesmo e agora tchau!
O Ruben não impediu e por isso consegui finalmente sair daquela casa…

Ruben
Assim que a porta se fechou, senti o meu mundo a desabar, deixei o corpo escorregar contra a parede e sentei-me no chão, segundos foi o tempo necessário para ter nos meus braços o Martim, o menino manteve-se firme e do meu lado
- Não fiques assim a mana vai voltar eu sei que vai
- Martim não tenho a mesma certeza - fui sincero - e prometo que nada vai mudar, que continuarei a ser o teu pai mas se a Mariana não mudar de ideias… - interrompeu
- Ela é que fica a perder porque eu vou ficar contigo e quando o bebé nascer vem viver com a gente porque a mana tá parva e maluca!
Ainda tentei demovê-lo mas o miúdo estava convicto demais, ao contrário de mim, que estava um farrapo.
Acabei por levantar-me do chão e regressar à sala, sempre com o piolho agarrado à minha cintura
- Desculpa Ruben - olhei-a
- Só quero ficar sozinho - olhei para o Martim - nós precisamos um do outro, é só isso que vos peço!
Não insistiram, despediram-se e saíram. Caí no sofá com o menino sempre por perto e só quando a fome apertou é que fomos até à cozinha, comemos sopa e fomos para a cama, afinal nenhum dos dois estava com cabeça para mais…
***
Há uma semana que a Mariana saiu de casa e que a única coisa que sei é que alugou um quarto numa residencial, foi a única coisa que disse na mensagem que mandou, depois de várias tentativas minhas para que atendesse o telemóvel.
Hoje acordei com esperança que algo mude, afinal temos consulta e não fui o único a acordar mais animado
- Pai - entrou no meu quarto e deitou-se ao meu lado - deixas eu ir contigo?
- Ficas muito chateado se não fores?
- Porquê que não posso ir?
- Porque não sei como é que a Mariana está e como reagirá…
- Mas eu tenho saudades da mana e eu e tu juntos vamos conseguir convencer a mana a voltar
- E se não conseguirmos? - o menino olhou
- A gente vai conseguir!!
Acabei por concordar e prometi que o ia buscar ao colégio, por isso mesmo quando o fui deixar tive que avisar a diretora.
As horas passaram e voltei ao colégio, o Martim estava mesmo animado e com a certeza que a irmã regressa hoje para casa.
A viagem até ao hospital foi tranquila e quando entramos vimo-la sentada, aproximamo-nos e
- O que é que ele está aqui a fazer?
- Boa tarde para ti também - respondi
- Fiz uma pergunta!
- Não ralhes com o Ruben porque fui eu que pedi para vir
- E ele faz-te as vontades todas
O menino teria respondido mas chamaram a Mariana e por isso entramos, não era a primeira vez que o menino assistia às consultas e por isso ficou sossegadinho ao meu colo até ao momento que a Mariana foi fazer a ecografia, o Martim estava à minha frente e assim que a médica colocou o gel na barriga da irmã, o puto fez das dele e agarrou na minha mão e na da irmã e uniu-as, o meu amor não recusou, o que deixou-me radiante, ainda mais porque assim que vimos o nosso bebé, a Mariana apertou-me a mão, olhei-a e vi que as lágrimas caiam sem controlo, não resisti em levar os dedos da outra mão ao seu rosto e limpar as lágrimas, o meu amor não teve qualquer reação e isso voltou a entristecer.
A consulta correu bem e assim que saímos
- Vamos lanchar? - o menino não perdeu tempo
- Não tenho fome - a Mariana manifestou-se de imediato
- Mas o bebé tem que eu sei - falou todo senhor de si, o que fez com que esboçasse um ligeiro sorriso
- O bebé come em casa!
- Qual casa? Eu sei que não tens casa e o bebé precisa de uma casa por isso tens de vir com a gente
- Foi para isso que o trouxeste? - virou-se para mim - Achas que não chega já?
- O Martim veio porque pediu, porque tinha saudades tuas e se diz o que diz é porque é o que sente!
- Tens saudades minhas?
- Sim vem com a gente para casa!
- Esquece, Martim não vou regressar, se queres podes vir comigo mas - interrompeu
- Eu fico com o pai! - falou determinado e foi mais longe quando - pai já podemos ir embora que quero ir brincar contigo
***
- Mãe tem a certeza que o Martim pode ficar consigo?
- Ruben vai descansado que o menino fica bem comigo!
- Mas qualquer coisa ligue logo!
- Ruben vais para a Madeira, achas mesmo que adianta ligar se alguma coisa acontecer? Filho, concentra-te no teu trabalho que é o melhor que tens a fazer, por ti, pelo Martim e pela Mariana. Deixa que tomo conta do meu neto!
Não estava nem um pouco agradado com esta situação mas com o jogo contra o Marítimo não restou outra solução que pedir à minha mãe para ficar com o Martim, uma vez que o menino se recusou em ficar com a irmã, que continua ausente das nossas vidas, já há um mês. Temos falado diariamente mas as conversas resumem-se ao bebé e ao Martim, a Mariana recusa abordar outro assunto e sempre que tento desliga o telefone.
***
O fim-de-semana passou e com o meu regresso à capital, o meu piolho voltou a ficar comigo, estava a ver televisão quando o menino se sentou ao meu colo com cara de quem aprontou alguma
- O que é que fizeste? - riu
- Nada…
- E agora a verdade! Conheço-te por isso sei que fizeste alguma! - voltou a rir
- Eu fiz mesmo!!! - falou todo contente
- O que é que fizeste?

Mariana
Já se passou um mês, desde que saí da casa do Ruben, já tive com o meu irmão e falo com o Ruben todos os dias, sei que o miúdo está bem, aliás nunca teve tão bem, pelo menos com o Ruben tem tudo o que precisa e nunca lhe faltará nada, já o mesmo não acontece quando está comigo, não tenho as mesmas condições que o Ruben.
Hoje acordei triste, os dias estão a tornar-se cada vez mais deprimentes e fisicamente dolorosos, talvez por estar a um mês de ser mãe ou então porque o bebé mexe-se muito e magoa-me, só sei que quero que esta fase passe rapidamente, preciso do meu bebé, de sentir que tenho algo só meu. Preciso de voltar a sentir que tenho importância na vida de alguém e talvez aí encontre o rumo certo para a minha vida.
Estava a ver os anúncios no jornal, na tentativa de encontrar um apartamento em que a renda esteja de acordo com o que posso pagar quando ouvi o telemóvel, atendi ao ver quem era e assim que o Ruben informou que o Martim estava doente não pensei duas vezes e fui até ao apartamento.
- Podias ter usado as tuas chaves - falou ao abrir a porta
- Já não vivo aqui! Esta já não é a minha casa! - atirei
- O teu irmão está no quarto - olhei-o - acordou a dizer que lhe dói muito a barriga, tentei levá-lo ao médico mas o menino pediu que te chamasse
- O que é que lhe deste como jantar?
- Hey acalma-te lá! Não tenho culpa, o jantar ontem foi peixe cozido com legumes, além disso o menino ontem estava bem, quando o deitei estava excelente!
Não respondi, fui até ao quarto do Martim, que estava deitado na cama
- Mana vieste!
- O Ruben ligou a dizer que te dói a barriga
- Pois dói! - algo na forma como falava intrigou-me, aproximei-me e levei a mão à sua testa
- Febre não parece que tenhas mas vou buscar o termómetro.
Saí do quarto e deixei-o na companhia do Ruben, no entanto quando regressei
- O Martim?
- Foi à casa de banho
Respondeu serenamente e aproximou-se, voltei a sentir as suas mãos na minha barriga e assim que as senti, também percebi que o nosso bebé se tinha mexido e não fui a única, porque o sorriso do Ruben denunciou-o. Estava perdida a olhá-lo, a contempla-lo enquanto dava miminhos ao nosso bebé quando ouvi a porta a fechar
- Ruben… - olhou e sem abrir a boca foi até à porta, tentou abrir mas
- Está fechada
- Só podes estar a gozar comigo! - aproximei-me e comprovei o que tinha dito - isto foi tudo armação? Usaste o meu irmão para…
- Cala-te Mariana! Não te admito! Posso tolerar muita coisa agora que afirmes que usei o menino para ficar fechado no seu quarto contigo não admito! Até porque se pensares um pouco percebes que daqui a nada tenho treino!
Não respondi, preferi antes gastar energia a pedir ao Martim que abrisse a porta e como resposta tive um papel por baixo da porta, olhei para o Ruben e bastou isso para entender que não ia juntar o papel, afinal já não o consigo fazer.
- Toma!
Agarrei no papel e li
Mana não ralhes com o Ruben porque ele não sabe de nada fui eu que pensei no plano para juntar a mana e o pai eu gosto muito dos dois e não quero escolher quero viver com os dois.
Pensa no bebé ele precisa de um pai e de uma mãe e tu e o Ruben tão a ser mais criança que eu
Tu gostas dele e o Ruben anda tão triste ele cuida de mim como um pai e eu quero preciso dos dois tu e ele são os meus papás
Ruben não fiques zangado mas eu não tou doente eu só disse que tava para a mana vir porque tu tens de dizer a ela para ficar a mana tá a ser parva mas eu sei que se pedires e se deres miminhos à mana ela muda de ideias
Falei com a vó Bela e ela vai deixar eu na escola e quando a mana deixar de ser maluca liga para a vó que ela vem abrir a porta e eu também avisei que não podes ir ao treino
Beijinhos do vosso filho Martim
- Não acredito nisto…
O Ruben aproveitou para se aproximar demasiado, colou mesmo o seu peito às minhas costas com a desculpa de ler o bilhete, tê-lo assim tão perto fragilizou-me, ainda mais quando levou novamente as mãos à minha barriga e voltei a sentir o nosso bebé, fechei os olhos e só os voltei a abrir quando
- Sabes que o puto tem razão em tudo o que escreveu, não sabes? - o Ruben falava-me ao ouvido
- Chega - tentei afastar-me mas o Ruben veio atrás - não compliques!
- Não complico? Quem está a complicar és tu! Mariana admite que erraste quando saíste cá de casa, o teu lugar é ao nosso lado, o Martim tem toda a razão quando afirma que somos uma família - voltou a aproximar-se mas agora estava de frente para mim - mor sinto-me perdido, preciso de ti, juro que tentei respeitar o teu espaço mas não dá mais, chegar a casa e não te ter está a tornar-se insuportável, mais ainda quando olho para o teu irmão, o menino não admite mas está triste, o puto quer estar contigo mas não o admite porque sabe que se o fizer que o vou levar
- E eu só estou à espera que esse dia chegue!
- Então espera sentada! Mariana por muito que o Martim sinta a tua falta e queira estar contigo nunca o vai admitir, o menino meteu na cabeça que se o tiveres contigo que nunca mais voltas para mim, o que não deixa de ser verdade, caramba será que ainda não entendeste que no meio disto tudo, foi o único adulto mas isso não é sinónimo que esteja a aceitar e compreender a tua decisão de nos teres abandonado
- Eu é que abandonei? Então e tu? Não fizeste nada para evitar - berrei por estar farta de o ouvir
- Querias que fizesse o quê? Que te contrariasse? Mariana simplesmente respeitei o que achei ser a tua vontade porque estás grávida, conheces-me muito mal se julgas que desisti de nós, porra depois de tudo o que vivemos acreditaste mesmo que desisti? - baixei o olhar - Responde!
- Querias que acreditasse no quê? Deixaste que saísse e nunca pediste que regressasse
- Não pedi nem pedirei, mas isso não significa que não estou à tua espera! Só deixei que partisse porque naquele momento achei que era o melhor…
- Mas não era - murmurei e em segundos tinha-o abraçado a mim, o que fez com que quebrasse, o desespero tomou conta de mim e chorei, chorei como um bebé, o Ruben nada disse, simplesmente puxou-me contra o seu peito e conduziu-nos até à cama do Martim, acabei deitada e agarrada a ele, não sei o tempo que ali estivemos, só sei que quando voltei a mim, tinha a mão do Ruben por baixo da minha camisola, em contacto directo com a minha barriga, sentir aquele calor, aleado aos pontapés do nosso bebé fez com que sorrisse, acabei por suspirar, o que fez com que o Ruben olhasse - tenho que comer por isso liga para a tua mãe e diz o que precisares para que venha abrir a porcaria da porta!
O Ruben não questionou, agarrou no telemóvel e ligou para a mãe, mas ao contrário do que pedi, foi sincero, alegou que tinha de comer e apelou ao bom senso da mãe, algo que resultou porque minutos depois a porta abriu, sinal que estava no apartamento à espera do telefonema, não a consegui olhar, saí directa para a casa de banho e depois para a cozinha. Agarrei numa peça de fruta e fui à sala, peguei na mala e quando a coloquei ao ombro com a intenção de sair
- Mariana espera - o Ruben agarrou-me no braço - fica… se for para alguém sair então que seja eu - olhei-o - estás grávida, o nosso bebé está quase a nascer, não vos quero a viver numa residencial, além disso esta é a casa do teu irmão, não faz sentido saíres…

Ruben
Apesar da iniciativa do Martim e da Mariana ter vacilado em determinado momento, acabou por sair de casa, mesmo depois de pedir que ficasse e de dizer que se fosse para sair que saía eu
- Filho tem calma
- Mãe agora não!
Saí de casa, precisava de tempo para aceitar o fim do meu casamento, a postura da Mariana não deixou dúvidas, depois da nossa conversa, sair daquela forma não restou grandes dúvidas…
Almocei uma sandes e um sumo, não tinha fome para mais e quando chegou a hora fui buscar o meu piolho ao colégio, sem saber como dar a notícia, mas com a certeza que a tenho de dar.
- Pai!!! - o menino assim que me viu correu - A mana onde tá? - suspirei
- Desculpa Martim… - falava sem o conseguir olhar - desculpa por ter falhado e por ter-te desapontado
- A mana não aceitou voltar a viver com a gente?
- Não…
- Mas eu fiz tudo bem eu fechei bem a porta para ela não fugir
- Oh meu amor, não fiques triste, a culpa nunca foi tua.
- Mas eu quero continuar a viver com o pai - falou determinado
- Martim vamos para casa e falamos lá, pode ser?
- Tás a querer dizer que vais deixar eu - fez beicinho
- Não isso não! Nunca te vou deixar mas temos que falar
O menino não se mostrou muito convencido mas não resistiu, deu-me a mão e seguimos para o carro.


Que conversa é esta que o Ruben quer ter? Como reagirá o Martim? E a Mariana até quando durará esta teimosia?

3 comentários:

  1. Mauuuuu!!!!
    E um par de estalos na cara da Mariana a ver se acorda não?!
    Detestei este final porque fiquei no suspense e preciso de saber o resto!!!
    Vá lá! Publica o proximo!!!!
    Bjokinhas da Prima

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  2. Oh , a Mariana tem de voltar para casa , ai ai ...


    PRÓXIMO :)


    Beijinhos


    Catarina

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  3. Olá!

    Eu concordo plenamente com a prima Maria, o que a Mariana tá a merecer é um valente par de estalos para ver se deixa de ser casmurra, egoísta, orgulhosa. Nem depois do Ruben lhe pedir para ficar ela muda de ideias? Mas afinal ela quer o quê? eu acho que aí é que está o problema ela não sabe o que quer, ela só sabe é dar uma de vítima que todos a abandonam e tal, quando é ela que sai de casa, ela que acorde para a vida e seja a pessoa ponderada e adulta que sempre foi, porque uma coisa é certa o Ruben tem razão quando diz que o Martim foi o mais adulto dos três, e nem assim ela muda de ideia, porra que é mais teimosa do que eu.
    Agora este final não teve graça nenhuma, porque já não tenho mais capítulos em atraso, logo vou ter que aguardar o próximo, e porque me cheira que o Ruben vai fazer asneira, ele que nem pense em ir deixar o Martim com a irmã, assim é que o puto fica mesmo triste, até porque já lhe disse que quer ficar com ele, em relação à Mariana espero que abra bem a pestana e veja bem o mal que tem feito a ela ao bebé ao Ruben e ao irmão e tudo porque é mais teimosa que uma burra.
    Adorei mas agora fiquei curiosíssima com o próximo capitulo. Espero que a tua veia inspiradora continue, e que inspire a Mariana a reconsiderar a asneira que fez.
    Beijocas

    Fernanda

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