Mariana
Saí disparada da casa do Ruben e só parei quando entrei no quarto, no espaço que foi meu durante as últimas semanas. Deitei-me um pouco, precisava de descansar e por muito que tenha tentado esquecer o que se passou não consegui, sempre que fechava os olhos recordava as palavras que o meu irmão escreveu, bem como o tempo que passei nos baços do Ruben.
Era nisso que pensava quando voltei a sentir o meu bebé, hoje está ainda mais irrequieto do que é normal e inconscientemente dei comigo a pensar que talvez seja a forma de pedir que volte para casa, sitio de onde nunca deveria ter saído.
Descansei durante um bocado e quando voltei a sentir-me com forças suficientes, saí da cama, arrumei tudo o que tinha na mala e saí. Acertei as contas e não olhei mais para trás, chamei um táxi e trinta minutos depois, entrei em casa.
Esperava encontrar o Ruben mas o silêncio que se fez ouvir foi suficiente para entender que não estava, fui até ao quarto e ao largar a mala no chão, houve algo que despertou-me a atenção, esse algo foi uma moldura que estava na mesa-de-cabeceira do lado da cama que é do Ruben, peguei nela e ao virá-la para mim, tive a necessidade de sentar-me na cama, talvez porque esperava uma foto mas na realidade o que está emoldurado é uma montagem de uma foto do Ruben e do Martim bem recente, tão recente que não tenho lembrança de a ter visto, logo só pode ser destes dias mas o que arruinou ainda mais o meu estado de espírito foi ver a última ecografia que fiz, bem do lado da foto deles e como legenda tinha escrito pelo meu irmão “Eu, o pai e o bebé”
Fiquei alguns minutos a olhar para a moldura mas acabei por coloca-la no mesmo sítio, voltei a deitar-me e ao fechar os olhos fui novamente invadida por recordações, mas desta vez recordações boas, dei comigo a sorrir.
***
Adormeci, acho que já não dormia um sono tão descansado desde que saí de casa, o certo é que acordei revigorada, tanto que ao olhar para o relógio, saí da cama, fui até à cozinha e fiz um bolo, afinal o Martim deve estar a regressar do colégio e o mínimo que posso fazer é mimá-lo, o meu menino já sofreu demasiado com a minha atitude.
Fiz o bolo e ainda sumo, o Martim adora sumo de laranja natural. Ouvi a porta e segundos depois o Ruben a pedir que o Martim fosse colocar a mochila no quarto, não ouvi o menino a contrariá-lo e isso fez com que entendesse que alguma coisa mudou nestas semanas que estive longe, parece que agora o miúdo obedece sem resmungar.
- Pai tenho fome – sorri ao ouvir o piolho, afinal há coisas que não mudam mesmo
- Bebe um iogurte que já te faço o lanche, deixa-me só ligar à minha mãe
Iogurte é sinónimo de vir até à cozinha e por isso mesmo refugiei-me atrás da porta para ver a reação do meu irmão, o menino assim que viu o bolo, serviu-se de imediato, tirou uma fatia e agarrou no copo de sumo, saiu
- Martim o que é que estás a comer? – sorri ao ouvir o Ruben
- Bolo e sumo – respondeu
- Onde é que foste buscar isso?
- Na cozinha pediste à vó Bela para fazer o bolo da mana e que eu gosto muito - observa-os escondida, quis ver a reação deles e o primeiro a perceber foi o Ruben, o meu amor sorriu quando o Martim perguntou se tinha pedido à mãe para fazer o bolo – tás a rir porquê?
- O bolo está bom?
- Sim… parece mesmo o da mana mas ainda não falaste porquê que tás a rir
O Ruben não respondeu, aliás saiu da sala, não foi preciso segui-lo para saber o destino, foi ao quarto procurar-me e enquanto foi e veio
- Pshiu… - o menino olhou de imediato
- MANAAAAAAAAAAAA
Lógico que o copo de sumo que tinha na mão foi direito ao chão e mais depressa ainda voltei a sentir aqueles bracinho de volta da minha cintura
- Voltaste?
Desviei o olhar, com o grito que mandou é mais do que óbvio que o Ruben ouviu, tanto que o encontrei encostado à ombreira da porta e de sorriso no rosto
- Mana… tás a ouvir… - puxou-me o braço mas não olhei, a verdade é que não consegui desviar o olhar do Ruben
Ruben
Chegamos a casa e pedi ao miúdo que fosse arrumar a mochila no seu quarto, algo que fez sem refilar e quando regressou pediu comer, disse para beber um iogurte, porque precisava mesmo de fazer uma chamada.
O menino foi e regressou com uma fatia de bolo, achei estranho porque não tinha feito e a minha mãe saiu antes de mim, mas se tudo aquilo era estranho quando o Martim falou parecia o bolo da irmã, foi impossível ignorar os factos, sorri ao perceber que a Mariana podia estar no apartamento, fui ao nosso quarto e vi a mala no chão, no entanto não a encontrei, afinal estava na sala, sim que o grito do piolho não deixou margem para dúvidas.
Fui até à sala e acabei por encostar-me na ombreira da porta, o Martim já estava agarrado à Mariana, vê-la novamente em casa deixou-me radiante, ainda mais quando o meu amor apesar de ter o irmão a chamá-la não desviou um segundo o olhar do meu
- Mana ó mana tás a ouvir
O menino continuava a chamá-la mas a Mariana estava noutra dimensão, na mesma que a minha, comunicávamos simplesmente pelo olhar, vi uma pontinha de receio, talvez medo que não a aceitasse de volta, como se isso fosse possível…
Apesar de para nós parecer uma eternidade não aguentei mais do que meros segundos até aproximar-me e beijá-la, voltar a sentir os seus lábios, o sabor da sua boca, fez com que acreditasse que é mesmo real, que voltou para casa.
- Desculpa… - desviou o olhar
- Mariana – levei a mão ao seu rosto – só quero que prometas que não voltas a fugir, não quero pedidos de desculpas, só quero poder adormecer com a certeza que quando acordar estás do meu lado – suspirei – este mês foi horrível…
- Eu sei mas…
- Esquece os mas! Amor os mas são isso mesmo, não passam de mas… chega de incertezas e de mas… chega do passado… só quero presente e futuro, presente porque te tenho a ti e ao Martim, futuro porque quero envelhecer do teu lado e rodeado dos nossos filhos e netos, Mariana eu amo-te tanto e só percebi isso quando saíste de casa, senão fosse o Martim não sei como teria aguentado, não voltes nunca mais a fugires de ti própria, porque foi isso que fizeste, fugiste de ti e do que estás a sentir, tive tanto medo…
A Mariana não deixou que continuasse, beijou-me tranquilamente e depois prometeu que não volta a fugir.
Acabei sentado no sofá com a Mariana no meu colo, precisei de senti-la, de tocá-la para acreditar que a tenho de novo. O meu amor simplesmente deitou a sua cabeça no meu ombro e assim ficou até ao momento que caí em mim
- Amor – olhou – o menino?
- Não sei…
A Mariana saiu do meu colo e depois de levantar-me também, demos as mãos e fomos procura-lo, o Martim estava no seu quarto, sossegado a fazer os trabalhos da escola mas assim que nos viu, sorriu e veio até junto de nós
- Porquê que vieste para aqui? – o piolho olhou assim que falei e mais uma vez surpreendeu
- Porque a mana e o pai tinham que falar e eu tinha os trabalhos para fazer mas agora já fiz e agora é a minha vez de tar com a mana – falou todo senhor de si, o que fez com que sorrisse, já a Mariana não conseguiu disfarçar a emoção e chorou – não quero ver a mana triste
- Oh piolho não estou triste – deu-lhe um beijo – muito pelo contrário… e quero pedir desculpas – o pirralho interrompeu
- O pai já desculpou por isso eu também mas eu não quero que voltes a fazer mais isto
- A mana promete que não faz mais… agora anda cá que tenho muitas saudades dos teus miminhos
Mariana
Confesso que no mais íntimo do meu ser tinha receio da reação dos meus homens, talvez por isso tenha preferido observar primeiro e só depois apareci. Mas a verdade é que reagiram muito melhor do que esperava, aceitaram sem perguntas nem cobranças, o Ruben simplesmente pediu que não voltasse a repetir, como se isso seja possível.
O Martim é que surpreendeu, não esperava que percebesse que precisávamos daquele tempo a dois, mas o certo é que nos deixou sozinhos e ainda fez os trabalhos, para no fim mimar-me.
Estava no meu quarto com o Martim abraçado a mim quando
- Mana posso contar uma coisa?
- Sim...
- Eu já sabia que o pai gostava muito de ti mas agora ainda sei mais
- Porquê?
- Porque ele ficou muito triste. O pai não sabe mas eu vi ele chorar quase todos dias - doeu ouvir - ele quando pensava que tava sozinho ficava ainda mais triste por isso é que eu não podia ir com a mana porque a mana tem o bebé para fazer companhia mas o pai só tinha eu - as lágrimas caíram - mana não chores agora já passou.
- A mana promete que nunca mais te deixa - interrompeu
- E ao pai? Eu não quero ver mais o Ruben triste e depois há o bebé ele precisa do papá e da mamã juntos
- Não te preocupes que nunca mais vos deixo
- Mana porquê que deixaste a gente?
- Porque fiquei muito triste… a mana não gosta de recordar o passado e não reagiu da melhor forma
- Mas quem teve mal foi o Paulo foi ele que não quis saber da mana tal como a nossa mãe também não quer e sabes eu tive a pensar e agora se a mãe voltasse eu não ia com ela porque para mim tu é que és a minha mamã e o Ruben o meu papá
- Oh piolho - puxei-o ainda mais para mim - está um homenzinho!
- Aprendi com o Ruben - a pronta resposta do pirralho fez com que o Ruben gargalhasse, denunciando assim a sua presença
- Estavas aí à muito tempo? - perguntei porque não o tinha visto, uma vez que estava de costas para a porta e o meu amor encostado à mesma
- Não… - aproximou-se - mas ouvi a última parte da conversa
- Mana eu posso pedir uma coisa?
- Diz!
- Eu sei que não gostas do teu pai - senti o Ruben a apertar-me a mão - mas a Kika não tem culpa e ela anda triste e eu não gosto de ver ela triste e tu podes mudar isso, podes dizer à Kika que gostas dela? - o pedido do meu irmão deixou-me estarrecida
- Posso… a mana depois fala com ela
- Fixe!!! E ela depois pode vir cá para casa?
Fiquei sem saber o que dizer, por não esperar tal pedido e talvez por isso o Ruben resolveu levar para a brincadeira e
- Não achas que ainda és muito novo para trazeres as namoradas cá para casa??
O Ruben brincou mas o Martim ficou todo envergonhado, o que fez com que alinhasse na brincadeira
- Mau… namorada? Mas que história é esta?
- Tenho de ir à casa de banho!
O Martim saiu do quarto a correr e o Ruben gargalhou
- Que história é esta?
- Não sei… só atirei aquilo para o ar para se calar mas parece que acertei em cheio
- Só espero que não dê confusão… - suspirei pesadamente
- Depois falo com ele - sorriu - agora descansa.
Tentei ter em consideração o seu pedido mas uns minutos depois
- O Martim surpreendeu-me imenso
- Também a mim… lidou com tudo de uma forma demasiado adulta
- Pois…
- O que é que se passa? - olhei-o - O que é que te incomoda?
- Incomoda-me o facto de o meu irmão estar a crescer demasiado rápido, não quero que perca a infância
- Não concordo, amor o teu irmão está a aproveitar a infância, simplesmente tem uma capacidade fora do normal para entender o que o rodeia
- O problema é mesmo esse, o miúdo percebe coisas que não devia, às vezes preferia que fosse mais ingénuo
- Queres mesmo falar do Martim? - sussurrou ao ouvido, aproveitando para depositar depois uns beijinhos
- Ruben… - suspirei
- Tenho saudades tuas… - admitiu
- Não estou com disposição - falei ao sair da cama
- Não estás com disposição ou não queres? - olhei - É que são coisas distintas - falou calmamente, percebi que não estava a cobrar mas sim que tentava entender o meu lado
- Ruben - voltei a sentar-me na cama, algo que o meu amor aproveitou para se aproximar - tenho saudade tuas mas só a ideia de… tu sabes - gargalhou - pára de gozar! - atirei aborrecida
- Adoro ver-te assim envergonhada - sorriu
- Como estava a dizer - ignorei a provocação dele e continuei - não me sinto confortável, desculpa mas não tenho disposição para isso…
- Deixa de ser tonta - beijou-me - não precisas ficar assim - voltou a sorrir - até porque quando falei que estou com saudades não estava a referir-me a fazer amor contigo mas sim de estar simplesmente abraçado a ti, a dar e receber mimos inocentes
- Estás a falar isso só para ficar bem
- Lá ficar bem fica principalmente quando estou a ser sincero, Mariana tenho saudades de fazer sexo e não nego, até porque desde que engravidaste mas principalmente que a barriga começou a crescer que foste reduzindo progressivamente mas sinceramente não fui surpreendido, amor já o esperava porque tu és assim e sim preferia que não fosses mas também se não fosses não eras tu, era outra qualquer e quem eu quero és tu, quero-te tal como és, percebe isso.
- Sei que falho e que - o Ruben calou-me com um beijo
- Não se trata de falhar ou não, trata-se de te sentires confortável, prefiro ter-te nos meus braços serena porque sabes que não forçarei do que não te ter, caramba acho que já provei o que tinha para provar no início da nossa relação ou tenho de recordar que esperei por ti?
- Mas isso é diferente… - saí do quarto mas veio atrás de mim
- É exactamente a mesma coisa!
- Não, não é, no início não sabia o que andava a perder e agora sei - atirei aborrecida, já o Ruben gargalhou, o que fez com que o recriminasse com o olhar, tanto que
- Oh mor desculpa mas agora teve piada!
Só não respondi porque ao chegarmos à sala reparamos que o Martim não estava sozinho, mas sim na companhia do Mauro
- Mano?!
- Boa noite - sorriu
- Oi - cumprimentei-o
- Estou a ver que há novidades no paraíso!
Senti-me incomodada perante o comentário do Mauro e não sei se o Ruben percebeu ou se simplesmente quis terminar de imediato com o assunto, só sei que
- Precisas de alguma coisa? - o Mauro olhou - Afinal vieste cá… deves querer alguma coisa!
- Ver como estavas… - hesitou por segundo mas acabou por falar - a mãe disse que a ideia do puto - aproveitou que estava sentado ao lado do meu irmão para lhe fazer cócegas, o que fez o Martim rir - não tinha resultado, estava preocupado - notei sinceridade e alguma preocupação - contigo… - teria continuado mas
- Eu conheço a mana por isso sabia que ela voltava para a gente - a segurança com que falou, voltou a atingir-me - ela às vezes acha que sabe tudo mas não sabe, mas agora já sabe que eu nunca vou fazer o mesmo que ela fez eu não vou deixar o pai Ruben só porque ela quer
- Martim - o Ruben interrompeu-o mas
- Pai eu vou dizer sempre aquilo que penso e a mana teve mal, ela só quis saber dela e eu gosto muito de ti - falava agora para mim - mas eu já sei ver as coisas e a mana teve mal porque deixou o pai e a mim, nós não temos culpa de teres um pai que não gosta de ti, tu fizeste o mesmo que a mãe fez, tu fugiste da gente quando sempre falaste que não podemos fugir, eu não sei muita coisa mas sei que nem eu, nem o pai, nem o bebé e nem a Kika temos culpa de seres maluca e achares que tás bem é sozinha, mas eu não quero tar sozinho eu agora sei o que é ter uma família e não quero perder isto porque tu tás chateada com uma pessoa que nunca quis saber de ti - não tive coragem para pedir que parasse, talvez por ter consciência que o meu irmão tem a razão do seu lado - mana esquece o Paulo, tu não precisas dele para nada mas nós - o Martim estava agora abraçado à cintura do Ruben, que se mantinha do meu lado atento à conversa e a observar-me, no fundo o miúdo muito provavelmente estava a falar o que o Ruben também pensa - precisamos de ti, tu és a minha mamã e eu e o mano - aproximou-se de mim, colocando a sua mão na minha barriga - precisamos de ti e do pai juntos, tu não és como os nossos pais, tu sabes o que é certo e por isso voltaste mas não podes voltar a fazer isto porque deixas eu e o pai muito triste, pode ser?
As palavras do Martim arrasaram comigo de uma forma inexplicável, ainda assim prometi que não volto a fazê-lo, mas o Martim voltou a surpreender
- Eu não quero que prometas eu só quero que não faças mais!
- Ok…
- E quero outra coisa - desviou o olhar para o Ruben mas voltou a incidir sobre mim para verbalizar de imediato o seu pedido, que surpreendeu-nos…
O que terá pedido o Martim?
Oláaa
ResponderEliminarAdoreiiii *_*
Beijinhos
Catarina
Fantástico....
ResponderEliminarQuero mais... Tou super curiosa para ver o próximo...
Continua.... Cada vez ta melhor...
Olá!
ResponderEliminarFinalmente a Mariana teve a atitude correcta, e soube assumir que esteve errada ao fugir dos problemas. Realmente o Martim tá mesmo um homenzinho, e dos três é o que se comporta como um verdadeiro adulto, adoro o puto, tem sempre alguma coisa para dizer e consegue dar umas valentes lições de moral ao Ruben e à Mariana. Até tenho medo do que ele irá pedir, porque aquela cabecinha tá sempre a trabalhar.
Adorei, sei que tenho mais para ler, mas mesmo assim vou dizer que quero mais.
Beijocas
Fernanda