Mauro
Em conversa com a minha mãe, fiquei a saber que o plano do Martim não deu resultado, por isso resolvi passar pelo apartamento do Ruben, com a intensão de ver como estava o meu irmão.
Toquei à campainha e quem abriu a porta foi o míudo
- Olá tio!!! - foi impossível não sorrir
- Olá sobrinho - retribuí o comprimento e o menino gargalhou - estás muito contente
- Pois tou a mana voltou para casa
- Sério?
- Sim mas entra eu tou a ver bonecos - voltei a rir ou não fosse o Martim ter virado costas e seguido caminho, imitei-o e fui até à sala, sentei-me do seu lado com a intensão de puxar pelo miúdo para saber detalhes mas não o cheguei a fazer, porque vi entrar a Mariana e o Ruben
Acabei por confessar ao que vim mas a conversa não teve seguimento, isto porque o Martim intrometeu-se e acabou por dizer umas verdades à Mariana, a verdade é que no meio disto tudo, o menino foi o único que teve a coragem de dizer sempre o que pensava, talvez pela inocência que a idade lhe confere.
A Mariana ouviu calada, sinceramente duvido que tivesse à espera que o irmão lhe desse na cabeça da forma que deu. A conversa continuou e fomos todos surpreendidos pelo pedido do Martim
- Eu quero muito que o Ruben seja o meu pai
- Mas a mana já concordou que o chamasses de pai - interrompeu a irmã
- Não tás a perceber eu quero que o Ruben seja o meu pai de verdade - o pedido do Martim se por um lado deixou o meu irmão mais uma vez emocionado, por outro atingiu a Mariana, conheço-a o suficiente para perceber que as palavras do puto a magoaram, ainda assim tentou manter a calma e explicar que não podia ser, mas o miúdo não lhe deu hipótese porque
- Tás a mentir eu sei que pode ser tu só dizes que não pode porque se voltares a fugir da gente depois eu já posso ficar com o pai e tu não podes dizer nada mas eu não quero saber disso, eu sei aquilo que quero e quero ser filho de verdade do Ruben porque ele gosta de mim e não deixa eu sozinho como tu deixaste
A Mariana não reagiu e talvez por isso o Ruben interviu
- Oh piolho - o menino olhou e antes que o meu irmão tivesse tempo para dizer o que fosse
- Eu já sei que vais dizer que não pode ser porque tás com medo que a mana seja outra vez burra e se vá embora mas se ela for já não faço nada para ela voltar porque se ela for é porque não gosta da gente como a gente gosta dela - quanto mais o Martim falava, mais estarrecido ficava, talvez porque no fundo a razão estava do seu lado - por isso é que eu quero ser teu filho de verdade porque eu não quero tar sempre com medo de perder o pai só porque a mana é burra - olhei por segundos para a minha cunhada, o que permitiu ver que tinha os olhos rasos de água, ainda assim não reagiu, acho mesmo que se o meu irmão não tivesse intervido que o miúdo continuado
- Já chega! - o Ruben foi mais ríspido mas assim que o miúdo se calou, falou calmamente - Martim, já percebemos todos que estás muito chateado com a Mariana, também estou - assim que admitiu, a Mariana deixou de conseguir controlar as emoções, as lágrimas caíram sem controlo - amor nós não esperávamos que a Mariana fosse capaz de sair de casa e por isso é que dói tanto dentro dos nossos corações, mas a mana voltou e pediu desculpas, nós gostamos muito dela e os três juntos vamos superar tudo, agora não podes estar sempre a dizer o mesmo, a Mariana já sabe qual é a tua opinião - voltou a interromper
- Mas por causa dela não podes ser meu pai de verdade e eu quero ser teu filho de verdade porque é isso que eu sinto no meu coração - o menino admitiu, já com os olhos rasos de água, o que deixou-me arrepiado
- Oh pequenino - o meu irmão sentou-se e puxou-o para o seu colo - no meu coração és meu filho de verdade, é isso que interessa
- Mas eu quero mais, quero poder dizer na escola que és meu pai e não ser chamado de mentiroso e eu sei que podes ser, porque se os meninos da instituição onde a mana viveu podem ter um pai e mãe de verdade tu também podes ser o meu
- Isso não é assim tão simples - a Mariana interviu mas
- Tu cala-te que a conversa é entre eu e o meu pai, porque foi ele que não me deixou sozinho
A Mariana não disse nada, simplesmente saiu da sala
- Martim não podes falar assim com a tua irmã! - o menino olhou para o Ruben com cara de amuado, tanto que - E não adianta ficares chateado comigo porque tenho razão, por muito que a Mariana tenha agido mal, não podes ser mal educado, além disso a tua irmã precisa mais do que nunca de apoio e não de ser acusada de te abandonar.
- O pai já desculpou mesmo de verdade a mana?
A Mariana que tinha saído, regressou à sala, mas fui o único que a viu, uma vez que o Ruben e o Martim estavam de costas para a porta, como a rapariga não se manifestou, talvez por querer ouvir a resposta do meu irmão, também não a denunciei
- Já! Martim por muito que tente perceber o que a Mariana sente sempre que pensa no passado não consigo, isto porque não sei nem sequer consigo imaginar o que é crescer sem pais, sem miminhos, o que é acordar de noite e não ter ninguém para dar-me um beijinho, Martim o que quero que percebas é que apesar de não concordar com a decisão da Mariana, não consigo ficar chateado, porque amo-a muito e porque acredito que não volta a fazer o mesmo
- Tás a falar muito mas não tás a dizer aquilo que quero ouvir - foi impossível não sorrir, o miúdo não verga facilmente, nisso é parecido com a irmã
- Sabes bem que para mim és meu filho e - interrompeu
- E eu quero ser de verdade! - voltou a insistir, acabei por meter-me na conversa
- Martim - olharam os dois - o que queres dizer com ser filho de verdade?
- Eu quero ter o nome do Ruben! - a segurança com que falou surpreendeu-me, ainda mais quando - E eu sei que posso ter porque os meninos da instituição onde a mana viveu quando vão viver para a casa do papá e da mamã que os vão buscar passam a ser filhos de verdade e é isso que quero porque assim eu já posso escolher e mesmo que a minha mãe apareça eu já não preciso ir com ela e eu não quero ir com ela porque eu agora já percebo as coisas e já sei que não foi a mana que não deixou a nossa mãe viver com a gente, foi a nossa mãe que não quis, por isso agora sou eu que não quero e se o pai da Mariana apareceu agora depois de tanto tempo a minha mãe também pode aparecer e eu não quero deixar de viver com o Ruben, com a mana e com o bebé - olhei para a Mariana, estava com a mão na barriga e com um sorriso no rosto, o primeiro desde que cheguei
- Martim mesmo que a tua mãe apareça, não pode levar-te com ela - o menino olhou para o Ruben - porque a responsável por ti é a Mariana
- Tás a dar desculpas porque não queres que seja teu filho de verdade, é isso?
- Não… Martim infelizmente não é assim tão simples, não basta querer. O que estás a pedir é que te adopte, mas isso é muito complicado, porque só os meninos que não têm pais ou que vivem em instituições é que normalmente podem ser adoptados, percebes?
- Tás a dizer que é complicado mas não tás a dizer que não pode ser! - voltei a rir, ainda que disfarçadamente
- Não vais desistir, pois não?
- Não! Eu aprendi a ser teimoso contigo - controlei a vontade de gargalhar
- Comigo???
- Sim porque tu falaste que a mana ao inicio não quis saber de ti mas que foste teimoso e conseguiste convencer a mana por isso eu também sou teimoso e vou convencer-te a seres meu pai como convenci a mana a voltar para casa
Com a resposta do miúdo, foi impossível conter a gargalhada, até porque a própria Mariana gargalhou
- Ah estás aí!!! - o meu irmão falou
- Parece que sim… - aproximou-se e sentou-se ao lado do Ruben que continuava com o Martim ao colo, mas isso não impediu que abraçasse a Mariana e lhe desse um beijo
- Parem com isso! - o menino resmungou, o que fez com que olhassem
- O que é que se passa? Martim, não estás contente por a mana ter voltado?
- Não sei… - a sinceridade do irmão, magoou-a - eu fiquei contente mas agora já não sei se estou porque não sei se vais voltar a fazer o mesmo e porque o Ruben não quer ser meu pai de verdade por causa de ti
- Martim… - o Ruben ainda tentou falar mas a Mariana não deu hipótese
- Já chega! Martim, a mana sabe que errou muito e só eu sei o que dói ter essa certeza, por isso é que não voltarei a fazer o mesmo, para ser feliz preciso de vocês os dois ao meu lado. Quanto ao que pedes, o Ruben tem razão quando diz que não basta querer, não é assim tão simples
- Mas pode ser ou não?
- Sinceramente não sei
- Então quem sabe? - o meu irmão olhou para a Mariana e uns segundos depois
- Martim se queres mesmo que te adopte, a única coisa que posso prometer é que vou falar com o advogado para perceber se é ou não possível.
- E se for, tu queres?
- Oh piolho, o facto de te adotar não mudará nada, não será por isso que gostarei mais ou menos de ti, percebes?
- Sim mas não respondeste à pergunta que fiz!
- Quero! Se der para te adoptar e se permitirem, podes ter a certeza que o farei, mas não quero que fiques com muita esperança, porque provavelmente não vai dar, entendes?
- Sim…
Ruben
Provavelmente devia ter sido mais frio quando vi e percebi que a Mariana cedeu e voltou para casa, mas a verdade é que não consegui, por muito magoado que esteja, o que mais quero é tê-la comigo, amo-a.
Foi essa a razão pela qual preferi dar mimo em vez de disparatar, mesmo quando pensou que estava a exigir mais do que simples mimos, manti a calma e expliquei o que quis dizer, o certo é que acabei a rir ou não fosse o meu amor admitir que agora tem noção do que anda a perder. A conversa tinha tudo para continuar mas ao entrarmos na sala vimos o meu irmão, estava preocupado comigo e expressou isso mesmo, apesar da minha tentativa falhada para que se calasse, no entanto quem voltou a surpreender foi o Martim, o puto disse o que lhe vai na alma e não foi nada meigo para a irmã, principalmente quando pediu que o adoptasse, apesar da Mariana não o dizer, sei que ficou muito magoada.
Conseguir fazer com que o Martim perceba que o que pede não é tão linear como quer, o menino não insistiu mais no assunto, mas continuou no meu colo, até ao momento que o Mauro saiu, uma vez que o fui acompanhar à porta
- Já se acertaram? - olhei-o
- Sim…
- Que sim mais murcho foi esse?
- Não comeces… simplesmente não quero falar… pelo menos não hoje
O meu irmão não insistiu e quando regressei à sala só encontrei a Mariana
- O menino?
- Foi para o quarto… - respondeu quando já estava sentado do seu lado mas assim que o fiz, também ela se levantou
- Onde vais? - olhou-me
- Deitar-me - falou serenamente mas algo no seu tom de voz fez-me tremer
- Posso ir contigo? - voltou a olhar
- Podes…
Segui-a até ao nosso quarto, a Mariana começou a tirar a sua roupa da mala e a arrumar, ajudei-a e no fim deitou-se, sem dizer uma palavra que fosse. Imitei-a e também me deitei, fiquei uns minutos a observá-la, estava deitada de costas para mim, mas acordada, ou não fosse vê-la a mexer-se. Aguentei o silêncio uns minutos mas
- Podes virar-te para o meu lado? - olhou por cima do ombro - Mariana temos de falar, isto assim não pode continuar! - mudou de posição, o que permitiu ver os seus olhos - Fala… diz de uma vez o que te vai na alma
- Só quero descansar!
- Sinceramente não reconheço a Mariana que conheci, a Mariana por quem me apaixonei, com quem namorei e casei… mas tudo bem… quando quiseres falar diz! - saí da cama mas quando já estava na porta do quarto
- Ruben… - olhei - fica…
- Fico a fazer o quê? A incomodar-te? Já percebi que voltaste para casa mas por algum motivo que desconheço não estás segura da decisão que tomaste, isso magoa e deixa-me desconfortável, ainda mais quando tento falar contigo e te fechas no teu mundo
- Desculpa…
- Desculpa?! Achas que é isso que vai resolver os nossos problemas e fazer com que esqueça que saíste de casa da forma que saíste? Porra até compreendo que não seja fácil aceitares tudo o que se passou, mas caramba será que não confias em mim para desabafares, porque é disso que se trata, Mariana preferiste sair de casa, fugiste da realidade mas não é a fugir que os problemas desaparecem e o que mais raiva dá, é ter a consciência que sabes disso muito melhor do que eu! Nunca foste de fugir e abandonar os que amas, no entanto…
- Errei e sei disso mas sinceramente voltava a fazê-lo… porque continuo a sentir-me estranha, sinto-me presa no meu próprio corpo, não planeei nada disto, não desejei encontrar alguém que revirasse a minha vida como o fizeste, quando fui para Braga, foi com a intenção de refazer a minha vida com o meu irmão longe de Lisboa, não fui para namorar, casar e ser mãe, muito menos ponderava regressar, nunca pensei ser amada da forma que amas, de ter alguém a cuidar de mim, do Martim encontrar alguém muito melhor do que eu ao ponto de perceber que está muito melhor contigo do que comigo, não sirvo para nada, foi por isso que fui embora, não estou aqui a fazer nada e cada vez tenho mais certeza disso…
- Não digas isso - aproximei-me da cama e voltei a sentar-me, mas agora mais perto da Mariana
- É o que sinto, vocês estão muito melhor sem mim
- O que falas não tem sentido nenhum! O Martim não está melhor comigo, o miúdo está bem com os dois, o teu irmão a única coisa que quer é uma família, vê se percebes isso! Quanto ao resto, responde com sinceridade, estás assim tão infeliz com o nosso casamento?
- Não é uma questão de estar infeliz - respirou fundo - é mesmo de não reconhecer-me mais… o problema não é teu, é meu… dava tudo para voltar a ser simplesmente a Mariana, aquela que vivia em função do irmão, que trabalhava como empregada para sustentar a casa, aquela que no final do dia adormecia cansada mas feliz… sinto-me inútil
Não consegui dizer nada, simplesmente a abracei e assim que o fiz, o meu amor quebrou, segundos foi o tempo que levou até sentir a camisola molhada pelas suas lágrimas, deixei-a chorar e quando foi vencida pelo cansaço, fiquei a observá-la a dormir.
O que se passará com a Mariana?
Como será os próximos tempos?
A Mariana tem de voltar a sentir-se bem *_*
ResponderEliminarAdorei e quero mais :)
Beijinhos
Catarina
Olá!
ResponderEliminarGostei imenso do capitulo!
Bem pensei que as coisas com a Mariana iam começar a ficar melhor...Estou mesmo curiosa quanto ao próximo!!
Fico à espera de mais!
Beijinhos
Oi!
ResponderEliminarBem por este pedido do Martim juro que não estava à espera, ele tem tudo bem pensado, ele sabe que é filho mas também sabe qual a razão por que quer tudo no papel, nunca se deve subestimar uma criança e muito menos uma com a lábia do Martim. O Martim tem respostas e atitudes de adulto mas não deixa de ser uma criança daí os amuos, mas o que eu gostei mesmo foi quando ele disse que tinha aprendido a ser teimoso com o Ruben, o puto tem toda a razão, ele é fiel ás suas convicções, e se o Ruben foi teimoso o suficiente para conseguir conquistar a Mariana porque é que ele não há-de conseguir ser o Martim Amorim no papel?
Em relação à Mariana, continua com macaquinhos na cabeça, vamos ver no que isto vai dar.
Adorei,
Beijocas
Fernanda