terça-feira, 30 de julho de 2013

075 - “escola da vida”

Ruben
A tarde estava a ser animada com muita brincadeira à mistura mas ainda tínhamos reservada uma pequena surpresa para o Martim, já que não fazia a mínima ideia que ainda faltava uma convidada, afinal até a mim a Mariana surpreendeu-me no dia que pediu para que entrasse em contato com o Paulo de forma a saber se seria possível a presença da Kika, nem que fosse só por um bocadinho, no aniversário do Martim.
O Paulo ao início mostrou-se reticente, até porque a Kika ainda precisa de ter muitos cuidados, mas depois de falar com a Filipa, ligou a avisar que trariam a menina durante um bocadinho, para cantar os parabéns ao Martim.
Apesar da Mariana o ter feito pelo Martim sei que estava a custar-lhe, afinal ia novamente reencontrar-se com quem não faz questão. Estava agora a dar mimo à grávida mais linda quando vi a entrar na sala a Kika acompanhada pelo pais, a menina assim que nos viu veio a correr abraçar-se à Mariana.
- Tinha saudades tuas! – atirou imediatamente – Porquê que nunca mais foste ver-me? - a menina queria respostas e isso foi evidente mas a sorte esteve do lado da Mariana uma vez que o Martim apareceu e a Kika esqueceu o assunto.
- Boa tarde! – levantei-me para cumprimentar os pais da Kika que retribuíram.
- Olá… - a Mariana falou e um momento estranho se seguiu uma vez que a Filipa a cumprimentou com dois beijinhos, gesto que o Paulo também repetiu, aquilo mexeu com o meu amor, tanto que se desculpou com o fato de ter que olhar pelas crianças para se afastar.
***
O Martim exigiu que tanto a Mariana como eu, estivéssemos do seu lado no momento em que cantamos os parabéns, o menino soprou as velas e depois ajudou na distribuição do bolo para logo depois se “perder” a desembrulhar os presentes recebidos. A festa estava a terminar e para desconforto da Mariana os pais da Kika deixaram-se ficar, já que a menina continuava na brincadeira com o Martim. Fomos “obrigados” a fazer “sala” aos convidados o que estava cada vez a incomodar mais a Mariana.

Paulo
O convite de Ruben para que levássemos a Kika ao aniversário do Martim surpreendeu, não por quererem a presença da minha menina mas sim por o convite ser extensível a nós, talvez por terem noção que não iriamos deixar a nossa pequena sozinha por ainda estar em recuperação e ter que ser vigiada permanentemente.
Acabamos por aceitar o convite, ainda assim avisei que iriamos mais tarde para a menina não se cansar tanto, algo que o Ruben compreendeu. O dia da festa chegou e mais uma vez tive a certeza que a minha presença incomoda a Mariana ou não fosse afastar-se sempre que lhe era possível.
A festa terminou, mas nós ficamos mais um pouco, porque a Kika brincava alegremente com o Martim, foi quando os adultos mantinham uma conversa de circunstância que as crianças se aproximaram.
- Oh mana a Kika não acredita que tens um bebé na barriga – falou aborrecido o que nos fez a Mariana sorrir – diz que os bebés não saem da barriga das mães! – confesso que a curiosidade em saber como lidaria a Mariana com o assunto fez-me ficar atento.
- Kika – a Mariana chamou-a e a menina ao aproximar-se acabou sentada ao seu colo – o Martim tem razão, tenho mesmo um bebé na minha barriga.
- Como é que isso aconteceu? – perguntou confusa, talvez porque da única vez que tentou abordar o assunto comigo e com a Filipa lhe contamos a história da cegonha.
- Pois mana eu também não sei... – o Martim sentou-se ao colo do Ruben à espera que a irmã o esclarecesse.
- É simples – a forma tão serena como a Mariana olhava para os pequenos só me deixou ainda mais curioso para ouvir o que tinha a dizer e não fui o único, já que os adultos presentes na sala fizeram silêncio – quando dois adultos gostam muito um do outro, como nós – olhou para o Ruben sorrindo e que sorriso lindo, aquele sorriso... por momento reconheci-o mas só podia ser a minha memória a trair-me – chega uma altura que queremos mais do que uns beijinhos, a isso chama-se fazer amor e quando o fazemos a mulher pode engravidar, isso acontece porque há a libertação de umas sementinhas por parte do homem que a mulher recebe e que pode ou não resultar num bebé.
- Mas de onde aparece as sementinhas? – o Martim perguntou imediatamente, estava curioso. Olhei para a Filipa e percebi que estava incomodada, talvez porque no fundo deveria ser ela a ter esta conversa com a nossa filha e não uma quase estranha.
- Da pilinha – a Mariana respondeu com uma naturalidade tremenda, parecia que não o fazia pela primeira vez.
- Então eu também tenho essas sementinhas?
- Ainda não... só quando fores mais crescido – esclareceu o menino.
- E como é que as mulheres recebem? – desta foi a Kika, o que surpreendeu-me a mim e à Filipa.
- É pelo pipi mana? – a pergunta do Martim surpreendeu mas o menino esclareceu imediatamente – se nós é por onde fazemos xixi as mulheres também deve ser...
- Sim, tens razão!
- Mas mana como é que essas sementinhas passam do homem para a mulher?
- Quando crescemos e encontramos a pessoa de quem gostamos muito descobrimos que a pilinha e o pipi se completam e quando isso acontece as sementinhas passam de um lado para o outro – estava cada vez mais fascinado com o momento que estava a presenciar, a Mariana estava a dar-me uma tremenda lição do que é educar uma criança com base na verdade adaptada à capacidade de perceber dos miúdos.
- Mana tás a dizer que a pilinha entra no pipi? – o menino estava confuso e isso notou-se na cara que fez.
- Sim – a Mariana respondeu tranquilamente.
- Ahhhhhhhhhh – o menino levou a mão à boca como se tivesse feito uma grande descoberta – é por isso que na televisão a gente vê o homem e a mulher na cama e sem roupa e depois aparece os bebés.
- Sim, é isso!
- Ah tá bem! – o Martim ficou esclarecido tanto que se virou para a Kika – anda vamos brincar.
Assim que se afastaram e quando ainda estava a assimilar tudo o que tinha presenciado, a forma como uma jovem que se encontra neste momento grávida do seu primeiro filho, já aprendeu o que é ser mãe, ouvi o Mauro a meter-se com a cunhada.
- Oh Madalena acertamos em cheio na escolha da madrinha para o Rafael, assim quando o puto começar com as dúvidas existenciais mandamo-lo perguntar à madrinha! – com a saída do Mauro acabamos por nos rimos à exceção da Mariana.
- Quando foi para explicar calaram-se todos mas agora já riem! Mas terei todo o gosto em esclarecer o meu afilhado, já que o pai dele não será capaz de o fazer... menino! – a Mariana ripostou animadamente.
- Para quê que vou estar a passar pela vergonha de explicar isso se és pró no assunto!
- É... nisso tenho que concordar – o Ruben meteu-se na conversa – a Mariana é mesmo pró em muita coisa e a principal delas todas é em ser mãe – levou a mão à barriga da mulher, num gesto de carinho que fez a Mariana sorrir enternecida – e esposa, companheira, amiga,... – a rapariga ficou envergonhada o que fez com que sorríssemos todos, é inegável o tamanho do amor que os une, estava perdido em pensamentos quando a voz da Filipa despertou-me.
- Mariana – a rapariga olhou-a – o Martim é o único irmão que tens?
- Sim...  – a Mariana olhou o Ruben por segundos - mas porquê?
- Ah... é a forma como abordaste o assunto, o teu à vontade, a forma como explicaste às crianças como se fazem os bebés, deu-me a sensação que não foi a primeira vez que o fizeste, afinal fizeste o que sinceramente não consegui fazer quando a Kika perguntou como os bebés apareciam...
- Tem razão... não foi mesmo a primeira vez que abordei o assunto com crianças – a Mariana por instantes pareceu ficar incomodada algo que a Filipa não deve ter percebido porque voltou a questioná-la.
- E posso saber onde leste sobre o assunto, é que notou-se que estudaste o assunto – o olhar da Mariana alterou por completo, antes desta abordagem da Filipa o brilho era de felicidade mas no fim era de mágoa ou não fosse o seu olhar ficar “vidrado” não a conheço muito bem mas arrisco dizer que fez um enorme esforço para não deixar as lágrimas cair, se já tinha essa impressão quando a Mariana começou a falar tive certezas.
- Não li... existe algo chamado a “escola da vida”, foi assim que aprendi, sabe que crescer numa instituição onde os mais velhos são os pais dos mais novos não trás só coisas más, dá-nos uma bagagem para a vida, foi lá que aprendi muito do que sei hoje – o Ruben olhava-a atento, parecia ter medo que a sua mulher fosse quebrar a qualquer momento - foi a ouvir o que os mais velhos tinham a dizer e depois a transmitir aos mais novos que aprendi a dialogar com as crianças, a falar a mesma linguagem que eles, a compreendê-los, afinal tínhamos todos o mesmo em comum, uma vida sem a presença dos pais – olhou-me por segundos o que fez-me arrepiar - sem ninguém para contar a historia da cegonha, descobrimos que fomos simplesmente o resultado de um encontro falhado entre uma pilinha e um pipi – a Mariana falava com uma mágoa tremenda – foi por ter esta noção desde muito cedo que recuso-me a inventar historinhas de encantar para explicar o que por incompetência os adultos por norma não conseguem fazer, prefiro milhões de vezes passar por situações embaraçosas do que recorrer a mentiras para responder às dúvidas do meu irmão, porque só assim o Martim irá crescer a saber o que é certo do que é errado, que há consequências em tudo que fazemos, até na forma como usamos o que temos entre as pernas, porque garanto que a última coisa que gostaria de ver é o Martim a fazer o mesmo que no passado um canalha fez àquela que me pariu, a divertir-se com uma miúda e depois a abandoná-la com um filho na barriga, porque isso é meio caminho andado para esse ser inocente ter uma infância infeliz, passar fome, ser maltratado e desprezado.
A Mariana falava quase sem parar para respirar e pela reação dos presentes, só o Ruben é que já sabia, mas a certeza que a Mariana não falava de algo que ouviu mas sim do que viveu fez com que voltasse a pensar no passado, seria possível que... a dúvida tomou proporções gigantescas, tanto que um medo avassalador tomou conta de mim...
- Desculpa – a Filipa falou assim que a Mariana se calou – não o falei com intenção de te magoar...
- Fique descansada que não consegue esse feito... – o tom de voz da Mariana alterou, agora era rude talvez por isso o Ruben tentou chama-la à razão pedindo calma mas isso só a revoltou mais
- Calma Ruben? Como é que queres que tenha calma quando sabes que a única coisa que me mata por dentro é ter que olhar nos olhos do meu irmão e mentir-lhe porque não posso dizer que nunca privou com o pai porque a mãe dele nem sequer se lembra quem é ele – o Ruben fechou por segundos os olhos, talvez por saber que a Mariana estava a falar sem pensar e que por isso mais tarde poderia arrepender-se - porque tava tão drogada que provavelmente abriu as pernas a outro drogado ou então a um estupor – olhou-me por segundos - que a enganou quando ainda era uma inocente e que depois a abandonou grávida – senti-me a ficar sem pinga de sangue - levando-a a afundar-se no mundo da droga, a deixar a filha dias sozinha porque tinha que vender o corpo para comprar droga, que voltava para casa com droga mas comida nem vê-la.
Sabes que lhe minto quando digo que a mãe está a trabalhar longe e como tal que ficou com a irmã, quando sabes que não priva com a mãe porque é uma drogada e só quer saber dele para conseguir dinheiro fácil, sabes que deixei de viver a minha vida sem preocupações para dar a infância que nunca tive ao meu irmão – a Mariana deixou rolar as lágrimas que há muito segurava pelo seu rosto –tive que fugir para que o menino cresça longe do mundo em que vivi até ter a infelicidade de ser entregue aos meus tios que em vez de me darem amor faziam de mim saco de pancada, sabes os anos que vivi na instituição, a ver outras crianças a encontrarem um pai e uma mãe enquanto ficava simplesmente a assistir... - a Mariana voltou a parar numa tentativa falhada de regular a respiração que há muito estava irregular devido ao choro, o Ruben simplesmente a abraçou - Como queres que tenha calma quando sabes perfeitamente que estou a ser obrigada a olhar para um dos responsáveis por não ter tido infância e fingir que não é o sangue dele que me corre nas veias – o meu “mundo” desabou porque agora já não era uma dúvida remota, agora era uma certeza inabalável – não deixa de ser irónico ser o lixo que rejeitou, que nem sequer quis conhecer, a salvar a única filha que tem, realmente não há cabrão nenhum que não tenha sorte e a – fixou pela primeira vez o meu olhar, doeu vê-la naquele desespero - sua foi o meu caminho se ter cruzado com o do Ruben porque se não fosse isso a esta hora podia já não ter filha, a sua sorte é que não lhe herdei os genes de abandono, ao contrário de si não consegui virar a cara a uma menina inocente e que naquele momento precisava de mim – foi impossível segurar as lágrimas que prendia a todo o custo desde o momento que tive a confirmação daquilo que menos queria – você mete-me nojo mas uma coisa tenho que admitir tem pela Kika o amor que nunca demonstrou ter aqui pelo acidente de percurso, só espero sinceramente que seja o pai que nunca foi para mim, a menina é um anjinho que não tem culpa do que você fez no passado, dei-lhe a oportunidade de poder continuar a ver o seu tesouro a crescer por isso ame-a é só o que lhe peço, não quero nada de si a não ser distância!
A Mariana assim que terminou de falar, respirou profundamente, limpou as lágrimas e tentou sair da sala mas impedi ao falar, o que a fez parar e encarar-me
- Espera... filha
- Não lhe admito que me chame isso, sou filha sou mas não é sua, sou filha da dor e do ódio, da dor de ter crescido sem infância, sem pais e do ódio de ter o seu sangue a correr-me nas veias...
- Deixa-me explicar... – os olhos da Mariana espelhavam uma mágoa tremenda
- Explicar o quê? Que era novo e que fugiu das responsabilidades?! Poupe-me que como deve ter percebido não sou ingénua porque nunca soube o que era isso, até isso você roubou-me...
- Desculpa – baixei o olhar – desculpa por não ter assumido, por ter fugido às responsabilidades, tens toda a razão para odiar-me mas deixa-me pedir-te desculpas, é só o que posso fazer...
- Não! Nunca terá o meu perdão porque para mim você não é ninguém, é que nem os animais abandonam os seus filhos como você fez, não quero nada de si ou melhor quero distância! Você não merece nada, é asqueroso, o que fez não se faz, renegou um filho...
- Tens toda a razão de odiares-me mas acredita que não odeias mais do que eu – a Mariana sorriu de forma irónica – odeio-me por ter abandonado a tua mãe mas naquela altura não pensei nas consequências e quando anos mais tarde tentei saber de ti nunca consegui, perdi o rasto à tua família – interrompeu-me
- Qual família?! Aquela que só se lembrava que existia quando tinham o stress para descarregar? Poupe-me porque se há algo que não tive durante anos foi família, só quando entrei para a instituição é que descobri o que era isso e mais tarde quando recebi o Martim nos meus braços, não lhe admito que tente sequer meter-se no meu lugar e páre de tentar fazer-me entender o seu lado porque nem aqui nem no raio que o parta o vou desculpar e muito menos ouvir, você não é nada...
A Mariana odeia-me e com toda a razão, não consegui reunir forças para contraria-la, simplesmente percebi que falasse o que falasse a Mariana nunca iria ouvir e se duvidas tivesse, essas teriam sido dissipadas no momento em que saiu da sala, deixando para trás a família do Ruben incrédula com a descoberta que fizeram, olhei para a Filipa, obriguei-me a isso mesmo pela primeira vez desde que a Mariana afirmou que o canalha a quem tem um ódio de morte sou eu, vi a minha mulher como nunca antes a tinha visto, não consegui decifrar sequer se estava a odiar-me perante o que ouviu ou se estava tal como os restantes só em completo choque perante a realidade que nos assombrou sem aviso prévio.

Ruben
Nunca pensei que o dia fosse terminar com a Mariana a deitar cá para fora tudo o que guardou dentro dela durante anos. Quando começou a falar, ainda tentei acalmá-la dado que estava a perder o controlo e adivinhava-se o que aconteceu, a verdade veio ao de cima, mas só consegui o inverso, revolta-la ainda mais, o que culminou com um momento doloroso, tanto para o meu amor como para o Paulo, já para não falar da Filipa que quanto mais a Mariana falava mais se desiludia, afinal não conhece a pessoa que tem do seu lado.
Optei por deixar a Mariana falar tudo, não voltei a interrompe-la por saber que depois de começar teria que chegar ao fim, só assim conseguirá colocar uma pedra sobre o assunto, isto é se algum dia for possível...
A Mariana falou e no fim o Paulo ainda tentou defender-se mas o meu amor não lhe deu hipótese nenhuma, acabando por sair da sala, deixando para trás o rasto da destruição de um homem e quem sabe de uma família, arrepiou-me ver a Filipa no estado que estava, sinceramente não sei que consequências terá este desabafo da Mariana naquela família mas também não estou minimamente preocupado, afinal e a bem da verdade o Paulo está a colher o que semeou no passado. Estava remetido ao silêncio, afinal não havia muito mais a ser dito quando a voz do Paulo despertou-me.
- Sabias?
- Sim! – fui claro na resposta – Do início ao fim...
- Perguntei-te o porquê da Mariana reagir da forma que reage à minha presença e nunca o disseste...
- Paulo, você é só o meu empresário e um conhecido, ela é a minha mulher, acha mesmo que lhe ia dizer? – baixou o olhar – Até lhe digo mais... não consigo condenar a Mariana por afirmar que o odeia, quando foi isso que senti no dia que contou-me o seu passado, senti uma revolta tremenda porque tinha diante de mim uma pessoa estupenda, que surpreendia-me sempre mais e mais a cada dia que passava, que dava e dá tudo de si às pessoas a quem chama de amigas, a sofrer porque após insistência minha acabou por desabafar, ouvir tudo pelo que passou e saber que em grande parte a culpa era do pai, revoltou-me, nunca lhe disse, afinal já bastava a enxurrada de sentimentos menos próprios que tinha e tem por si, mas quantas não foram as vezes que dei comigo a pensar que se tivesse a infelicidade de me cruzar com o responsável que não saberia como reagir... a Mariana nunca disse o nome mas sempre disse que era alguém ligado ao futebol, andava muito longe de imaginar que afinal conhecia bem o seu pai, aliás descobri no dia do nosso casamento, só nesse dia é que fiquei a saber, isto porque a Mariana não conseguiu arranjar forças para lidar com os sentimentos contraditórios que iam dentro dela, afinal era o nosso dia, dia em que supostamente era para ser vivido na plena felicidade e alegria, mas não... nesse dia a Mariana levou o maior murro no estomago que podia suportar, ainda assim impediu-me de trocar de empresário, porque apesar de tudo, você é um dos melhores, ela voltou a pensar primeiro em mim e depois nela, acabei por fazer-lhe a vontade mas jurei para mim mesmo que tudo isto iria comigo para a cova, talvez por saber que a Mariana preferia ignorar do que passar pelo que está a passar agora...
Ignoramos durante alguns meses até que por ironia do destino o Martim se tornou amigo da Kika, a Mariana não conseguiu impedir o irmão de construir a amizade que os une, porque o menino não tem culpa, mais uma vez pensou nos outros e só depois nela. Escusado será relembra-lo que quando a Kika mais precisou da irmã que a Mariana disse o “estou presente”, fez os testes de compatibilidade de espontânea vontade, o resultado foi positivo e no mesmo momento que teve essa confirmação decidiu salvar a vida da menina, como a Mariana falou, felizmente não lhe herdou os genes de abandono...
Agora não venha com cobranças para cima de mim por nunca lhe ter dito nada... Desculpe mas não tem sequer moral para o fazer...
Não lhe dei tempo para dizer o que quer que fosse, saí da sala para procurar quem mais precisava de mim naquele momento. Encontrei a Mariana no quarto que foi meu, estava tão absorta na sua dor que nem deu pela minha entrada, só mesmo quando deitei-me do seu lado e a abracei é que a Mariana voltou a “quebrar”, chorou até não aguentar mais, acabou por ser vencida pelo cansaço e adormeceu exausta, sem voltarmos a tocar no assunto, talvez por não haver necessidade, afinal conheço de trás para a frente e da frente para trás toda a dor que o meu amor transporta dentro de si...

Anabela
Poder proporcionar uma festa de aniversário ao Martim deixou-me radiante e por isso quando a Mariana falou comigo no sentido de a festa ser cá em casa não hesitei e ainda afirmei que a ajudava a preparar tudo, por isso nestes últimos dias convivi mais do que algumas horas com a Mariana, o que contribuiu para perceber algumas mudanças no entanto nunca comentei por receio que pensasse que estava a meter-me na sua vida. Resolvi esperar que a confirmação chegasse por sua iniciativa algo que aconteceu no momento que contaram ao Martim da sua gravidez, fiquei feliz, afinal um bebé é algo que tanto o meu filho como a minha nora desejam.
A festa de aniversário foi animada e divertida mas confesso que quando sentei-me junto dos adultos que se encontravam na sala, o fiz por estar exausta. Conversa vai, conversa vem e um momento delicioso chegou, a forma como a Mariana esclareceu as dúvidas sobre como se fazem bebés à Kika e ao Martim deixou-me deliciada mas o inesperado aconteceu quando ouvimos a Mariana a revelar o motivo pelo qual lidou tão bem com as dúvidas dos pequenos, percebi desde o principio que falava do seu passado mas nunca imaginei ouvir o que ouvi, ter consciência do quanto sofreu e como conseguiu vencer, ultrapassando todas as dificuldades e muitas vezes sozinha só contribuiu para entender ainda melhor o que levou o meu filho a apaixonar-se pela Mariana mas principalmente o quanto teve de batalhar para destruir as muralhas de protecção que a Mariana foi construindo durante anos.
Confesso que fiquei surpreendida com o seu passado mas o que fez o meu coração de mãe mingar completamente foi ouvir que afinal o pai da Mariana é alguém que conheço bem e que nunca pensei ser capaz de um ato tão cruel como o de rejeitar uma filha, a Mariana sofreu horrores e em grande parte por sua culpa mas mais uma vez a rapariga demonstrou o coração enorme que tem quando não hesitou em ajudar a irmã, salvando-lhe a vida.
A Mariana foi cruel na escolha das palavras quando falou única e exclusivamente para o Paulo mas no fundo entendi, afinal foi a forma que deve ter encontrado para descarregar toda a dor e ressentimento que carregou durante anos. Mas se a revelação da Mariana deixou-me preocupada com ela e com o bebé que carrega pois foi impossível não perceber o quanto nervosa estava, o que o Ruben falou a seguir deixou-me surpresa, o meu filho não poupou em nada o Paulo.
Assim que o Ruben saiu para procurar a Mariana também a Filipa se despediu de nós, chamou a Kika e saiu, atrás delas foi o Paulo visivelmente abatido, tanto que a menina lhe perguntou o que tinha, lógico que o Paulo não respondeu com a verdade, afinal a verdade é demasiado dolorosa.
- Onde tá a mana e o pai? – a voz do Martim despertou-me a mim, ao Mauro e à Madalena para a realidade dado que nos mantínhamos em completo silêncio, olhamos uns para os outros à procura da melhor resposta a dar ao menino, resposta essa que foi dada pelo Ruben que entrou na sala
- Estou aqui.
- A mana?
- Anda cá – o Ruben puxou o Martim para o seu colo – a Mariana está a dormir – conheço o meu filho e por isso sei que mentiu ao menino.
- Mas a mana não dorme a sesta – o Ruben sorriu perante a dedução do menino
- Pois mas sabes que o teu mano – tocou com o seu dedo na ponta do nariz do Martim – tem muito sono e deixa a Mariana assim muito preguiçosa…
- Isso quer dizer que agora a mana vai andar sempre a dormir?
- Sempre não… mas vai andar mais cansada…
- Oh pai o mano já tem nome? – o meu filho gargalhou com a pergunta do menino o que fez-nos rir a todos também.
- Não.
- Mas ele precisa de um nome!
- Pois precisa mas nós ainda não pensamos nisso até porque não sabemos se é menino ou menina.
- E como é que se descobre isso? O bebé tá na barriga da mana não dá para ver – o Ruben voltou a sorrir
- Dá… a Mariana quando vai à médica, vemos o bebé através de um ecrã parecido com uma televisão – o menino olhou-o com uma expressão cómica de quem não está a acreditar no que ouve – e daqui a algumas semanas quando for maior e se deixar nós vamos conseguir ver se é menino ou menina.
- Não tou a perceber… como é que o meu mano aparece no ecrã – gargalhamos todos, o menino não estava a perceber nada – onde vais? Eu quero que expliques porque eu quero perceber – o Martim reclamou quando o Ruben se levantou do sofá
- Já volto! – o meu filho respondeu e saiu da sala, regressando pouco tempo depois com o meu portátil
- O que tás a fazer?
- Já percebes! – o Ruben ligou o portátil e após uns minutos – vês isto aqui – apontou para o ecrã e o menino abanou a cabeça em sinal afirmativo – então é assim que nós vemos o teu mano.
- Tu já viste o bebé? – o Ruben sorriu
- Já.
- E porquê que eu ainda não vi? – perguntou aborrecido o que levou o Ruben a sorrir
- Amor porque a Mariana ainda só foi a uma consulta e já foi há umas semanas – o menino interrompeu-o
- E porquê que eu não fui? – o Ruben sorriu – Eu também quero ver o bebé.
- Lindo mesmo que tivesses ido connosco não conseguias ver o bebé porque ainda era muito pequenino, além disso a primeira consulta serviu para termos a certeza que a Mariana já tinha o bebé na barriga por isso é que não te contamos logo.
- E depois quando souberam porquê que não contaram logo?
- Lindo porque quisemos contar hoje – nós, os adultos, percebemos que o verdadeiro motivo foi a barreira das 12 semanas algo que o Ruben não iria dizer, afinal o Martim é só um menino e não precisa de saber de certos detalhes – foi assim como uma prenda especial – o menino riu e depois do Ruben colocar o portátil na mesa de apoio que tenho no centro da sala o Martim sentou-se ao seu colo num pedido nítido de mimos, algo que o Ruben deu sem qualquer esforço.

Como terá a Mariana depois de um fim de tarde emocionante??

Olá :)
O capítulo foi publicado em consideração a quem sempre leu e acompanhou a história mas confesso que estou desanimada com o número reduzido de comentários ao capítulo anterior, muitas vezes é nos vossos comentários que encontro força para continuar a escrever e ultimamente tenho a sensação que não acompanham a história, algo que entristece-me no entanto darei um fim à história, não prometo é frequência a publicar porque irá depender da motivação que como já disse anda bem reduzida.
Desculpem o desabafo mas considero que quem sempre leu e que fica curiosa pelo rumo da história merece todo o meu respeito, bem como uma justificação para a demora em publicar... além da falta de tempo, há ainda uma enorme desmotivação que dificulta a escrita...
Fiquem bem!
Beijinhos  

12 comentários:

  1. Ola,

    Adorei este capiulo. Peço desculpa por nao ser muito dada a comentários, mas leio sempre os capitulos de fugida....

    Beijos

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  2. Olá!
    Uau nao esperava...nada disto.
    Nao esperava que a Mariana fosse tão direta na forma como explicou ao irmao como se faziam os bebes. Afinal nao é uma forma usual de o fazer.
    E tambem nao esperava todo o resto. Bem, isto e que foram emoçoes. Realmente com um pai daqueles... Recordar o passado da Mariana foi realmente triste.
    E agora...quero saber como fica tudo depois de tudo isto.

    Beso
    Ana Santos

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  3. Ola

    Capitulo surpreendeu-me não esperava a revelação da Mariana, mas o Paulo estava a pedir....
    Estou a gostar do rumo da historia, continua publicar...

    Beijos
    ML

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  4. Fantástico...

    Quero mais...

    Continua... Tou super curiosa para ver os próximos...

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  5. Ola linda...
    Não estava a espera desta reacção da mariana ainda estou com as lágrimas nos olhos! se fiquem assim na reacção dela com o pai estou para ver como vai ser com a mãe... só espero que ela nao perca o bebé!!
    Espero que a depois deste choque a vida dela muda para muito melhor.
    beijos
    Cátia Gomes

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  6. Bem, a Mariana surpreende-me a cada capitulo, a descrição que ela deu ás crianças de onde vêem os bebés foi um bom exemplo, mas quais cegonhas que trazem os bebés de Paris, perguntem à Mariana que ela explica, confesso que fiquei admirada pela forma como ela o fez, mas de fato não há hipótese para dúvidas, com uma explicação destas até o mais distraído entende.
    Quanto ao momento bombástico do capitulo, acho que a Mariana precisava de tirar este peso de cima dela, se o Paulo já desconfiava, agora ficou com a certeza. A Mariana tem bom coração, e o exemplo disso é que apesar da Kika ser filha de quem ela mais detesta, ela nunca iria deixar uma criança, ainda mais sendo irmã dela,(por muito que ela não o queira é isso que a miúda é) sem tratamento, quando ela podia ser esse tratamento.
    Adorei, o Ruben como sempre está lá para a Mariana, apara-lhe os golpes, adorei mesmo e quero o próximo, e nem venhas com essa conversa de dares um fim à história porque andas com a sensação de que não a acompanham. Dá mas é corda aos dedinhos, porque eu tou cá para ler esses capítulos maravilhosos.
    Continua

    Beijocas

    Fernanda

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  7. Olá.
    Nem que demore um mês podes sempre contar com o meu comentário ;D

    Eu é que não esperava nada esta revelação da Mariana mas por um lado ainda bem que aconteceu.
    Fico curiosa para saber as proporções que vai ter.

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  8. Bem, parece que a bomba estourou de vez... já era de se esperar por causa dessa proximidade toda do Paulo mas a Mariana não deixou de me surpreender (mais uma vez), acho que ela estava precisando sim tirar esse ''peso'' das costas mesmo.
    Ameeeeeeeeeei e agora quero saber o que vem por aí! :P

    Beijinhos :*

    Gabi

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  9. tenho muitas saudades de ler um capitulo novo...

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    1. Olá :)

      Sei que ando em falta para esta FIC mas confesso que está difícil escrever... ainda assim tentarei dar-vos novidades o mais breve possível...

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  10. Ola

    Gostava de ler um novo capitulo e saber novidades das personagens....

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  11. Olá:
    Bem achava que não estava muito atrasada e afinal já li 16 capitulos e ainda não estou actualizada ;) desde Sexta à noite que cada bocadinho que tenho é para ler aqui a fic ;)
    Estava a pensar em comentar só quando chegasse ao ultimo capitulo que tivesse publicado, isto porque estou a ler e a minha pressa é logo passar ao capitulo seguinte :), mas este capitulo não permite que passe sem te deixar umas palavras.
    Nem sei por onde começar... primeiro tenho de te confessar que não consegui segurar as lágrimas com as palavras da Mariana, já esperava que ela não aguentasse mas hoje não estava à espera. Sou uma maria madalena a chorar com historias romanticas, não contava é ficar assim com a historia da Mariana. Bem é de amor que falamos na mesma, é de outra forma.
    Claro que isto só me acontece pela forma fantástica que escreves, estavas palavras da Mariana bem podiam ser um testemunho veridico.
    Esta Mariana é o teu grande desafio, das fic ;), pois tem um relacionamento maduro, seguro e depois exploras todas estas relações familiares, repletas de emoção... Muitos parabéns e muito, muito obrigada por me dares o privilégio de ler.
    Agora vou continuar :)
    Beijinhos.

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